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Terça-feira, Novembro 30, 2021

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“Todos os padres deviam ter olhos castanhos”, por Hália Santos

Um destes dias lembrei-me das histórias de uma aldeia onde viveu a minha família, sobre um conjunto de crianças que tinham os olhos de um azul acinzentado muito característico. Lembras-te?

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Então não me lembro?!? Eu era miúda e adorava essa história! Achava deliciosa a ideia de andar pela aldeia à procura de quem tinha esses olhos, iguaizinhos aos do padre, que tinha o azar de não ter olhos castanhos.

Pois eu ficava incrédula com o suposto pecado. Não tendo tido uma educação fortemente Católica, achava tudo aquilo muito estranho. Como é que um padre podia ter filhos, sobretudo sendo alguns deles, alegadamente (como dizem os jornalistas), de mulheres casadas?… Tudo aquilo me intrigava.

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Ora, ora! Pelos vistos, toda a gente sabia e ninguém se preocupava. Que eu saiba, também não houve registos de maridos ofendidos. O que quer dizer que, se calhar, quem vive essas realidades lida com elas com mais naturalidade do que quem está de fora.

Também nunca houve certezas de nada! Nem me parece que, na altura, assumir a paternidade de uma criança fosse algo que passasse pela cabeça de alguém.

Felizmente que hoje em dia já é diferente!

Tens noção do que acabaste de dizer? Não é preciso ser praticante para entender que, quando um padre quebra o voto do celibato, deixa de encaixar no perfil da vida que escolheu. Há uma quebra de pressupostos.

O que é que queres dizer com isso? Que um padre que se relaciona intimamente com uma mulher (ou com um homem) deixa de ser um exemplo a seguir?

Não, não é isso! Pelo pouco que percebo destas coisas, o celibato implica dedicação a Deus, por um lado, e disponibilidade para o seu ‘rebanho’. Alguém que tem uma família terá dificuldade em estar sempre disponível para todos os seus paroquianos.

A sério? E não haverá tantas outras profissões não compatíveis com ser-se ‘chefe de família’? Quantos homens saem cedo e chegam tarde, passando dias sem verem os filhos? Isso é uma falácia!

Então achas bem que os padres possam ter família?

Claro que sim! Não tenho a mais pequena dúvida. Aliás, acho que um padre com verdadeira vocação, que tenha também uma vida em família, poderá ser um guia, um conselheiro, um mentor e mesmo um amigo com toda a consistência. Parece-me que estará em melhores condições de perceber os dilemas das pessoas comuns. Porque também os vive.

Então isso quer dizer que um padre que cumpra o celibato não consegue compreender as angústias dos seus paroquianos?

Nada disso! E cada caso é um caso. Por isso mesmo, deveria ser deixado ao critério de cada um. Cada padre saberá, melhor do que ninguém, como pode exercer o sacerdócio da melhor forma possível. Eu acho sempre preferível assumir essa vontade de, digamos assim, se sentir homem na sua plenitude, do que andar às escondidas, a deixar sementes que às vezes dão frutos.

Eu percebo, mas continuo a defender que as regras são conhecidas. Portanto, ou se aceita, ou não se aceita. E a ideia de contornar a coisa dizendo que foi só um deslize ainda me parece pior do que aceitar os relacionamentos íntimos dos padres com naturalidade.

Ah! A ideia do perdão levada ao extremo. Eu pecador me confesso, penitencio-me, cumpro a pena e posso voltar à minha vida… Lindo! Como também é linda a ideia de admitir que um padre possa ter uma vida dupla, se a comunidade o aceitar. Só a expressão de ‘vida dupla’ me deixa incomodada. Parece um criminoso.

Sabes, vivemos num momento em que tomar posição sobre estes assuntos pode ser muito complicado…

Isso é que era bom! No dia em que deixarmos de pensar e de ter opinião, por muito que ela vá contra a maioria e contra os tais pressupostos de que ‘é assim porque sempre assim foi’, está tudo perdido!

Isso é bem verdade… A discordância faz parte da vida. Mas não podemos ignorar as consequências do que fazemos. Gostavas de, na escola, ser apontada como ‘a filha do padre’?

Talvez não. Como talvez não gostasse de ser apontada como a filha da barriga de aluguer, como filha de alguém que já morreu, como filha de pai incógnito, como filha de alguém que está preso, como filha de alguém que é deficiente, como filha de um caso de uma noite, como filha do violador da minha mãe ou como filha de alguém que fuja de qualquer padrão de normalidade. Mas quantas pessoas não viveram já com esta realidade?

O ser humano tem essa capacidade fantástica de se adaptar.

Esperemos só que nos próximos tempos não sejam os robots a decidir se um padre pode ter relações sexuais. Porque se tenho dificuldade em compreender que um padre que não viva a vida na sua plenitude possa ser um bom guia, como poderei aceitar que um robot venha a decidir as nossas vidas?

Depende de quem o programar…

Professora e diretora da licenciatura em Comunicação Social da Escola Superior de Tecnologia de Abrantes (ESTA), do Instituto Politécnico de Tomar, doutorou-se no Centre for Mass Communications Research, da Universidade de Leicester, no Reino Unido. Foi jornalista do jornal Público e da Rádio Press. Gosta sobretudo de viajar, cá dentro e lá fora, para ver o mundo e as suas gentes com diferentes enquadramentos.
Escreve no mediotejo.net à quinta-feira.

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