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Terça-feira, Outubro 19, 2021

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Tejo | Peregrinar centenas de quilómetros Tejo abaixo com a Senhora dos Avieiros

Este ano a organização do Cruzeiro Religioso e Cultural do Tejo quebrou a tradição: estendeu a montante uma etapa e a 31 de maio de 2018, dia de Corpo de Deus, a imagem de Nossa Senhora dos Avieiros e do Tejo começa a descer o rio saindo do Tejo Internacional, já na fronteira com Espanha, em Malpica do Tejo. O Cruzeiro termina na marina de Oeiras no dia 24 de junho.

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Seis anos depois já não será certo dizer que a procissão ainda vai no adro, embora o trabalho de insistência e perseverança da Comissão Organizadora do Cruzeiro Religioso e Cultural do Tejo tenha remado muitas vezes contra ventos a maré. Por ora, as águas estão de feição e a Nossa Senhora do Avieiros e do Tejo quase rio abaixo naquele que é a sexta edição do Cruzeiro Religioso e Cultural do Tejo.

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Um evento religioso e cultural único em Portugal, que este ano começa na fronteira com Espanha, sendo ambição da organização levar o Cruzeiro Religioso e Cultural do Tejo ainda mais a montante que Malpica do Tejo, quebrando por isso a tradição de partir de Vila Velha de Rodão, e abraçar nesta iniciativa os ‘nuestros hermanos’, afinal o rio Tejo nasce Espanha e as populações ribeiras estendem-se por mais de mil quilómetros.

Por cá, de 31 de maio a 24 de junho, o Cruzeiro Religioso e Cultural do Tejo percorrerá 235 quilómetros, com 12 etapas, envolvendo 40 paróquias, 39 freguesias e 28 concelhos.

A componente religiosa do Cruzeiro “é importante, mas vai mais além” diz ao mediotejo.net João Serrano da Comissão Organizadora do evento, e presidente da entidade promotora, a Associação Confraria Ibérica do Tejo. E ir mais além prende-se com “a maioria atratividade, que leva as pessoas até ao Cruzeiro: o Tejo”.

Realizado por embarcações típicas do Tejo, como o tradicional picoto e a bateira, que transportam a imagem de Nossa Senhora dos Avieiros e do Tejo, em peregrinação fluvial às comunidades ribeirinhas e às aldeias Avieiras, nas margens do rio, o Cruzeiro tem como objetivos específicos: reforçar a identidade das comunidades, aproximando-as através da partilha cultural e religiosa; aproximar as comunidades do Tejo para usufruírem da sua riqueza; transformar as comunidades ribeirinhas em elementos divulgadores das enormes potencialidades do rio na área do turismo sustentável e das culturas a ele associada.

O Cruzeiro refaz, simbolicamente, a ligação fluvial da região de Vila Velha de Ródão com o grande estuário do Tejo, interrompida no final do séc. XIX com a chegada do comboio, depois da saída do último barco de água-acima.

Elementos da Comissão Organizadora do Cruzeiro Religioso e Cultural do Tejo: Armindo Leite, João Serrano e Rui Rodrigues

Há uns anos “começamos a fazer um trabalho de caraterização, de estudo de uma comunidade ribeirinha muito característica, a comunidade piscatória dos pescadores que vieram da praia de Vieira Leiria, os Avieiros, que se estabeleceram ao longo do Tejo desde meados do século XIX. Trabalhámos praticamente sempre em Santarém mas irradiamos para toda a região, desde o estuário até acima de Abrantes, porque estes pescadores correram o Tejo até Vila Velha de Rodão” afirmou João Serrano justificando a explicação com a existência na Torre do Tombo de fotografias da comunidade piscatória avieira em Rossio ao Sul do Tejo.

O estudo concluiu tratar-se de uma comunidade muito religiosa devota de determinados santos como a Santa Bárbara, que evocavam nos momentos de grandes tempestades e dos naufrágios no Tejo.

“Houve alguns”, conta. Ora no âmbito dessa religiosidade e “se apelavam a tantos santos, haveria certamente a Senhora do Tejo que os teria sempre beneficiado”.

Foi assim que, através da Igreja Católica nomeadamente com a ajuda do Bispo de Santarém e mais tarde do Bispo de Portalegre e Castelo Branco, a comissão organizadora chegou até à Nossa Senhora do Avieiros que era, nada mais nada menos que “uma imagem da Nossa Senhora a quem pediam sempre ajuda. A Nossa Senhora é a padroeira do Tejo e desta comunidade, de todas as comunidades e de Portugal. É só uma”, independentemente do nome que lhe atribui quem apela, explica João Serrano.

Esta imagem batizada então por Nossa Senhora dos Avieiros e do Tejo, foi consagrada em Santarém no ano de 2013, pelo Bispo de Santarém, e participou nos cinco Cruzeiros Religiosos do Tejo realizados em 2013, 2014, 2015, 2016 e em 2017, tendo sido transportada na embarcação guia, uma bateira Avieira de nome ‘Nossa Senhora dos Avieiros e do Tejo’.

O passo seguinte passou pela “forma de juntar todas as comunidades, não só as piscatórias, porque há uma identidade ribeirinha de todos aqueles que vivem nas margens do Tejo e na sua bacia hidrográfica. Os que vivem nas margens do rio Nabão ou do rio Sorraia não são diferentes, fazem parte da mesma comunidade, da mesma cultura” considera. Assim nasceu a ideia de um cruzeiro simultaneamente religioso mas “essencialmente” cultural.

“Como o Tejo estava abandonado pensou-se ser uma forma de atrair as pessoas para o rio, para as cativar para o seu estado de abandono, para as levar novamente a interessar-se por um rio a que toda a gente tinha voltado as costas”, referiu.

Surpreendido com o número de pessoas nas margens do Tejo, João Serrano alude a “um qualquer milagre” uma vez que só em 2017 estiveram nas margens do Tejo a acompanhar o Cruzeiro “mais de 8 mil pessoas”, sendo que na página do evento na rede social Facebook “foram registadas 250 mil visitas, até do Vietname, dos Estados Unidos, do Canadá, da Austrália, de África e muita gente do Brasil. Tem um impacto muito interessante”, considera.

Acrescenta que “o objetivo foi atingido: interessar as pessoas pelos problemas do Tejo e ao mesmo tempo uni-las por uma causa comum que é a causa ribeirinha”. Sendo de salientar o “zero de acidentes” em todos os cruzeiros e o elevado e crescente número de peregrinos e espectadores/participantes de ano para ano.

A acontecer com o Cruzeiro está o despertar das gentes “para o seu rio, para a sua identidade, para a sua cultura”, desenha João Serrano em traços gerais.

Ora, durante o percurso sucedem-se diversas paragens e pernoitas dos peregrinos em aldeias Avieiras e comunidades ribeirinhas ao longo do Tejo, com cerimónias religiosas e eventos culturais organizados pelas equipas locais (Câmaras Municipais, Juntas de Freguesia, Agrupamentos de Escolas, Associações e entidades privadas).

Sendo de realçar, este ano, a introdução da “linha de comboio” como meio de transporte complementar e auxiliar no transporte, de ida e ligação de todo o percurso de e para Lisboa, de peregrinos até aos locais de paragem do Cruzeiro.

Segundo a comissão organizadora “estabelece-se assim uma mais-valia para os alojamentos turísticos dos respetivos concelhos, com as possíveis pernoitas nos mesmos em uma ou mais noites”, havendo a possibilidade de os interessados se integrarem no Cruzeiro depois da respetiva inscrição.

A organização manifesta ainda a ambição de “subir, subir, subir. Partir cada vez mais a montante do Tejo” diz João Serrano.

Quem sabe “no próximo ano a partir de Cáceres, e depois Talavera de la Reina, Toledo” e por aí afora. Com a finalidade de “sensibilizar a pessoas para que o espírito positivo que existe no Cruzeiro possa ser contagiado também para Espanha. Aqui o espírito de bondade está a transparecer e as pessoas aderem”.

Cruzeiro Religioso e Cultural do Tejo na sua passagem por Alvega

A logística do Cruzeiro Religioso e Cultural do Tejo está organizada em equipas. A Equipa Terra, composta por três elementos, dá apoio por estrada, garantindo as necessidades dos peregrinos e da equipa de barcos, fazendo também a ligação com as dinâmicas das equipas locais nas comunidades ribeirinhas (associações, escolas, paróquias e outras).

Numa viatura seguirá o coordenador de equipa, José Gaspar, com o apoio de mais um elemento, para assumir e garantir a ligação com as paróquias e respetivas cerimónias religiosas.

Noutra viatura seguirá o responsável pelos combustíveis das embarcações e que ficará, também, incumbido da recolha/transporte do andor de Nossa Senhora.

A Equipa Barcos, composta por 5 elementos ficando o coordenador da equipa, Armindo Leite, como garante da segurança das embarcações e dos peregrinos. As Equipas Locais são compostas por elementos de cada comunidade ribeirinha: Câmara Municipais, Juntas de Freguesias, Paróquias, Escolas, Associações locais e/ou as respetivas paróquias que garantem os eventos e cerimónias religiosas.

“Para organizar uma etapa são necessárias quatro pessoas que localmente se responsabilizam pela receção do Cruzeiro. A nível central também são quatro pessoas”, falando de Rui Rodrigues, José Gaspar, o próprio João Serrano e Armindo Leite responsável pelos barcos e pela segurança, sendo sargento-mor da Marinha Portuguesa em reserva territorial, que por inerência “está habituado à vida do mar”.

Com a previsão de 12 etapas, a começar em Malpica do Tejo – Castelo Branco, e a terminar no grande estuário do Tejo, o grande esforço financeiro vai para o combustível das embarcações e das viaturas implicadas, assim como para a alimentação e pernoita da organização e dos peregrinos.

Depois há que acorrer às despesas decorrentes do apoio que a equipa de terra tem de dar aos peregrinos, às equipas locais – na preparação da receção da Imagem peregrina, cerimónias religiosas – e na cooperação com os eventos locais em cada uma das 12 etapas e, por fim, há as despesas com a divulgação do evento que atualmente estão garantida pela Entidade Regional Turismo do Alentejo e Ribatejo com uma verba de 3.520 euros.

O trabalho de preparação de cada Cruzeiro Religioso e Cultural do Tejo começa seis meses antes de descer o rio. Neste momento prepara-se já o Cruzeiro de 2019. “Já há decisões tomadas para o próximo ano” assegura Rui Rodrigues, da associação Envolve.

“Desde novembro que estamos a trabalhar e toda a estrutura é voluntária” reforça João Serrano. Montar um projeto desta natureza “se fosse uma estrutura empresarial seriam muitas dezenas de milhares de euros. Nós montamos o evento com uma estrutura mínima. O nosso orçamento é sempre de base zero e depois quem quiser oferecer alguma coisa” é bem-vindo, indica João, dando conta em 2018 de “três apoios generosos” que permitem colmatar os custos financeiros.

No fim das contas a gestão “é sempre muito apertada” com edições onde a organização teve de “meter dinheiro do próprio bolso”, garante. Lamenta que a falta de verba impeça, com o pretexto do Cruzeiro, a realização de um intercâmbio cultural em todo o Tejo.

Falando de comunicação, João Serrano lamenta também a falta de divulgação do evento pelos órgãos de comunicação nacionais “que se preocupam com tanta coisa fútil e desinformativa, se dessem o mesmo tipo de atenção ao Cruzeiro, chegávamos a todo o lado. E da Chamusca para baixo, para os órgãos de comunicação regional, o Cruzeiro não existe”, assegura, lembrando que em 2017 “publicaram notícias em Espanha” sobre a iniciativa.

Justifica com o facto de ser um acontecimento espontâneo, que nasce na comunidade, de baixo para cima. “Se fosse ao contrário, se nascesse no Vaticano até o Papa lá ia”, graceja.

No fim do Cruzeiro e até ao próximo ano, a imagem da Nossa Senhora dos Avieiros e do Tejo é guardada na praia de Vieira de Leiria, assim decidido pela Igreja Católica e pelas comunidades.

“Um local que simbolicamente marca a origem da cultura Avieira. Foi de comum acordo que a imagem ficaria durante todo o ano na capela de madeira da praia de Vieira de Leiria”, deu conta. As comunidades que entretanto quiserem venerar a sua imagem em festividades “entram em contacto com o pároco” de Vieira de Leiria.

A Comissão Organizadora é constituída pela Associação Confraria Ibérica do Tejo, pela Associação Independente para o Desenvolvimento Integrado de Alpiarça, pela Envolve – Associação para o Desenvolvimento Local – Rossio ao Sul do Tejo, pela Associação Cultural dos Avieiros da Póvoa de Santa Iria e pela Marinha do Tejo.

CONSULTE AQUI O PROGRAMA

Nossa Senhora dos Avieiros e do Tejo, em Alvega

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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