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“Ter ou não ter caráter, ter ou não ter ‘c’ “, por Hália Santos

Tenho andado a pensar no caráter. O que é o caráter de uma pessoa?

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Mesmo que consigas definir pelas tuas palavras, é sempre bom consultar os dicionários… E, já agora, verificar se é ‘caráter’ ou ‘carácter’, mesmo que tenhamos adotado o mais recente Acordo Ortográfico.

Já o fiz, claro! A palavra tem dupla grafia desde o Acordo de 1990, ao contrário de ‘contacto’, que passou para ‘contato’ com uma velocidade incrível nas páginas da internet de empresas, serviços e outros que tal. Mas passou mal, mesmo com o Novo Acordo o ‘c’ de contacto mantém-se.

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O Priberam diz que ‘caráter’ (com ou sem c) é “o que faz com que os entes ou objectos se distingam entre os outros da sua espécie”. E, apesar de eu ter adotado o Novo Acordo, mantenho o ‘c’ de ‘objectos’ porque estou a citar.

Não será tudo isto muito confuso?

Não, tudo tranquilo. Não é preciso ir à farmácia (se tudo continuasse como dantes, o ph ainda lá estava). Baralham-se as cartas e dá-se o jogo novamente para que as coisas avancem.

Ou seja?

Voltamos ao ´caráter’! Continua o dicionário a dar-nos definições desta palavra: “marca, cunho, impressão”, “propriedade”, “qualidade distintiva”, “índole, génio”, “firmeza”, “dignidade”.

E o que te leva a querer falar sobre estas coisas, hoje?

As imagens de uma senhora espanhola, com elevadas responsabilidades políticas, que se demitiu porque, supostamente, em 2011 roubou dois cremes anti-rugas num supermercado. Depois de vários outros escândalos que a envolviam, a senhora demitiu-se do cargo de presidente da comunidade de Madrid porque um vídeo a mostrou a ser revistada por um segurança de supermercado. Disse que estava cansada de ser atacada “de manhã, à tarde e à noite, por terra, mar e ar”.

De facto, e não ‘fato’, deve ser muito aborrecido ser assim tão atacada por dois cremezitos no valor total de 80 euros quando a senhora só queria cuidar do visual.

Sem falar de tudo o que estava para trás, é, de facto, uma questão de caráter. Ela alega que foi um “ato involuntário” mas, dependendo do jornal, pode ter sido apresentado como um “acto involuntário”. O que é certo é que o ‘involuntário’ está sempre lá. Ou seja, a senhora (se é que assim nos podemos a ela referir) não queria levar para casa os cremes sem os pagar. Algo terá sido mais forte do que ela. Também diz que foi um “erro”, mas os “erros” pagam-se, assumem-se, tentam-se corrigir. A pessoa em questão terá desviado os cremes das prateleiras do supermercado para a sua mala em 2011, ou seja, há sete anos (‘há’ e não ‘à’ nem ‘á’; ‘há sete anos’ e não ‘há sete anos atrás’).

Hoje estás muito implicativa!

Tudo se resume ao ‘caráter’. A senhora foi ‘firme’ a tirar os cremes, mas teve dificuldade em aceitar as críticas. Mostrou a sua ‘marca’ de desonestidade, mas levou demasiado tempo a reagir. Sobretudo, não percebeu o significado de ‘propriedade’. No caso do seu ‘caráter’, seria algo que a caracteriza (com ‘c’, porque se pronuncia); no caso dos cremes, seriam obviamente do dono do supermercado.

Vá lá, não sejas assim tão dura com a senhora. Todos cometemos erros ao longo da nossa vida e poucos pagam por eles.

Sim, sim, eu até tenho um comentário positivo sobre a senhora dos cremes: assumiu uma ‘qualidade distintiva’ e mostrou a sua ‘índole’ quando denunciou às autoridades que estava a ser vítima de chantagem por quem tinha o vídeo pronto a ser divulgado. Isto, sim, é próprio de alguém com caráter, com ‘c’ ou sem ‘c’.

Tu a e tua ironia!

Mas há mais: ela mostrou-se como alguém que se distingue dos outros da sua espécie. Tentar passar de culpada para vítima quando toda a gente está a ver o que se passa é obra! Afinal, todos somos espetadores da atualidade.

Então e não te incomoda a falta do ‘c’ nos espetadores?

Esse, sim, é um problema que me deixa sem sono, porque só vejo ‘espetadores’ com espetos e não em frente aos ecrãs.  Quanto ao resto, os dois cremezitos de 40 euros, cada, são insignificantes. Com tanto milhão a circular por onde não deve, é preciso ter mesmo muito azar ser-se cruxificada na praça pública só por querer disfarçar as rugas…

Professora e diretora da licenciatura em Comunicação Social da Escola Superior de Tecnologia de Abrantes (ESTA), do Instituto Politécnico de Tomar, doutorou-se no Centre for Mass Communications Research, da Universidade de Leicester, no Reino Unido. Foi jornalista do jornal Público e da Rádio Press. Gosta sobretudo de viajar, cá dentro e lá fora, para ver o mundo e as suas gentes com diferentes enquadramentos.
Escreve no mediotejo.net à quinta-feira.

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