Apoie o jornalismo que fazemos,
junte-se à nossa Comunidade de Leitores

- Publicidade -
Quarta-feira, Agosto 4, 2021

Apoie o jornalismo que fazemos, junte-se à nossa Comunidade de Leitores

- Publicidade -

Tia do “bebé-milagre” quer criá-lo na região

(Nota prévia: Por motivos de segurança e respeito da privacidade da família, não é identificado o nome da localidade onde Anabela Pedro reside, na região do Médio Tejo. Alguns dos nossos leitores poderão conhecê-la e saber onde vive mas, uma vez que esta história ganhou contornos nacionais e internacionais, foi-nos pedido para omitir essa informação, de modo a evitar que viesse a instalar-se algum circo mediático à porta de casa da família. Agradecemos se, nas partilhas e comentários públicos em redes sociais, possam também respeitar esta vontade da família.)

Na casa de Anabela Pedro, o cheiro a tinta fresca sobrepõe-se ao do campo florido das terras à beira do Tejo, na Primavera. Tem estado a preparar a casa para receber o sobrinho, a que se refere sempre como “o meu menino”, e recorda as promessas trocadas com a irmã, vezes sem conta, ao longo dos anos: “Se eu morrer, toma conta dos meus filhos.”

- Publicidade -

A morte da irmã, Sandra Pedro, tornou-se notícia em todo o mundo. Foi a grávida em morte cerebral mantida durante 107 dias em suporte de vida no hospital de São José, em Lisboa, para que o seu filho pudesse ter a oportunidade de sobreviver. O menino, logo apelidado de “bebé-milagre”, nasceu a 7 de junho. A mãe foi cremada no dia seguinte.

Sandra era a sua única irmã. Tinha completado 38 anos em março, já no hospital, Anabela fará os 40 em agosto. Nasceram em Coimbra e cresceram juntas na Vialonga, freguesia de Vila Franca de Xira. Anabela Pedro acabaria por mudar-se por amor para uma vila do Médio Tejo. E por aqui ficou. Mas manteve sempre uma relação muito próxima com Sandra, com quem falava bastante ao telefone.

- Publicidade -

A última vez que ouviu a sua voz foi na véspera da sua morte, a 19 de fevereiro. Sandra ligou para dar conta das novidades. Grávida de 17 semanas, tinha ido fazer uma amniocentese e confirmara que o bebé que carregava no ventre era um menino. “Vai chamar-se Lourenço”, contou-lhe. Ainda tiveram tempo para falar sobre a luz das suas vidas: os filhos de ambas. Sandra era mãe de um menino de 13 anos, de quem Anabela é madrinha, e Anabela é mãe de outros três rapazes, com idades entre os 3 e os 20 anos, e Sandra era madrinha do mais velho.

Foto: DR

Sandra Pedro tinha 37 anos e um filho de 13 anos quando engravidou do novo namorado, Miguel Ângelo Faria. Tinha problemas de saúde graves (um tumor no rim) mas optou por não fazer tratamentos. “Queria muito ter este filho”, reafirma a irmã.
“Deu a vida por ele.”

Há duas semanas, Anabela Pedro e a sua mãe, Maria da Piedade, tinham assumido a responsabilidade pela tutela do pequeno Lourenço, numa reunião entre todos os envolvidos no caso, no Hospital de São José, uma vez que o pai, Miguel Ângelo Faria, que namorava há poucos meses com Sandra, reafirmava não ter capacidade emocional ou financeira para o fazer e a sua família também dizia não o poder ajudar.
Mas, nos últimos dias, tudo mudou. O pai agora diz que quer ficar com o filho, a quem chamou Lourenço Salvador.

As lágrimas rolam pelo rosto de Anabela Pedro quando pensa na possibilidade de não poder criar o filho da irmã. Por Lourenço, promete, lutará até às últimas consequências, como explica numa entrevista à revista VISÃO. “Não quero que ele seja afastado do pai, ele poderá sempre vê-lo quando quiser. Mas, para já, este menino precisa de cuidados especiais que não poderá ser este pai a dar-lhe”, defende.

As duas irmãs no dia do primeiro casamento de Sandra. Foto: DR
As duas irmãs no dia do primeiro casamento de Sandra Pedro. Foto: DR

O filho do meio de Anabela, com sete anos, também já pergunta todos os dias pelo menino. Até a sua cama lhe quer oferecer. Amor aqui, nunca lhe faltará. Mas poderá Lourenço vir para esta casa ribatejana, quando tiver alta da unidade de prematuros da Maternidade Alfredo da Costa, em Lisboa? Essa será uma decisão que competirá, nas próximas semanas, aos juízes do Tribunal de Menores.

Depois da luta pela sobrevivência, vai iniciar-se uma batalha legal por este bebé. Sem consciência da importância que a sua vida ganhou em todo o mundo, Lourenço vai fazendo a sua parte. Os médicos dizem que é um lutador, como também era a mãe. Não aparenta ter lesões cerebrais (fará nova ressonância magnética dentro de dois meses), é muito ativo, já respira sozinho e começou a beber leite de uma dadora, com grande vontade. Se tudo correr como esperado, até ao final do mês terá, finalmente, a possibilidade de viver fora de um hospital. Que possa, então, ter o colo que merece.

O BEBÉ QUE CONTRARIOU A MORTE

Lourenço nasceu às 32 semanas de gravidez, às 15h05 do dia 7 de junho, com 2,350 quilos e uma vitalidade invulgar para um bebé prematuro, ainda por cima gerado no útero de uma mãe morta. Um feito da medicina e que só foi possível graças à dedicação intensiva de uma equipa com mais de 80 pessoas (entre médicos, enfermeiros e auxiliares), que tratavam rotativamente, 24 horas por dia, daqueles pacientes especiais da unidade de nível III de neurocríticos, no Hospital de São José. No bloco operatório estavam apenas seis pessoas e foi à obstetra Ana Campos que coube a missão de fazer nascer o “bebé-milagre”, como o mundo o viria a conhecer. Tecnicamente, foi apenas mais uma cesariana, sem complicações e realizada em poucos minutos. Mas emocionalmente marcará para sempre a diretora-adjunta da Maternidade Alfredo da Costa. Durante quatro meses não dormiu descansada, com o telemóvel à cabeceira: havia ordens para a contactarem sempre que houvesse alguma preocupação com a saúde daquele feto. Os seus olhos ainda brilham quando recorda o momento em que retirou o bebé do ventre da mãe. “Quando o vi, muito cor de rosa e cheio de vida, a chorar com grande vitalidade… foi especial”, diz. Nesse momento, ergueu-o bem alto, mostrando-o às dezenas de enfermeiros e outros médicos do hospital que espreitavam para a sala do bloco, do outro lado do vidro. Houve vivas, abraços, risos e choro de alegria. Era o culminar de um trabalho de 15 intensas semanas, envolvendo a dedicação de tanta gente, para que aquele menino pudesse ter uma chance de sobreviver sem a mãe. Contudo, se naquele momento choraram de alegria, daí a pouco chorariam de novo de tristeza. No bloco operatório desligavam-se as máquinas de Sandra Pedro. A enfermeira Rosário Coelho recorda o silêncio que se impôs, enquanto ajudava a preparar a mortalha e a colocá-la no saco. Para a família, era chegado também o momento de se despedirem, de aceitarem que ela morrera, realmente. “Até ao fim, acreditei na possibilidade de um milagre”, reconhece a irmã.

Sou diretora do jornal mediotejo.net e da revista Ponto, e diretora editorial da Médio Tejo Edições / Origami Livros. Sou jornalista profissional desde 1995 e tenho a felicidade de ter corrido mundo a fazer o que mais gosto, testemunhando momentos cruciais da história mundial. Fui grande-repórter da revista Visão e algumas da reportagens que escrevi foram premiadas a nível nacional e internacional. Mas a maior recompensa desta profissão será sempre a promessa contida em cada texto: a possibilidade de questionar, inquietar, surpreender, emocionar e, quem sabe, fazer a diferença. Cresci no Tramagal, terra onde aprendi as primeiras letras e os valores da fraternidade e da liberdade. Mantenho-me apaixonada pelo processo de descoberta, investigação e escrita de uma boa história. Gosto de plantar árvores e flores, sou mãe a dobrar e escrevi quatro livros.

- Publicidade -
- Publicidade -

DEIXE UMA RESPOSTA

Faça o seu comentário, por favor!
O seu nome