Tomar: “A dança do amor” é o primeiro romance de quem vê com o coração

Foi no refrescante Jardim do Mouchão, em Tomar, que nos voltámos a encontrar com Marylu Gerard, uma mulher invisual de 52 anos que confessa que se desafia a cada momento, testando os limites da sua versatilidade. Fazemo-lo quase um ano após ter lançado o seu primeiro livro, a autobiografia “A lua que conquistou o sol”, tal como o mediotejo.net deu conta em outubro de 2015. O pretexto para esta conversa é o seu segundo livro, desta feita um romance: “A dança do amor”. Vai ser lançado a 8 de outubro, um sábado, pelas 15 horas, no Clube Literário da Chiado Editora, no Fórum Tivoli, ao lado do Palácio Lambertini, em Lisboa.

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Marylu Gerard com a cadela-guia Hi-Fi, que são os seus olhos. Foto: mediotejo.net

Marylu chega sorridente – como sempre – na companhia de Hi-Fi, a cadela guia que a acompanha para todo o lado e que lhe foi entregue pela Escola de Cães Guias para cegos, dinamizada pela Associação Beira Aguieira de Apoio ao Deficiente Visual, com sede em Mortágua. Veio de casa até ao jardim de TUT – Transporte Urbano de Tomar, mantendo uma independência e autonomia que surpreende. A mesma que a leva, muitas vezes, a levantar-se às 4 da manhã para apanhar o primeiro comboio na Estação de Tomar até Lisboa e tirar um curso de artesanato na centro de formação profissional para deficientes visuais – onde já fez também o curso de massagista e telefonista – em Chelas. “Serve para sair de casa. Vou com a Hi-fi, a minha inseparável companheira, e tenho uma vida muito ocupada”, conta.

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Marylu ficou cega aos 38 anos na sequência de glaucoma Foto: mediotejo.net

Depois de ter lançado a sua autobiografia, em outubro do ano passado, na Biblioteca Municipal de Tomar, Marylu entregou-se de corpo e alma a um novo estilo literário, escrevendo o seu primeiro romance. Chamou-lhe “A dança do amor” e revela que é ficção em todo o seu esplendor. “Fala dos relacionamentos humanos. Da sua complexidade, a sua diversidade, os encontros e desencontros e, modéstia à parte, acho que está um livro bem conseguido. Não é um romance pesado… tem os seus pontos trágicos, um pouco de suspense e, claro, um pouco de romantismo”, conta ao mediotejo.net.

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Questionada onde se inspirou para levar esta obra avante – o livro é escrito pela própria num teclado normal de computador – conta que a obra é completamente ficção embora fosse “um romance que gostaria de viver nesta vida” e que sabe que não vai viver. “Neste livro eu realizo-me através do romance dos personagens, criados ficticiamente. A obra baseia-se, no fundo, num romance que nunca vou ter mas tudo bem…”, confessa, acrescentando que começou a escrever este livro logo que terminou a sua autobiografia.

O romance tem cerca de 200 páginas e promete surpreender pela sua leveza. “A minha escrita é muito espontânea. Os sentimentos, as emoções saem-me. Uma situação curiosa neste romance que senti foi que as personagens, às tantas, ganharam vida própria e disseram-me o que queriam que acontecesse. Acho que isso é uma mais-valia para a minha escrita”, descreve, considerando por isso que as pessoas se conseguem embrenhar melhor no enredo.

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“Quero testar a minha versatilidade” , confessa, desafiando-se a cada momento Foto: mediotejo.net

Invisual desde os 38 anos – na sequência de glaucoma – Marylu só descobriu a vocação para a escrita após os 50 anos, embora quando andava na escola lhe dissessem que escrevia muito bem. Mas jamais pensou que iria escrever o livro. A sua autobiografia surgiu naturalmente e quando a enviou para a editora nem sequer imaginava que iam pegar nela. “Não só ficaram interessados como me pediram mais livros. Assim que enviei o romance, o conselho literário deu-me a resposta em três dias, referindo que a minha escrita é fluente e envolvente”, refere, satisfeita.

Sendo invisual e deparando-se com esta enorme barreira, onde vai buscar  força e tamanha inspiração? “Eu tenho que estar sempre a fazer qualquer coisa porque parar é morrer. Primeiro, sou uma pessoa bastante espiritual. Não tenho religião – nem pretendo ter porque acho que as religiões servem para dividir – mas pratico uma vida espiritual intensa e constante. Pratico meditação e acho que é aí que vou buscar a minha força e criatividade”, revela.

Marylu Gerard considera que é abençoada com muita abundância “de amigos e de vontade de viver” e que depois de escrever o primeiro livro, fica o “bichinho” e o desafio de experimentar novas correntes literárias. Por exemplo, em agosto, conta que escreveu, em apenas 15 dias, um livro de suspense que pretende editar para o ano: “Flores assassinas”.

Mas não fica por aqui. Marylu pretende ainda escrever um romance  histórico que fale sobre o povo de Portugal – tendo que fazer bastante pesquisa – e um outro de contos infantis. “Estou mesmo determinada a testar os meus limites, a minha versatilidade “, afiança.

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