“Tejo Vivo e Livre, sustentáculo da Vida e do Património” – Crónica “Cá por Causas”, por Paulo Constantino

O rio Tejo não é apenas água, é cultura viva, a espinha dorsal e o eixo das terras e das aldeias por onde passa. É este Tejo que une Portugal a Espanha com a sua bacia, que une todas as populações ribeirinhas e as suas culturas, que o conhecemos e o vivemos da nascente até à foz, de Albarracín ao Grande Estuário.

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Ao longo do seu curso o rio Tejo sustentou as atividades agrícolas e comerciais das suas gentes constituiu-se como o principal eixo de desenvolvimento das comunidades ribeirinhas: agricultores, moleiros, construtores de barcos, artes de pesca, barqueiros, pescadores. Destes teimam uns poucos em tirar do rio o sustento, cada dia mais magro em resultado da degradação dos ecossistemas e consequentes alterações na biodiversidade, causadas pelos desmandos do ser humano.

As populações do Tejo sempre conseguiram sobreviver e prosperar em harmonia com o rio, que lhes foi generoso no passado e que será essencial no futuro.

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Um futuro onde o laço entre natureza e cultura perdure e se reforce com o regresso de modos de vida ligados à água e ao rio, assente num desenvolvimento sustentável de atividades agrícolas e industriais responsáveis, de educação e turismo de natureza, cultural e ambiental, que apenas será possível se unirmos esforços para a preservação ecológica de um rio Tejo Vivo e Livre.

Um rio Vivo sempre que o bom estado ecológico, permitido pela qualidade e quantidade das suas águas e pela sua morfologia, assegure que seja pleno de Biodiversidade.

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Um rio Livre sempre que a sua dinâmica e conectividade fluvial permitam que os ciclos da água e dos nutrientes se completem provendo os primordiais benefícios ecológicos para a Biodiversidade e para a Sociedade.

Foto: DR

Sem um rio Tejo Vivo e Livre não perdurará o património que lhe está associado, quer na sua vertente imaterial das vivências sociais, culturais e religiosas das populações ribeirinhas, quer na vertente material que a sua paisagem natural ainda enquadra, do qual se realçam as aldeias típicas de pescadores avieiros, as artes da pesca tradicional na Ortiga / Mação e as suas pesqueiras, o castelo de Almourol, os caís, os muros de sirga, os moinhos de água e de maré, entre outros, bem como a gastronomia das espécies piscícolas fluviais.

As populações ribeirinhas apenas terão a sua Vida e o seu património salvaguardados quando agirem para fortalecer os pilares da vida do rio: água em quantidade com a existência de verdadeiros caudais ecológicos; água em bom estado ecológico; e a ausência de barreiras que bloqueiem os fluxos hidrológicos e a dinâmica dos ciclos da água e dos nutrientes, essenciais à manutenção dos ecossistemas que sustentam a Vida.

Estes pilares apenas serão robustos se garantirmos o estabelecimento de verdadeiros caudais ecológicos, um regime fluvial adequado à migração e reprodução das espécies piscícolas, o tratamento das águas residuais e a sua reutilização, a eliminação das fontes de poluição da água, a conservação dos ecossistemas, dos habitats e da biodiversidade, a rejeição da construção de novas barreiras à conectividade fluvial e a implementação de eficazes passagens para peixes e para pequenas embarcações nas barreiras já existentes.

Rio Tejo junto ao castelo de Almourol. Foto: DR

A preservação ecológica do rio Tejo é um tributo que devemos oferecer para a sustentabilidade da Vida e para a conservação do seu património, sendo hoje urgente defender um rio Tejo Vivo e Livre com dinâmica fluvial pela rejeição dos projetos de construção de novos açudes e barragens – Projeto Tejo e a Barragem do Ocreza – e pela exigência de uma regulamentação adequada para as barreiras que já existem.

Realçamos que a remoção de açudes e barragens ocorre já em muitos países da Europa e do mundo, pela sua obsolescência e inoperacionalidade ou por existirem soluções alternativas à sua utilização, em virtude dos maiores benefícios e vantagens que um rio livre oferece à sociedade pelo fato dos cursos de água recuperarem uma dinâmica fluvial que assegura melhor as funções de preservação das condições necessárias ao bom funcionamento dos ecossistemas, cuja degradação e destruição põem em causa a sobrevivência das espécies em geral e da espécie humana em particular.

Consideramos, portanto, extremamente importante manter os últimos 150 km de um rio Tejo Vivo e Livre com uma dinâmica fluvial que mitigue o impacto da subida do nível médio das águas do mar, que garanta o equilíbrio ecológico da Reserva Natural do Estuário do Tejo, a conservação dos ecossistemas, habitats e biodiversidade, e que valorize o património que alicerça as atividades de subsistência das populações ribeirinhas e o fomento de um turismo de natureza e cultural associado ao rio Tejo.

Se falharmos nisto falhámos em tudo!

Teremos então um rio Tejo no qual a Vida agonizará em charcos de águas quase paradas, apenas característicos do norte da Europa e não de rios mediterrâneos que naturalmente fluiriam até ao mar, no qual a Liberdade se economizará para benefício de alguns em nome do crescimento económico, e no qual o Património se desvalorizará remetido para as memórias de um passado que não terão correspondência na nova realidade e paisagem envolvente.

Por isso temos o dever de estender uma mão aberta para criar uma corrente de vontade e de intencionalidade, que seja capaz de esclarecer quem decide e que exija um tratamento ecologicamente sustentável para o rio Tejo.

Devemo-lo a nós próprios, que com o rio Tejo partilhámos a nossa vida e aceitámos a generosidade das suas águas.

Devemo-lo às gerações futuras para que conheçam um rio Tejo Vivo e Livre, como nós o conhecemos, e não um escravo e prisioneiro do egoísmo, da especulação, da ganância e da irresponsabilidade.

Se continuarmos neste rumo, as próximas gerações já não conhecerão rios Vivos e Livres, mas apenas imagens na internet… que serão sombras do que um dia nos foi oferecido com generosidade, e não terão incentivo a reconhecer o valor destes rios de que nunca tiveram a possibilidade de desfrutar.

Lontra europeia. Foto: DR

Por tudo isto, devemos unir-nos e reclamar a defesa da qualidade e da quantidade da água do rio Tejo e seus afluentes, bem como a rejeição ou remoção das barreiras à sua conectividade, para que sejam saudáveis e forneçam os serviços ecológicos necessários à Vida no seu conjunto biodiverso e se mantenham como referência do Património ribeirinho.

A Vida, o Património e o Tejo merecem!

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