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Segunda-feira, Junho 21, 2021

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Tomar | A história que Lena pediu para contar ensina a olhar o céu com o coração

Em Linhaceira, Tomar, o dia 1 de junho foi especial. Não só por ser Dia da Criança, mas também por ser o dia de celebrar alguém que muito diz às crianças daquela terra. A educadora Lena, que partiu em 2019 vítima de doença rara auto-imune, e deixou em todos a saudade da sua alegria, vivacidade, generosidade e dedicação ao outro. Neste dia, em que celebraria os 50 anos do seu nascimento, Helena Marques encontrou o caminho de volta para as suas crianças através de um livro que os ajuda a encontrar a sua voz e presença entre o azul do céu e nas nuvens que vagueiam, todas díspares e com diferentes mensagens, tomando as formas dos bonecos de feltro e esponja que antes produzia carinhosamente com as suas mãos. “Os balões que me ensinaram a voar” quer ser guia e auxiliar os mais jovens a encontrar respostas sobre a perda e o luto, numa história com capítulos reais e onde a educadora é protagonista.

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O pavilhão estava preparado para receber, em tempo de pandemia, cerca de meia centena de pessoas interessadas em participar no lançamento do livro, que por ocasião do Dia da Criança foi levado aos mais novos. A voz de Lena voltou às escolas, pela escrita de Nuno Garcia Lopes, o companheiro de vida, escritor e responsável pela obra.

Aquela apresentação deveria ter estreado este tipo de iniciativas no novo centro escolar D. Pedro V,  situado por trás do pavilhão multiusos da Associação local de Linhaceira, na freguesia de Asseiceira. Local que infelizmente Lena já não conseguiu experienciar.

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Tal não pôde suceder, pelas imensas demonstrações de interesse em participar, e que não se adequavam à lotação inicial permitida no espaço.

Mesmo no amplo pavilhão da Associação Cultural e Recreativa, a fila de carros estacionados denunciava a quantidade de pessoas que ali quis marcar presença. De miúdos a graúdos, a fila inicial compunha-se para adquirir o livro, com o custo de 10 euros.

A atenção e cuidado aos pormenores estava lá, tal como Lena faria. T-shirts personalizadas alusivas ao livro, postais que o acompanhavam com um pequeno excerto da história… na parede, ilustrações desta Lena, desenhada e retratada em livro, de vestes brancas, pele clara e macia, cabelo escuro. A segurar naqueles balões brancos que lhe permitiram voar para outras paragens, para outras missões.

As ilustrações baseadas no livro, que ajudaram a materializar a presença de Lena na apresentação da obra pelo companheiro Nuno Garcia Lopes. Foto: mediotejo.net

Familiares, amigos e conhecidos quiseram juntar-se na festa do 50º aniversário, num convívio possível, em torno de coisas que muito lhe diziam, caso do gosto pelos livros e pela leitura, da arte de bem receber, do amor ao próximo, do valor da família e da dedicação às crianças. Agora, protagonista e narradora de um livro, está garantidamente mais perto de todos, ao folhear de cada página.

Um registo de homenagem, mas também de memória – que Lena merecia. O livro que Nuno nunca pensou escrever tão cedo, mas que era necessário também para auxiliar no seu processo de luto. Surgiu dois meses depois da partida de Helena Marques.

“Vim a casa almoçar. Estava a voltar para o trabalho, passei pelo cemitério como fazia regularmente, e no caminho, olhei para o horizonte e vi uma nuvem – não consigo precisar que imagem tinha. Mas sei que, ao olhar para essa nuvem, eu de repente percebi o que tinha de fazer. E pela primeira vez chorei. E não foi um choro de tristeza, era mais de alegria porque tinha percebido, eu sabia que precisava de fazer alguma coisa que perpetuasse o legado imenso desta mulher”, começa por contar.

ÁUDIO | Nuno Garcia Lopes

E escreveu, como a única coisa que se sentia com capacidade para fazer para que a mulher fosse lembrada.

“Os balões que me ensinaram a voar”, um guia para distinguir no céu, entre as nuvens, os recados, o carinho e o mimo de Helena Marques. Para cimentar o seu legado. Um livro pensado enquanto ferramenta para ajudar os mais novos a lidar com a ausência precoce, com a morte, com a partida de entes queridos que preenchiam os seus dias, e que veio também dar resposta a uma lacuna que o escritor Nuno Garcia Lopes reconhece existir na bibliografia, quase inexistente, sobre a temática da morte e do luto para os mais jovens.

Se para os adultos não é um tema fácil, será para os mais novos? Como explicar a falta da presença física, o desaparecimento de um rosto familiar, a permanência do eco da voz que vai desvanecendo, e as memórias vagas que vão assaltando os dias, o medo e o desnorte, os cheiros e os locais que vão lembrando episódios e momentos que parecem cosidos numa manta de retalhos para colecionar e não mais os perder, como conforto de uma dor que marca para sempre, todos e cada um, de determinada forma, numa sensação de vazio.

Nuno Garcia Lopes, mostrou-se muito sereno e certeiro nas palavras durante esta apresentação emotiva que recordou a vida de Helena Marques. Foto: mediotejo.net

Mas esse vazio não terá preenchimento possível? Foi nisto que Nuno pensou aquando a escrita deste livro, que “foi à procura dos seus editores”. Financiado pela família e oferecido à Associação de Pais, e cuja primeira edição de 400 exemplares já esgotou praticamente. Foi este projeto o escolhido para continuar a permitir que Lena fizesse aquilo que mais a caraterizava: dar de si a todos.

Os dois primeiros exemplares cumpriram a sua missão, e se não mais resultasse junto do público, o escritor já ficaria satisfeito pelo produto final ter chegados às mãos certas e que precisavam do alento do livro de capa grossa, pintado de céu azul e marcado com balões brancos.

Ânia e Elisa, duas meninas, uma de Cabo Verde e outra da Guiné, perderam há pouco tempo as suas irmãs no IPO, e uma amiga de Nuno, voluntária da instituição, contou-lhe as suas histórias. De imediato o livro que acabara de lançar ganhou ainda mais sentido, e o primeiro exemplar voou até elas. Era o primeiro passo desta jornada. “Foi um gosto maravilhoso sentir que a Lena continua a fazer o que melhor sabia fazer, que era dar amor a todos. E que ela o esteja a fazer para estas crianças que efetivamente precisam, então era aquilo que o livro precisava de fazer”, reconhece o autor.

A verdade é que Lena viveu maior parte do tempo dedicada ao ATL da escola de Linhaceira, ligada à Associação de Pais, que aliás ajudou a consolidar. Era esta a sua casa, e tantas vezes a casa da sua família, que ali a acompanhava nas suas ideias, no seu dia-a-dia. Até ao dia do seu internamento, Lena permaneceu ao serviço das crianças, no ATL, até que as forças lhe faltassem e uma ambulância a viesse buscar.

Foto: mediotejo.net

E foi este um dos espaços revisitados pelo escritor, pelas filhas, pelo irmão e editor Filipe Lopes, da Cultiv-Associação de Ideias para a Cultura e Cidadania, pela responsável pelo design e paginação Sylvie Lopes e pela ilustradora Sara Brito.

Todos os locais por onde a presença de Lena se fazia, foram incorporados nesta história real, nomeadamente o pátio onde os seus meninos largaram balões com mensagens a si dedicadas a partir da escola de Linhaceira, abrindo caminho até ao céu, num canal de comunicação só deles. Pelo menos na altura.

Isto porque, graças a este gesto em altitude, Nuno Garcia Lopes encontrou a resposta que precisava sobre que direção seguir. A resposta estava naquela nuvem, a simbologia que esteve na génese do livro e que passou a ser o mecanismo de Nuno para encontrar respostas – mesmo que nem sempre surjam de imediato, deixando-lhe uma página em branco.

Esta nova forma de comunicar, de materializar uma ligação com Lena e mantê-la viva em cada um, foi representada numa obra original pela forma como foi concebida, cheia de detalhes que lhe acrescentam valor e que permitem inúmeras leituras.

Nuno Garcia Lopes, o autor deste livro-homenagem a Lena, sentiu a necessidade de perpetuar o legado da mulher, mãe, educadora, num livro dedicado às crianças. Foto: mediotejo.net

Desde a capa em papelão de 3 mm, à representação e simbologia dos bonecos de feltro feitos pela educadora, com “dedicação, minúcia e aprimorados”, conforme explicou a designer Sylvie Lopes. A grossura da capa “significa a vida, que pode ser dura, mas à qual podemos dar esperança, pondo tinta azul e nuvens – o céu que o Nuno olhou e que lhe deu esperança, nós também o pintámos e também representámos a esperança ao pôr tinta em cima de cartão – algo morto”.

“Decidi que não tinha lombada, e por isso tem a linha da costura à vista. Porque a vida é dura, e temos de mostrar o que é a vida. Mas quando a vamos folheando, vamos percebendo que a própria história nos dá luz”, explica.

A história, que começa na vertical, vai permitindo rodar o livro à medida que Lena voa mais alto na narrativa, inspirando os leitores e avançando no enredo. “Interessa que este livro chegue àqueles que dele precisam, e se o está a fazer… Uau! Estamos no bom caminho”, afirma Nuno Garcia Lopes, notando que o objetivo passa por trabalhar este livro junto das crianças, falando sobre esta temática, reunindo contributos e ajudando à união numa mesma causa – algo que Lena também tinha por hábito fazer, unir os outros à sua volta.

Foto: mediotejo.net

A noite terminou como começou, com Nuno a ter o cuidado e dedicação na mesma proporção e medida que Helena Marques teria para cada uma das pessoas que estava na longa fila, à espera de um carinho e de um autógrafo personalizado que vincasse a esperança e a certeza da sua presença, algures entre as nuvens que vagueiam pelos céus, para o resto dos dias. Porque não há nuvens cinzentas e tempestade que dure. No fim, haverá sempre o azul do céu.

Este livro ilustrado, para um público infantil mas de leitura obrigatória para todos os adultos, poderia ter tido outra data para a sua apresentação e lançamento, não fossem os atrasos causados pela pandemia. Porém, conforme assume Nuno Garcia Lopes, jamais existiria uma data tão pertinente e que casasse tão bem com a transmissão eloquente da mensagem como o dia do aniversário de Lena, que teve esse privilégio de nascer no Dia da Criança, em 1971, como se o destino já traçasse o seu caminho, ao encontro dos meninos do jardim de infância e escola primária de Linhaceira. E agora de todos os meninos que se encontrem consigo em livro, escutando uma última história que tem para lhes contar.

“Os balões que me ensinaram a voar”, da autoria de Nuno Garcia Lopes e com ilustrações de Sara Brito, tem o custo de 10 euros e pode ser adquirido através da Cultiv-Associação de Ideias para a Cultura e Cidadania ou junto do ATL das escolas de Linhaceira

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Formada em Jornalismo, faz da vida uma compilação de pequenos prazeres: o conhecimento e o saber, a escrita, a leitura, a fotografia, a música. Nada supera o gozo de partir à descoberta das terras, das gentes, dos trilhos e da natureza... por isto continua a crer no jornalismo de proximidade. Já esteve mais longe de forrar as paredes de casa com estantes de livros. Não troca a paz da consciência tranquila e a gargalhada dos seus por nada deste mundo.

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