“Tempos de cólera, Tempos de medo”, por Armando Fernandes

Foto: DR

Nestes dias de quarentena há um ambiente, uma paisagem, acompanhados de aromas difusos a convidarem à reflexão bem macerada, bem mastigada sobre o modo como os nossos ancestrais viviam os tempos de cólera, torneavam os tempos de medo em busca de alimentos capazes de amenizarem os clamores dos estômagos da parentela.

PUB

PUB

No decorrer dos diários passeios peripatéticos vejo nesgas de paisagem verdejante a recordarem o rei Trovador, o desafortunado poeta Lorca, do verde que te quero verde. Verduras postergadas pela globalização podem (devem regressar e ocupar espaço nos prato de comida, não só para sustermos o apetite também satisfazer a nossa vontade de fazer/fazendo. Um prezado amigo telefonou-me e disse: na minha acanhada horta cultivo acelgas, alfaces de duas qualidades, favas, repolhos e flores.

As árvores exibem fetos de frutos extemporâneos devido aos calores dos dias antecedentes. Atalho ao meu amigo de forma irónica! Espero que os frutos não abortem para teu contentamento, vai tudo correr bem, respondeu-me, acrescido da oferta dessas primícias. O problema é ir até à zona de Palmela, sítio onde mora, remato a gargalhar.

PUB

A paisagem mostra-se recortada, casas e muros escondem quintais, nesses adereços terrenos colados às moradias onde a atmosfera está impregnada de perfumes dos limoeiros, das laranjeiras, das tangerineiras, só por si gratas existências de futuras saladas, acompanhamentos de carnes e peixes, de sopas frias, de refrescantes sumos, de bolos e demais doçaria.

Em tempo de guerra não se limpam armas, o professor Marcelo de toga, borla e capelo, magister dix assegura estarmos em guerra. Acredito. Por acreditar lembro-me da utilidade comestível dos ossos esburgados a sós, porque o vírus demoníaco impede efusões alegres, radiantes, de beijos e abraços nos filhos, nos netos, nas noras e…nos genros.

Tais ossos prova/provada do tempo de liberdade, neste tempo de cólera e fundados temores e medrosos tremores, podem ser objecto de demorada cozedura até ficarem gelatinosos, até propiciarem saborosos tutanos.

As Mestras cozinheiras de antanho barravam carnes e peixes com essa gordura, os assados e estufados faziam crescer água na boca aos afortunados na posse de inúmeros alimentos, mais ainda aos desafortunados onde o fogão apenas era acendido (quando era) uma vez em cada dia. Esta prática continua na desordem do dia, envolvendo fidalgotes arruinados, comerciantes falidos, fura-vidas de tudo, vigaristas envernizados e gerúndios correlativos.

As grainhas dos frutos tinham e têm a virtude de propiciarem odorosos chás, o miolo contido nos caroços dos pêssegos para lá do mesmo efeito alegrava bolos e moído entrava no conteúdo de pudins e compotas.

A leitora e o leitor das realidades efémeras das tecnologias de ponta podem desdenhar acerca das comezinhas (sem mezinha) expressas neste escrito, têm todo o direito a tal, no entanto, não sabem cozinhar um ouriço-cacheiro, fritar ratos, conceber caldo de cobra, espremer sucos florais, fazer um adobo de carne, multiplicar as lentilhas, estender o pão duro e…por aí adiante.

O leitor e a leitora de algoritmos, de complicadas plataformas comunicacionais, porém, se não souberem transpor os espaços dos supermercados e centros comerciais a fim de se alimentarem incluindo os rebentos (entenda-se filhos), estão indefesos. A denominada sabedoria empírica volta a interessar-nos porque contra epidemias todos os saberes são escassos.

Os passarinhos anunciam estridulamente o alvorecer da Primavera, os compositores imitam-nos, todavia se a mortandade alastrar prevalecerá o De Profundis da desolação a lembrar aos vivos quão frágil é a nossa existência.

No auge da Revolução francesa eclodiu o «grande medo», voltamos a dias de medo. De outra natureza. Meditemos!

PUB
APOIE O NOSSO JORNAL, TORNE-SE UM LEITOR BENEMÉRITO

Se lê regularmente as nossas notícias torne-se um leitor benemérito fazendo contribuições a partir de 10€/mês, ou doando valores iguais ou superiores a 100€. Esses leitores passam a constar da ficha-técnica como apoiantes deste projeto independente de jornalismo. Pode também fazer uma contribuição pontual (5€, 10€, 20€, o que puder e quiser), através do IBAN PT50001800034049703402024 (conta da Médio Tejo Edições) ou usar o MB Way, com o telefone 962 393 324.

PUB

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here