Mação | ‘Ti Fontes’, o pescador e calafate que trata o Tejo por pai (C/VIDEO)

Nascido na aldeia ribeirinha de Ortiga, Mação, mestre calafate e pescador, Manuel Pires Fontes tem 89 anos e muitas histórias para contar. De como o rio, ‘farto’, fartava as gentes, e de uma vida dedicada a um Tejo que hoje não reconhece. Em entrevista ao mediotejo.net, Ti Fontes aponta soluções para a poluição, lembra os tempos de pesca e da venda, as riquezas de uma Ortiga bafejada pelo Tejo de outrora, e diz como o peixe hoje pode voltar a subir até à aldeia piscatória. Manuel Fontes nasceu no rio. Um Tejo que já não reconhece mas que ainda trata por pai.

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“Eu nasci em Ortiga

O rio Tejo me deu o ser

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Aqui fiz a minha vida

E aqui eu quero morrer”

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Ti Fontes, como é carinhosamente chamado pelos seus pares em Ortiga, recebe-me de forma afável e cordial na sua casa, no seu posto de trabalho, onde as redes de pesca descansam da faina, os barcos ‘picaretos’ que constrói em miniatura lembram as três centenas de embarcações a sério por si construídas, e onde se multiplicam os calendários do FC Porto, o seu clube de eleição, os recortes de jornais, as quadras de rimas marítimas.

Manuel Pires Fontes nasceu no dia 23 de Fevereiro de 1926 em Ortiga. Tem uma filha e uma neta. E um Tejo aos seus pés que, diz, tudo deu ao Manuel Fontes de ontem, ao Ti Fontes de hoje: “No rio nasceram-me os dentes. E lá continuei a trabalhar e foi lá que me caíram os dentes. O Tejo foi mais do que meu pai”, garante.

“Naquele tempo o Tejo era a nossa alegria”, lembra o calafate e pescador, como que encetando uma viagem no tempo e mergulhando numa Ortiga viva, com a aldeia piscatória, o bairro dos pescadores, as 27 pesqueiras (todas davam peixe) a pedirem meças na arte da pesca tradicional nacional.

“Éramos tantos pescadores aqui na Ortiga e todos se governavam, muitos com famílias numerosas, com 7 e 8 filhos” recorda de uma aldeia que era “riquíssima” em peixe, e na madeira que descia o Tejo, num tempo sem gás ou eletricidade, pelo menos no bairro dos pescadores.

“A Ortiga não era rica, era riquíssima em peixe, desde o sável, à saboga e ao muge”. Na altura, recorda, “não se ligava muito à lampreia”. Os apreciadores do afamado ciclóstomo chegariam mais tarde à Ortiga, onde a fama de bom peixe e bons pescadores estava há muito consolidada.

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“Hoje desapareceu tudo. Tudo se desmoronou”, lamenta o velho pescador, apontando o dedo aos “corvos marinhos, celuloses e açudes. Ninguém olha pelo rio, ninguém quer saber. Nem tem força para mudar os grandes interesses instalados”, sentencia Ti Fontes, com uma vida dedicada ao Tejo e que hoje não consegue comer um peixe do rio.

“É só veneno. A água está envenenada. Nem os animais a bebem e eu é que ia comer peixe do rio? Não. É raro o ano em que vejo uma boga. Tudo acabou. O rio está morto. É uma vala de esgotos”, sentencia.

“Todos os dias olho para ele e choro. O rio é o meu pai. E a Ortiga é a nossa mãe e nós somos todos irmãos nesta terra. O sangue é todo o mesmo”, atira, convicto, um Manuel Fontes que se volta para mais uma quadra gravada na madeira, que lê, em mais uma ode ao pai Tejo.

“Meu querido Rio Tejo.

Estás triste. Doente. Sem vida. Já tuberculoso.

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Todos os dias olho para ti e choro. Eu morro, e tu ficas a penar.

Mas levo-te no meu coração. Para a Eternidade”.

Manuel Pires Fontes cumprirá 91 anos de vida, na Ortiga e no Tejo, a 26 de fevereiro de 2017. “Se as celuloses construírem Estações de Tratamento de Água e se o açude de Abrantes for aberto ao meio para o peixe subir”, Ti Fontes não negará um peixe do rio grelhado para o seu aniversário.

*Artigo publicado em dezembro de 2015

**Republicada no âmbito de alguns trabalhos a que voltamos a dar destaque e que foram publicados no jornal mediotejo.net entre dezembro de 2015 e dezembro de 2016

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