“Ter ou não ter medo de falar”, por Hália Santos

Humberto Felício (FEL) Foto: Paulo Jorge de Sousa

Hoje estou triste e não me apetece falar muito…

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Porquê?

Porque eu, que sempre achei que as pessoas com mérito acabam por ser reconhecidas, começo a ter que me curvar perante os que me contrariam, dizendo que as cunhas e os amigos valem mais do que tudo o resto.

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Estás a falar do juiz?

Não! Por acaso, cheguei a pensar que esta nossa conversa de hoje pudesse ir por aí. Mas com tanta gente importante a falar sobre o assunto, desta vez achei melhor ficar calada. Mas não consigo é ficar calada com a notícia que recebi via facebook e que se completa com a entrevista do mediotejo.net ao Humberto Felício.

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O músico de Abrantes, o FEL que já foi dos Kaviar?

Esse mesmo! Está a trabalhar nas obras, na Áustria, para equilibrar a situação financeira familiar. Imagina tu, um músico com o talento dele e com a criatividade que ele tem, ter que chegar a este ponto da vida e ser obrigado a fazer uma opção destas.

Haverá muitos outros…

Certamente que sim! Mas o que o Humberto Felício tem que os outros poderão não ter é a capacidade de contar ao mundo a sua revolta sem ser ofensivo. É a tal coragem de que se fala na entrevista. Não é fácil alguém expor a sua vida, da forma como ele o faz, indicando todas as situações profissionais que o deixaram numa situação financeira sem saída. Está revoltado, com toda a razão, mas não faz da sua revolta uma coisa feia, como muita gente faz. Explica o que correu mal, sem medos, sabendo até que pode continuar a pagar caro por isso.

Pois, o juiz diz que se tivesse medo não se levantava da cama todos os dias.

É isso, independentemente das razões de cada um. Há que perceber que os poderes instalados têm força mas não são invencíveis. O medo que se instala nas pessoas, de falar abertamente sobre o que se passa, é das coisas mais preocupantes dos tempos atuais. Por isso este tipo de abordagens são ainda mal compreendidas. Infelizmente!

Mas os motivos do juiz e do músico, para falarem sem medo, serão diferentes…

Certamente que sim, até porque as implicações daquilo que cada um deles diz são também muito diferentes. Mas a questão essencial passa por as pessoas serem capazes de dizer o que lhes parece que está mal, mesmo que isso as venha a afetar. Temos que reconhecer que a maioria das pessoas que conhecemos não é capaz de o fazer! A cultura do silêncio e do assobiar para o lado para ver se passa é terrível.

Tens razão. Mas também terás que perceber que as consequências de se falar são, muitas vezes, também terríveis.

Pois são! Mas eu nem queria falar sobre nada disto. Só queria mesmo dizer que estou triste pelo Humberto Felício ter sido obrigado a ir para outro país trabalhar nas obras. Mas também estou feliz por saber que tem uma família que o apoia, amigos incondicionais e um grupo de pessoas que valorizam muito o seu trabalho enquanto músico de excelência.

Agora não tem nada a ver, mas há concertos na região que continuam a esgotar, não há?

Isso é outra conversa! O Humberto Felício também esgotará e nós queremos ver o espetáculo na primeira fila, como os Xutos o viram um dia!!

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