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Tejo | A Santa dos Avieiros que desperta o colorido no rio e a emoção da proximidade (c/fotos e video)

Habituados a vê-lo correr, o rio Tejo tem na sua rotineira presença algo de enigmático. Pela sua história que forjou a cultura do povo ribeirinho, mas sobretudo quando observado de longe preservando na memória aventuras de lutas árduas e naufrágios. Quando visto por dentro, como aconteceu, este sábado, 2 de junho, com o nosso jornal, deixa-nos perplexos sobre a bravura e a força das águas de um rio que parece impotente perante a poluição causada por aquele que em tempos idos dele retirou sustento.

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Igualmente perplexos nos deixa a possibilidade da sua navegabilidade não tanto a montante da barragem de Belver mas a jusante na sua corrida até Lisboa, quando sabemos que por causa da passagem do VI Cruzeiro Religioso e Cultural do Tejo, a EDP, um dos patrocinadores do evento, solta água das barragens e ainda assim é complicada a tarefa timoneira dos fuzileiros da Marinha Portuguesa e dos pescadores habituados ao Tejo. Muito pelo reduzido caudal, permissor de olhares a meio do rio até ao fundo empedrado, e que a toda a hora, se a perícia falhar, encalha os barcos nas rochas ou danifica as hélices dos motores.

É preciso engenho e arte na navegação! E uma saudável inquietação sobre a herança Avieira que interessa preservar neste Cruzeiro que o mediotejo.net acompanhou, num barco dos fuzileiros portugueses, nesta sexta edição desde a praia fluvial do Alamal, no concelho de Gavião, até Mouriscas, no concelho de Abrantes. Nesta 3ª etapa, das doze que compõem o Cruzeiro, a comitiva pernoitou em Rossio ao Sul do Tejo e esta manhã fez a primeira escala no Porto da Barca, em Tramagal.

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A imagem da Nossa Senhora dos Avieiros segue rio abaixo impávida e serena, com os olhos nas águas e nas gentes que a esperam nas margens do rio. Com os pés cobertos de flores e a confiança depositada em quem a leva pelo sexto ano consecutivo até ao estuário do Tejo, num percurso de 250 quilómetros iniciados este ano em Malpica do Tejo até Oeiras que a receberá a 24 de junho.

Em Ortiga deixa a água para seguir por terra num atrelado com um barco picareto construído pelo “ti’Fontes”, mestre calafate da Ortiga que morreu em 2017, conta Rui Rodrigues da comissão organizadora do Cruzeiro.

A montante, na zona de Malpica do Tejo, o isolamento das populações é em crescendo conforme nos aproximamos da raia. Os acessos ao rio “praticamente não existem” explica Rui Rodrigues. Por isso, a comunidade abriu caminhos inclinados, estradões em terra batida para chegar ao rio.

“As pessoas não iam ao Tejo há décadas até chegar o Cruzeiro, que acaba por ser um pretexto para fazer outras coisas”, reforça João Serrano igualmente da comissão organizadora e presidente da Confraria Ibérica do Tejo. Em Perais esperaram a Nossa Senhora dos Avieiros 120 pessoas, uma zona onde as ligações ao rio nem são tanto pela atividade piscatória, mas pelo contrabando que marcou gerações de antepassados daquelas populações ribeirinhas.

Rui Rodrigues integra a Equipa Terra, composta por três elementos. Dá apoio por estrada, garantindo as necessidades dos peregrinos e da equipa de barcos, fazendo também a ligação com as dinâmicas das equipas locais nas comunidades ribeirinhas (associações, escolas, paróquias e outras).

Numa viatura segue o coordenador de equipa, José Gaspar, com o apoio de mais um elemento, para assumir e garantir a ligação com as paróquias e respetivas cerimónias religiosas. Noutra viatura segue o responsável pelos combustíveis das embarcações e que ficará, também, incumbido da recolha/transporte do andor de Nossa Senhora. O telefone de Rui não pára de tocar logo pela manhã, antes de chegarmos à praia fluvial do Alamal, local de partida do Cruzeiro dia 2 de junho, cerca das 09h30.

VI Cruzeiro Religioso e Cultural do Tejo. Rui Rodrigues trabalha no apoio por terra. Os contactos telefónicos para resolução de questões logísticas, que obrigam a paragens, são uns constante ao longo do percurso

Este ano, o VI Cruzeiro “iniciou-se num local que pouca gente conhecia, depois continuou por Perais também pouco conhecido e as comunidades aderiram de uma maneira muito significativa” garantiu João Serrano.” Se fosse possível quantificar e depois avaliar a qualidade diríamos que a qualidade era muito elevada porque no primeiro dia em Malpica do Tejo e em Perais, estiveram 600 pessoas, as entidades presentes ficaram surpreendidas com o interesse das pessoas”.

João Serrano classificou de “auspicioso”, um indicador de “que as pessoas estão desejosas de acontecimentos como este para se poderem encontrar, falarem das coisas do dia a dia, conviver e principalmente interessarem-se pelo Tejo, e isso está a acontecer” sendo esse um dos objetivos da comissão organizadora do Cruzeiro: “levar as pessoas a falar e a interessar-se por um Tejo que tem andado tão esquecido”, acrescenta.

“O êxito de uma iniciativa destas não depende de nós” afirma. “Recai principalmente nas comunidades locais, nas paróquias, nas Juntas de Freguesia, nas Câmaras e em alguns filantropos e amigos do Tejo”, num trabalho de voluntariado. Isto porque “a organização é muito pesada”. São quase três centenas de quilómetros de rio, 12 etapas, 44 paragens e “só possível com o envolvimento não só das comunidades e entidades locais, da Igreja que vê nesta manifestação de religiosidade algo que tem estado sempre latente, que a Nossa Senhora dos Avieiros e do Tejo é a Nossa Senhora, que é só uma”.

A imagem transportada nos barcos “empresta um colorido enorme e desperta a emoção da proximidade. Portanto, ver a imagem é associa-la àquilo que de melhor temos enquanto seres humanos, com a condição humana que temos ligada à natureza”, salienta.

Apesar das dificuldades de comunicação na praia fluvial do Alamal, nos dois primeiros dias os contactos mostraram-se mais complicados. “Não há rede telefónica” lamenta Rui. Os telemóveis mudos ou aos soluções atrasam os contactos de última hora, e é preciso confirmar se a logística está a postos para o transbordo da Santa e das embarcações na praia fluvial da Ortiga, no concelho de Mação, por necessidade de ultrapassar a Barragem de Belver.

“Há um apoio fundamental das Câmara Municipais e das Juntas de Freguesia. Sem esse esforço enorme dos municípios era impossível realizar o Cruzeiro”, vinca Rui. E os obstáculos são quatro: a Barragem do Fratel, a Barragem de Belver, o travessão do Pego, onde o apoio surge da Pegop, empresa responsável operação e manutenção da Central Termoelétrica do Pego, e o açude insuflável de Abrantes. E esse apoio implica o transporte dos barcos e da imagem por terra em camiões com ajuda de grua e retroescavadora.

VI Cruzeiro Religioso e Cultural do Tejo em Mouriscas. João Serrano da comissão organizadora do evento

Os fuzileiros, força especial da Marinha Portuguesa, acompanham o VI Cruzeiro Religioso e Cultural do Tejo, em dois barcos. A missão dos militares prende-se com o apoio logístico, a segurança das embarcações e também “como forma de aproximar a Marinha Portuguesa às populações”, explica Rui Rodrigues.

Em cada concelho a comissão organizadora “recolhe a bandeira do Município que leva hasteada nos barcos até ao próximo” diz Armindo Leite responsável pelas embarcações. Dois concelhos têm sempre bandeira ao vento: Azambuja e Vila Velha de Rodão, “um reconhecimento pelo esforço adicional que fazem para que o Cruzeiro seja uma realidade”.

Do lado dos peregrinos, Maria José tem 56 anos e quatro a acompanhar, pelo rio, a Nossa Senhora dos Avieiros até Lisboa. É do Pego, terra situada nas margens do Tejo, e embora trabalhe num lar de terceira idade tem alma de navegadora. Para além da devoção à Santa gosta “muito do rio! Por isso tenho um barco pequeno” que acompanha o cortejo. Este ano correu mal. “Está avariado”, diz, problema que encurta a viagem, desta vez deve ir até Vila Franca de Xira.

Mesmo de braço ao peito não se nega à aventura de entrar e sair dos barcos só com uma mão para auxiliar o desequilíbrio provocado pela agitação das águas. No ano passado “cheguei ao Terreiro do Paço toda molhada” tal era o movimento em forma de ondas e salpicos, recorda. “É uma viagem bonita, lindas paisagens e um bom convívio entre as pessoas”, destaca.

O seu testemunho cumpre a ideia da comissão organizadora: trazer as pessoas até ao rio Tejo, despertá-las para os seus problemas, deixando nas mãos das comunidades a vontade e a realização do que entenderem quererem adicionar à viagem.

VI Cruzeiro Religioso e Cultural do Tejo. Maria José, do Pego, acompanha a Nossa Senhora dos Avieiros até Lisboa, pelo quarto ano consecutivo.

A comunidade da praia de Vieira de Leiria “pela primeira vez acompanhou a saída da Nossa Senhora da capela em procissão. O pároco e a comunidade local contactaram as comunidades Avieiras de Vila Franca de Xira e de Póvoa de Santa Iria para irem à praia trajados a rigor”, conta João Serrano.

Outro acompanhante da Santa é Rui Lebre, médico cirurgião no Hospital Garcia da Horta, em Lisboa. Natural de Alcanena costuma dizer que nasceu e logo veio a deslizar até ao Tejo. Cedo abalou para a capital mas nunca esqueceu as suas raízes. Praticante de remo enquanto estudante, certo dia decidiu ir de Lisboa a Santarém a remar. Foi o início do seu interesse pela cultura Avieira.

Há quatro anos que se junta ao Cruzeiro Religioso e Cultural do Tejo e não se esquece que “o rio já vem de Espanha, sendo 70% da água desviada para o sul” do país vizinho. Aqui recebemos o restante 30% “já com o esgoto de Madrid e Toledo Tejo abaixo” vincou, dizendo que “o problema da poluição é transfronteiriço e o Tejo é um património de todos”.

O Cruzeiro “procura promover a coesão, a união e sensibilizar as pessoas para estes problemas” nomeadamente de um interior desertificado. Lembra que durante o inverno, os Avieiros não tendo como pescar no mar migravam para o Tejo.

“Chamam saveiro a esta bateira” aponta para um dos barcos estacionados na margem norte do rio em Mouriscas, naquele que já foi o porto da telha, batizado assim pelas inúmeras fábricas de telhas e tijolos existentes em Mouriscas, e onde aguardavam a Nossa Senhora cerca de 100 peregrinos e um almoço ao ar livre organizado pela comunidade.

O Cruzeiro é realizado por embarcações típicas do Tejo, como o tradicional picoto e a bateira, que transportam a imagem de Nossa Senhora dos Avieiros e do Tejo, em peregrinação fluvial, mas o saveiro, originário do peixe sável, “era a casa das pessoas que vinham de Vieira de Leiria”, nómadas a quem Alves Redol apelidou de “ciganos do rio” em 1942.

Sabe-se que os Aveiros vieram até à Chamusca” estabeleceram-se em palafitas a que chamavam “barracas” construídas, numa primeira fase, com caniços.

VI Cruzeiro Religioso e Cultural do Tejo. Rui Lebre, um médico cirurgião interessado pela cultura Avieira, há 4 anos que acompanha o Cruzeiro

Antes das Mouriscas o Cruzeiro parou em Alvega, igualmente no concelho de Abrantes, depois de Ortiga, onde a imagem da Nossa Senhora foi recebida ao toque da Banda Filarmónica Alveguense, por muitas pessoas cujo o atraso do cortejo não fez arredar pé. Também Mouriscas recebeu a Santa ao som da sua Banda Filarmónica, com uma missa campal presidida pelo padre Francisco apoiado pelos escuteiros do Agrupamento 193 de Mouriscas.

Maria Augusta Serrano, de 75 anos, cresceu no Tejo, em Mouriscas. “Bebíamos da água do rio” conta ao mediotejo.net. Recorda tempos sem barragens no Tejo. Agora lamenta a poluição. “Morre tudo, animais, peixes, já ninguém vive do rio”, refere. É peregrina assídua no Cruzeiro. “Todos os anos venho. É muito bonito. Tradições que importa manter e ensinar os mais novos sobre o que havia”, fala outra vez no passado, observando ser este tipo de iniciativas dinamizadoras das povoações do Interior. “O Interior bem precisa de empregos, porque o rio já não dá nada. Já não há peixe que nos valha”.

Independentemente dessa verdade, Maria dos Anjos Paiva, de 62 anos, continua a pescar. Toda a vida foi pescadora, já a mãe era, por isso todos a conhecem por ‘Bailarica’, descendente de famílias Avieiras. É proprietária de um barco picareto, o barco negro com um bico na proa, tradicional de Constância até Vila Velha de Rodão.

Em 2019, Maria dos Anjos vai levá-lo no Cruzeiro. “Era para ser já este ano mas não me inscrevi”, diz. Será a primeira vez que um barco picareto integrará o Cruzeiro Religioso e Cultural do Tejo.

“Gosto mais de remos do que de motores”, ri. Ao seu barco chama-lhe Santa Eulália, onde podem viajar três pessoas. ‘Bailarica’ reforça: “para o ano é que é!” porque gosta do rio, de pescar, “toda a vida vivi da pesca e do rio”, gosta da tradição e “há que acautelar que não se perca” pelo contrário “que cresça, com mais barcos no rio”.

É por baixo do açude insuflável de Abrantes que o Santa Eulália repousa com mais cinco barcos. “Até posso nem pescar mas tenho de ir ao rio, é uma terapia, um vício ir ao Tejo”.  E o povo fez a festa enquanto a comissão organizadora distribuía pagelas e porta-chaves alusivos ao evento.

VI Cruzeiro Religioso e Cultural do Tejo em Mouriscas. Maria dos Anjos Paiva, pescadora, de família Avieira acompanhará em 2019 o Cruzeiro com o seu barco picareto

Quarta etapa partiu este domingo de Rossio, onde a comitiva pernoitou no sábado

VI CRUZEIRO do TEJO

Publicado por Rui Lebre em Sábado, 2 de Junho de 2018

A 4ª etapa de domingo 3 de junho é a seguinte:
09h00 – Rossio ao Sul do Tejo
10h00 – Tramagal
10h30 – Rio de Moinhos
11h00 – Amoreira
13h00 – Constância
15h30 – Praia do Ribatejo
16h00 – Tancos
16h30 – Arripiado
17h30 – Vila Nova ia Barquinha

Tramagal l Cruzeiro Religioso e Cultural do Tejo/4 etapa.

Publicado por mediotejo.net em Domingo, 3 de Junho de 2018

A quinta etapa acontece na próxima sexta-feira, dia 8 de junho.

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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