“Todas as mortes são prematuras”, por Berta Silva Lopes

Créditos: Pixabay

E na confusão destes dias, feitos de medos e incertezas, partiram pessoas sem que eu me pudesse despedir delas. As mensagens a avisar não há velório, não venham, é só para a família mais chegada e o coração às voltas com um inexplicável sentimento de alívio, despeito e desalento. Maldita pandemia. 

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Talvez fosse melhor assim, penso eu, já que todas as despedidas são tristes; mas angustia-me pensar no desconsolo de um adeus amputado, na homenagem feita a correr, no silêncio penoso de uma sala vazia e sobretudo no desamparo das famílias a quem roubaram os abraços perante este engano do mundo. 

Porque é disso que falamos quando aqueles que amamos partem assim, precocemente, e o mundo continua a girar como se nada fosse, indiferente às dores de quem fica. Todas as mortes serão afinal prematuras, porque aos nossos olhos, por mais que se demorem, chegam sempre demasiado cedo. 

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Como aceitar que a morte é de todos e virá, como escreveu Jorge de Sena, se fingimos a toda a hora que somos donos do tempo, o bem mais precioso de todos, esquecendo que ele pode esgotar-se instantaneamente?

A morte é o que todos temos de mais certo, dizem os velhos da aldeia, que nunca leram poesia nem descobrem nos livros qualquer serventia. Mal sabem eles, saciados que estão de histórias, que todas as vidas deixam a sua marca, às vezes numa frase só. 

Não tenham pressa, (que eu) tenho vagar e estou por aqui, dizia o avô Zé Ataíde, eternamente sentado à mesa mais a sua barriga generosa, duas côdeas de pão e uma taça de vinho, tempo infinito para contar mais uma (história), olhem agora esta, esta também é boa, esta não sei se já contei. 

E a cada refeição era como um recomeço, o avô cheio de vagar, pressa só a de ver aumentar a família, o peito do tamanho da barriga a saber-se bisavô em breve, ora bem, até que enfim, vamos é beber um copo para celebrar, e de novo a família toda à volta da mesa, brindando à dádiva do tempo e da vida.

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Tantas saudades agora, avô. Das mil histórias e ainda mais uma, só mais uma, oiçam esta, e a avó a mandá-lo despachar-se, vá lá ver, hã?! E ele sem pressa nenhuma, raios partam as mulheres, sempre tão afoitas nisso de mandar.  

Cala-te, Zé.

E ele

Cala-te tu.

Sabem porquê que eu casei com a avó? 

Tantas saudades agora, avô, de o ver sentado à mesa, rancho melhorado, bacalhau, batatas e ovo, elogios fartos à cozinheira, e o copo cheio, claro, para seis vivas à vida, tantos quantos os bisnetos a quem havemos de recordar incessantemente as lembranças dos dias felizes que passaram, mas não se perderam, porque estão tatuados no nosso coração. 

São elas, afinal, as memórias gravadas em nós para sempre, que nos ajudam a vencer as epidemias de raiva, tristeza e solidão e a não soçobrar perante a marcha infindável do tempo. Talvez essa seja, enfim, a grande lição desta epidemia. Ainda não sei.

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Define-se como uma mulher da aldeia a viver na cidade, assim uma espécie de amor para sempre por uma e amor à primeira vista pela outra. Gosta de Lisboa e tem Queixoperra no coração. Casada, com duas filhas, trabalha em Comunicação e Marketing há quase 20 anos e com escritores há 10. Não vive sem livros. Gosta de jazz e de música instrumental. Adora o cheiro da terra molhada, do arroz-doce acabado de fazer e do poejo fresco. Não gosta de canela, nem de favas, nem de bacalhau com natas. Troca facilmente a praia pelo campo. Sente-se sempre muito feliz em cozinhas grandes e cheias de luz. Cozinhar é uma terapia e gosta de experimentar pratos novos quando recebe amigos em casa – para grande ansiedade do marido, mas nada que os bons enchidos, o queijo e a broa de milho da sua aldeia não resolvam. Gosta de boas conversas regadas com vinho tinto. Como diz a sua querida Helena Sacadura Cabral, gosta dos pequenos prazeres da vida. E gosta de gostar disso.

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