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Segunda-feira, Outubro 18, 2021

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Tejo | “Os prevaricadores estão a ganhar a guerra” – Arlindo Marques

Alguém lhe terá chamado o “guardião do Tejo” e Arlindo Marques gostou. Natural da Ortiga, concelho de Mação, 52 anos, guarda prisional, secretário da proTejo, luta há três anos contra a poluição que se tem vindo a intensificar no rio Tejo. De Vila Velha de Ródão a Torres Novas, acumula já atrás de si um historial de processos judiciais de fábricas que acusou de serem as fontes poluidoras. Não quer que fechem, afirma, reconhecendo que o seu papel é importante na economia e na vida das pessoas. Mas as normas ambientais têm que ser cumpridas, defende. A longo prazo, há muito mais a perder que alguns milhões de euros. 

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Onde nos encontramos? De preferência junto ao rio Tejo… Então pronto, vá ter à Barquinha!

De todas as pessoas que de alguma forma se pronunciaram até este final de 2017 em defesa do rio Tejo, contra a poluição, Arlindo Marques ocupa um certo lugar de excelência. Não parou com os vídeos, não parou com as denúncias. Vai ficando, com os seus altos e baixos e alguns processos judiciais e disciplinares à mistura. O mais recente está a ser movido pela Celtejo, uma empresa cinquentenária de celulose, que, em comunicado de imprensa, afirma que “a defesa do rio Tejo não pode ser feita em cima de calúnias e de populismos fáceis, mas com rigor, escrutinando as fontes poluidoras ao longo do curso do rio”.

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Arlindo Marques não se reverá nesta afirmação. O ambientalista acumulou tanta informação sobre o rio Tejo ao longo dos últimos anos que, por vezes, se perde na conversa. Quando nos encontramos junto ao rio, perto do Centro Cultural da Barquinha, este está límpido, “como vidro”, em resultado das descargas de água quer de Espanha, quer do Zêzere, é-nos explicado. Quem passa de canoa pára para  o cumprimentar, pedindo-lhe que não pare, que a luta tem que continuar. Se a seca se mantiver, a poluição no Tejo só tenderá a assumir contornos mais dramáticos. É um ciclo em cadeia que a mãe natureza não perdoa e que tem que ser o homem a procurar controlar. Arlindo entra nesta fase, alertando, acusando, mas também assumindo a responsabilidade das suas ações.

Não está em causa o funcionamento das fábricas, frisa. “Mas há tecnologia suficiente para resolver” os problemas que tantos como ele têm evidenciado. Arlindo Marques parece ser, apesar de tudo, um otimista. Basta haver vontade e pensar-se no coletivo, que são todas as pessoas que habitam nas margens do rio ou fazem deste o seu ganha pão.

Embora se tenda a achar o contrário, o Tejo dos banhos de verão e das pescarias não é um dado adquirido. E como se notou neste 2017, ele pode muito bem começar a desaparecer.

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Arlindo Marques é cada vez mais o rosto da luta pelo Tejo. Foto: mediotejo.net

mediotejo.net (MT): Como surgiu este seu envolvimento nas questões ambientais, em particular no Tejo?

Arlindo Marques (AM): Eu moro numa aldeia, que é a Ortiga, que fica no concelho de Mação. Cresci à beira rio, nadei, pesquei, andei com os pescadores, e nunca vi nada como o que se passa agora. Vi o rio sempre normal. Claro que no inverno, quando chovia, ele mudava de cor, mas isso era das cheias. Andei de barco a motor, fiz esqui aquático, também tenho um barco. Nunca vi nada de especial.

Mais ou menos em 2014, aí no verão, comecei a notar uma…parecia tinta à superfície da água, ali na zona da Ortiga, junto à barragem de Belver. Essa tinta começou a aumentar e a fazer uma espuma grossa, chegava a quatro dedos de altura e às vezes até mais. A água com um cheiro a químicos, tipo ácido, e a cor mudou: ora era mais castanha ou cor de vinho tinto. Alguma coisa não estava bem. Os pescadores começaram-se a queixar. Começaram a notar nas redes, nos nós, que havia algo preto agarrado. Com isto tudo nós vimos que o rio estava poluído.

Faltava identificar os locais, quem é que estaria a fazer isto. Como conheço os pescadores, a informação que passou logo foi que era uma fábrica que está em Vila Velha de Ródão. Mas faltava ir lá ao local e confirmar se era mesmo de lá. Um dia, com o deputado Duarte Marques, fui lá para tentarmos identificar. Não vimos nada. Então disse aos pescadores que quando vissem alguma coisa que me ligassem, isto em fevereiro de 2016.

Num domingo à tarde, chovia torrencialmente, eu fui a Vila Velha. Por sorte, naquela tarde, houve 20 minutos que não choveu. Os pescadores estavam à minha espera, eu ponho-me no barco deles, e então, dentro de Vila Velha, vejo que nuns tubos – que toda a gente me identificou a que fábrica pertenciam – mesmo no meio do caís, começou a nascer, parecia uma bomba atómica, um fumo a rolar, um cheiro horrível, partículas finas, e eu filmei isso em vídeos e publiquei no youtube. Todos os pescadores me garantiram que aquilo era de uma fábrica que estava ali. Pronto, estava identificado.

Eu agarrei nesse video e entreguei ao deputado Duarte Marques. A partir daí ele próprio diz que só não vê quem não quer. Se nasce ali, será de alguém dali, de alguma fábrica que está ali. Porque a montante de Vila Velha os pescadores pescam e o rio está perfeitamente normal. Estive também na parte espanhola e não vi nada do que está cá em baixo.

A partir daqui houve uma comissão de ambiente que veio ao terreno saber o que se podia fazer. Vieram uns senhores do SEPNA ver onde havia poluição no rio, da qual encontraram outros focos de poluição, menores, que a meu ver, e da proTEJO, não é isto que está a fazer este foco imenso que tem destruído o rio.

“Mas deparo-me com aquilo, claro que filmo logo. Porque se na altura não se filmar, se não se registar, aquilo desaparece, como foi o caso. As pessoas não aceitam que o peixe morra. Se morre é porque alguma coisa está na água”.

Essa comissão de ambiente elaborou um relatório de medidas que deviam ser tomadas. Esperámos, todos os dias eu a filmar, em Abrantes, na Ortiga, em Vila Velha (narra episódio de filmagens dentro de um barco com os deputados Carlos Matias, do BE, e Patrícia Fonseca, do CDS). A poluição vinha de Vila Velha. Quem está a poluir toda a gente sabe.

A partir daí veio o Ministro do Ambiente diversas vezes ao terreno, disse que o problema ia ser resolvido, que a impunidade tinha acabado. Pior é que isto estava sempre pior. Até que veio o pior. Mais recentemente, dezenas de vídeos que fiz foi de peixes mortos junto arneiro de Niza, porque a água estava completamente escura. Escura que até espelhava, como se fosse um vidro. Cheguei lá e fiquei triste e emocionado com aquilo. Era todo o tipo de peixes mortos.

Liguei para o SEPNA, como faço sempre. Mas deparo-me com aquilo, claro que filmo logo. Porque se na altura não se filmar, se não se registar, aquilo desaparece, como foi o caso. As pessoas não aceitam que o peixe morra. Se morre é porque alguma coisa está na água. E porque é que só morre ali naquela zona?

(relata vários episódios de peixes mortos no rio que sucederam depois deste caso, os quais registou em vídeo e estão disponíveis nas redes sociais, com muitas visualizações)

Fiquei entristecido, metia dó, cheirava a podre. Se os peixes estão mortos alguma coisa não está bem, na natureza não se pode fazer o que se está a fazer. A partir daí ligámos ao SEPNA e o IGAMAOT (Inspeção-geral da Agricultura, do Mar, do Ambiente e do Ordenamento do Território) veio ao terreno. Foi a primeira vez que vi os drones a circular, a filmar. Tiraram análises, mas parece que as análises estão todos boas, que eram algas, ou micro algas. Mas eu, Arlindo Marques, e a própria proTEJO, não acreditamos nesses resultados. Nem os pescadores acreditam nisso. Porque razão as micro algas só matam junto a Vila Velha de Ródão, dentro da barragem do Fratel? Temos o rio, que ainda tem cerca 17 quilómetros desde Vila Velha de Ródão até montante, em que não morreu nada. (…) O foco é entre Vila Velha e Fratel.

MT: Foi-lhe agora movido um processo por difamação pela Celtejo, que fica em Vila Velha de Ródão.

AM: Chego a casa, vejo uma carta no correio e vou aos Correios. Deparo-me com um envelope com 90 folhas em que a Celtejo me acusa (de difamação, nomeadamente em órgãos de comunicação social). A parte final diz que eu, Arlindo, tenho que os indemnizar em, pasme-se, 250 mil euros. Se eu tivesse que os pagar eu teria que trabalhar mais 25 anos…

(…)

Isto é terrorismo psicológico contra a pessoa Arlindo Marques, guardião de Tejo, como já me chamam aí, e eu até gosto desse nome. Não seria mais bonito a essa fábrica que me está a acusar, que é a Celtejo, pagar a todos os pescadores que pescam no rio, que lhes são passadas as licenças, que perderam o ganha pão deles, em Ortiga, Constância, que agora têm que ir pescar a 200 quilómetros ou mais? São custos para eles. Eles também têm que viver. Perde a restauração, perde o turismo, perdemos todos. Quem é que quer tomar banho nisto? A praia da Ortiga, a praia do Alamal… a água está horrível.

MT: Diz que tomou consciência da situação em 2014. Em plena crise, o que mudou em 2014 para aparecer esta poluição?

AM: Isso é público. Há uma empresa que está em Vila Velha de Ródão que diz que os lucros triplicaram. Só pode ter sido isso.

Para mim foi assim: há ali empresas que, antes de começarem a aumentar a produção, deviam-lhes ter dito para meter novos equipamentos ou parar de laborar até terem condições de lançar a cota autorizada. Porque um efluente lançado no recurso hídrico tem que ir tratado.

MT: Quantos processos judiciais é que tem neste momento, ligados ao ambiente?

AM: Que me puseram a mim, neste momento é da Celtejo, o da Fabrióleo de Torres Novas e tenho um disciplinar ligado a isto. Eu também coloquei um à Fabrióleo.

Isto sai-me do corpo. Mas, como se costuma dizer, quem anda à chuva molha-se. Fui avisado por muita gente, nunca quis foi recuar. Porque acho que o Tejo merece voltar a ser o que ele era. Não é isto que está aqui, que isto não é Tejo. As pessoas fugiram ao Tejo. Tenho muita pena que os autarcas ribeirinhos – alguns estão connosco, estão com a proTEJO, é muito bom – mas também temos autarcas que esquecem-se que isto é uma mais valia para os concelhos deles.

(…)

Não se esqueçam de uma coisa: Lisboa é banhada por este rio. E não se esqueçam doutra coisa: toda esta poluição que vemos aqui, isto vai tudo para o mar. Isto entra tudo na cadeia alimentar. Isto é muito complicado. Alguém, um delegado de saúde, o governo, que diga (se se pode consumir o peixe do rio). Ninguém diz nada. Na praça do Entroncamento vende-se peixe do rio, apanhado aqui, em Tancos. As pessoas não compram, porque têm medo. (…) Tem que vir uma entidade dizer que o peixe está bom. Ninguém diz nada. Essa pergunta foi feita na Assembleia República pelo PAN, ninguém lhe respondeu. Porquê?

“Perde a restauração, perde o turismo, perdemos todos. Quem é que quer tomar banho nisto?”

MT: Tem alguma teoria?

AM: Eu tenho. Há estudos que indicam que junto ao rio há muitos cancros. Se é causa-efeito já não sei.

MT: Como está a pensar agora arranjar meios para defender-se? Isto acaba por lhe sair do bolso…

AM: Há muito gente que quer que mande o NIB para me ajudar. Eu sempre recusei. Tenho um pequeno pé de meia para pagar aos advogados. Mas agora, com este processo de 250 mil euros, só para o processo, tenho 30 dias para recorrer, são mil euros que eu tenho que pagar. Falei com a proTEJO, querem fazer um crowdfunding para quem quiser ajudar. Eu custa-me, mas decidi aceitar. Tudo controlado pela proTEJO. Se sobrar algum dinheiro será para uma associação ou para alguém que vá estudar o rio. Ainda vamos decidir.

MT: Que ações pensa desenvolver daqui para a frente?

AM: Hei-de continuar a fazer o que tenho feito até agora. O SEPNA, o IGAMAOT, andam todos no terreno, mas só os vi duas vezes ou três. Acho que irei encontrar mais coisas e irei mostrar em breve. É continuar a denunciar. E nunca vou parar. Só se eu morrer.

MT: O que acha que anda a falhar na fiscalização da poluição?

AM: Isto é a minha opinião pessoal. Isto é uma extensão grande. Eu tenho esta rede do Tejo que a proTEJO fez e se calhar tenho mais contactos que eles. Ligam-me. Vou logo ao terreno e estou lá. Eles têm os equipamentos, mas se calhar não têm essa rede montada.

(…)

Muita gente me liga a pedir conselho (sobre situações de poluição). Eu não sei o que lhes hei-de dizer. Há o SEPNA, temos o IGAMAOT, temos a Hidráulica do Tejo, temos as CCDRs, temos tanta coisa para fazer queixa, mas vocês vêm no Tejo…

Andamos nisto há quatro anos e não conseguimos ganhar esta guerra. Vamos ganhando umas batalhas, mas a guerra ainda não a ganhamos. Os prevaricadores estão a ganhar a guerra.

MT: O que perde com isto a nível pessoal com tudo isto?

AM: Os familiares estão sempre a dizer-me para não andar nisto, que qualquer dia dão-me um tiro. Mas não só. Mesmo os amigos dizem, colegas de trabalho. E têm razão. Se eles quiserem há uma forma muito simples de me eliminar. Calam-me. Não é com um tiro. Mandam-me com um carro para cima e acabou. Tive num Congresso em Coimbra e chamaram-me exatamente por isso. Noutros países, pessoas que andassem a fazer o que eu ando a fazer já teriam sido eliminadas.

“Fui avisado por muita gente, nunca quis foi recuar. Porque acho que o Tejo merece voltar a ser o que ele era”

MT: E o que ganha com isto?

AM: Houve uma senhora que me disse que eu andava aqui para ganhar fama. Eu não preciso de fama. Eu tenho o meu vencimento todos os meses. O que me faz andar… Eu tenho um barco, é onde eu desanuvio do meu emprego. Tenho amigos que pescam, nasci à beira do rio. A minha mãe vendeu peixe à cabeça. O meu avô foi pescador, os meus tios foram pescadores. Eu não admito que nenhuma empresa, seja multinacional seja o que for, faça o que está a fazer. Porque o rio é nosso! E eles não têm direito a destruir isto. Porque as futuras gerações vão precisar de vir ao rio e ver um rio limpo.

Eu não sou contra as fábricas que estão a fazer isto. Sou contra a poluição que elas estão a fazer. Sempre o afirmei nos meus vídeos. Também o que me faz prosseguir é o apoio que tenho das pessoas. Milhares e milhares de pessoas. Mas mesmo que elas me abandonem eu não recuo. Como disse, eu é que vou ter que levar com este impacto dos tribunais.

Só há três coisas que me podem acontecer: vamos ganhar a causa, que eu acredito; ou morro; ou vou para a prisão. Mas eu acredito que vamos ganhar a causa. Há sempre riscos. Mas nunca vou desistir, nem que seja sozinho.

MT: Não tem medo?

AM: Medo não tenho, mas tenho receio. Sou um ser humano. Quem afronta estas multinacionais, estas empresas prevaricadoras, eles têm muito dinheiro, basta-lhes dizer para mandar um carro para cima. Noutros países acontece. Mas se acontecer, esta luta vai ganhar mais força ainda.

vista do Tejo em Vila Nova da Barquinha Foto: mediotejo.net

 

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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