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Quinta-feira, Julho 29, 2021

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Tomar: As caras do Bons Sons que não aparecem nos cartazes

A sétima edição do Bons Sons chega esta sexta-feira, dia 12, com 50 nomes da música portuguesa em sete palcos e os músicos que se inscreverem diariamente no Palco Garagem. Sobre a maioria dos artistas já muito se escreveu e continuamos a apresentar as caras que não surgem no cartaz. Depois dos habitantes de Cem Soldos, apresentamos hoje alguns elementos da equipa organizadora do festival. Quatro nomes entre muitos que preparam quatro dias para milhares de visitantes.

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A equipa organizadora do Bons Sons é constituída por cerca de 50 elementos “oficiais” e a estes juntam-se muitos outros que arredondam o número para 600. São aqueles que melhor conhecem o festival, mas têm pouco tempo para usufruir da média diária de 12 espetáculos nos Palcos Lopes Graça, Giacometti, Eira, MPAGDP (Música Portuguesa a Gostar Dela Própria), Aguardela, Tarde ao Sol, Garagem e no Auditório, entre os dias 12 e 15 de agosto.

Leonor Atalaia, Filipe Cartaxo, Sandra Craveiro e Daniela Craveiro são quatro desses elementos. Todos “nascidos e criados na aldeia”, todos ligados à associação Sport Clube Operário de Cem Soldos (SCOCS). As atividades que realizam durante o resto ano vão-se juntando às muitas que guardam na memória, entre elas a passagem do Bons Sons de “festa de verão” a festival premiado. No entanto, não ficaram simplesmente a assistir na primeira fila. Decidiram subir ao palco e contrariar a ideia de pertencerem a uma “aldeia esquecida do interior”.

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Leonor Atalaia, 24 anos, tem sido voluntária “desde sempre” e entrou este ano para a direção do SCOCS. Na equipa coordenadora do Bons Sons está ligada à área dos camarins e durante o resto do ano faz “a ponte” entre quem continua a desenvolver as iniciativas na aldeia apesar de ter saído de Cem Soldos. Conversámos numa das primeiras estruturas de bar montadas no Palco Eira, um espaço associado desde 2015 à plataforma ideasforward, onde os visitantes encontram o projeto vencedor do concurso de ideias e a zona passa a instalação artística.

A entrada "Igreja" e a sede do SCOCS. Foto: mediotejo.net
A entrada “Igreja” e a sede do SCOCS. Fotos: mediotejo.net

O espaço descampado serviu de pretexto para envolver as pessoas no processo criativo e a solução para a falta de sombras deste ano inspira-se na apanha da azeitona com uma cobertura feita das tradicionais mantas de serapilheira. Os visitantes também podem contribuir para a decoração com o lançamento de balões de hélio que se irão acumulando durante o festival.

Leonor salienta que as novidades de cada edição não são pensadas exclusivamente pelos elementos do SCOCS e é “a aldeia que trabalha para isto tudo” nas diversas ocasiões em que se reúne ao longo do ano. Não apenas no caso do Bons Sons, mas em todos os outros projetos que preenchem o calendário em papel de cenário colocado numa das paredes da sede da associação. Os post-its espalham-se pelos 12 meses e é raro o espaço livre, comprovando as palavras de Leonor quando diz que “este ano temos mais atividades do que fins-de-semana”.

É no mesmo edifício que decorre a reunião “de balanço” de cada festival, para a qual toda a aldeia é “convidada”. É também ali que se desenvolvem as atividades relacionadas com o programa de desenvolvimento local “Aldeia Cultura”, lançado este ano e ao qual Leonor está ligada. Segundo esta, o projeto “é um processo de reflexão da aldeia sobre si própria”, orientado para “a construção de um futuro melhor” e “serve como cola” às atividades inseridas nos seis eixos estratégicos que vão da educação ao urbanismo, passando pelo envelhecimento, cultura, desporto e turismo.

Leonor Atalaia e o Palco Eira. Foto: mediotejo.net
Leonor Atalaia no Palco Eira, que passa de descampado a instalação artística. Foto: mediotejo.net

Os campos de trabalho juvenis realizados em Cem Soldos são uma das iniciativas “coladas” pelo “Aldeia Cultura” e também eles se distinguem dos realizados noutros pontos do país. As atividades realizadas pelo grupo de jovens entre os 12 e os 23 anos incidem na montagem do Bons Sons num trabalho que começa em meados de julho e termina na semana de colónia de férias em São Martinho do Porto.

O coordenador, Filipe Cartaxo de 20 anos, está ligado ao Bons Sons desde a primeira edição, ou seja, há meia vida. No início “ia ajudando nas pequenas coisinhas” e passou a integrar a equipa em 2013. O grupo de amigos com quem se reunia todos os anos para ajudar nesta altura foi “oficializado” no ano passado com a criação do campo de trabalho e a tradição da colónia de férias acabou por ser recuperada.

Filipe mora em Cem Soldos deste sempre e estuda em Tomar. Fala sobre as primeiras edições do Bons Sons e o que mudou entretanto: o aumento no número de dias, de artistas, de palcos, “de tudo”. E se a escala cresceu, também o trabalho de montagens que em 2016 é assegurado pelos cerca de 35 elementos que coordena, monitores incluídos, com “picos” de idade situados nos 12/13 e 18/19 anos.

Filipe coordena o campo de trabalho juvenil responsável pelas montagens. Foto: mediotejo.net
Filipe Cartaxo (à direita) coordena o campo de trabalho juvenil que trata das montagens. Foto: mediotejo.net

A ligação com o SCOCS não exige maioridade e quando muitos dos elementos a atingem já têm experiência de gente grande. Sandra Craveiro diz estar na associação “desde que sou gente”. Começou na famosa colónia de férias, participou em campos de trabalho e hoje, aos 35 anos, integra a direção. O tempo extra dado pelo desemprego foi ocupado pelo muito trabalho que a associação implica, acrescido em altura de Bons Sons.

O apoio logístico no festival começou na segunda edição, altura em que este ainda se assemelhava ao “arraial de verão”. Em dez anos, a festa da aldeia passou a ser visitada por mais de 35.000 pessoas em quatro dias e a responsável pela restauração salienta que aos serviços prestados pela associação nesta edição – dois restaurantes, duas adegas, um bar de bebidas brancas e bares de cerveja – juntam-se 12 concessões.

Sandra considera que o número está adequado às necessidades do festival e não tem que crescer pois acaba por estar limitado ao tamanho da “própria aldeia”. Quando fala da “própria aldeia” não se refere apenas aos espaços públicos, há que considerar “os quintais e as casas” dos habitantes. Um envolvimento da população que transparece a vertente social do festival e acaba por ser a sua imagem de marca. É também a imagem de marca de Cem Soldos durante o resto do ano, cuja “diversidade de atividades torna as pessoas mais disponíveis e leva-as a participar mais”, diz Sandra.

Sandra Craveiro é responsável pelas concessões durante o Bons Sons. Foto: mediotejo.net
Sandra Craveiro é responsável pelas concessões durante o Bons Sons. Foto: mediotejo.net

Atualmente, o SCOCS tem cerca de 1.300 sócios registados, que foram aumentando nos últimos anos. O número é superior aos habitantes da aldeia, que ronda os 600, e se alguns foram trazidos pelo Bons Sons, muitos dos que moram fora de Cem Soldos optaram por se inscrever devido às atividades realizadas ao longo do ano, como noites de fados ou conferências direcionadas para a terceira idade.

A divulgação dessas atividades chega muitas vezes assinada por Daniela Craveiro, uma filha da aldeia, de 31 anos, que está há mais tempo no Bons Sons do que no SCOCS. A saída para Lisboa, onde reside e trabalha, não enfraqueceu as raízes e é a partir de lá que contribui regularmente na área da comunicação. Lembra-se do programa que motivou o surgimento do festival, o “Acontece Cem Soldos”, criado para assinalar o primeiro quarto de século da associação e entrou para a equipa coordenadora na edição seguinte.

À semelhança de Leonor, Filipe e Sandra, foi apanhada de surpresa com a dimensão adquirida pelo festival ao longo da última década e destaca como pontos fortes “a informalidade e a simpatia” com que os visitantes são recebidos e os torna “felizes”. Numa escala inferior, arriscamos dizer que compara o Bons Sons ao jantar que damos em casa para os amigos e do qual ficamos orgulhosos quando elogiam o cozinhado. Resumindo, em Cem Soldos gostam de “receber bem” e Daniela é uma das pessoas que trata dos convites.

Daniela Craveiro no largo que recebe os palcos Lopes-Graça e Aguardela. Foto: mediotejo.net
Daniela Craveiro no largo que recebe os palcos Lopes-Graça e Aguardela. Foto: mediotejo.net

Na sua opinião, o “desafio” do evento pensado para promover projetos musicais feitos em Portugal, emergentes e famosos, “trouxe mais gente” e “mudou mentalidades”. A escolha dos artistas em cada edição é feita com a finalidade do Bons Sons funcionar como “plataforma de divulgação e formação de públicos”. Muitos dos nomes não são conhecidos no resto do país e Cem Soldos não é exceção, mas a população acaba por aceitar o cartaz musical “numa base de descoberta”.

A qualidade dos artistas está assegurada, diz, e a aposta principal dos últimos tempos tem sido “na qualidade do recinto”, sempre numa ótica de sustentabilidade, reconhecida em 2014 no Portugal Festival Awards com o prémio de “Festival mais sustentável” e no ano passado nos Iberian Festival Awards com o prémio “Melhor contribuição para a sustentabilidade”. Reconhecimento que complementa o feedback do público que Daniela carateriza como sendo “muito, muito positivo”.

Algum desse público chegou esta quinta-feira e depois da receção ao campista tem os dias 12, 13, 14 e 15 para ver caras conhecidas e conhecer muitas outras, entre elas as destes e dos restantes elementos ligados à organização do Bons Sons. Devem ser fáceis de detetar. Não são os que chegam para a diversão, são os que recebem em casa e querem que tudo corra bem.

Nasceu em Vila Nova da Barquinha, fez os primeiros trabalhos jornalísticos antes de poder votar e nunca perdeu o gosto de escrever sobre a atualidade. Regressou ao Médio Tejo após uma década de vida em Lisboa. Gosta de ler, de conversas estimulantes (daquelas que duram noite dentro), de saborear paisagens e silêncios e do sorriso da filha quando acorda. Não gosta de palavras ocas, saltos altos e atestados de burrice.

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