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Terça-feira, Novembro 30, 2021

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“Tás a ver?”, por Fernando Duarte

O brasileiro Gabriel, O Pensador canta uma música com o título “Tás a ver?”, cujo refrão é o seguinte:

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“Tás a ver a vida como ela é?
Tás a ver a vida como ela tem que ser?
Tás a ver a vida como a gente quer?
Tás a ver a vida pra gente viver?”

Ora, escrevi numa das minhas crónicas anteriores (Crise de valores) que era perigoso fazer as coisas “para inglês ver”, pois a vida é prática e põe tudo a nu, mais cedo ou mais tarde. Escrevi também que só se falava dos políticos quando estes estavam prontos para pôr a cabeça na guilhotina. Não tenho nenhuma bola mágica, o nosso país e a nossa sociedade fazem por obedecer à Teoria do Caos. Resumindo, num determinado número de acontecimentos ou eventos aleatórios existem padrões que se repetem.

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Já lá vai o tempo em que os portugueses só com instrumentos de orientação com base no posicionamento das estrelas se fizeram ao mar e deram novos mundos ao mundo. Hoje, mesmo com mapas detalhados e GPS, não nos orientamos, andamos sempre a chorar sobre o leite derramado.

O tema dos fogos foi, este ano, uma tragédia pegada com princípio, meio e fim. Começou com chave de prata antes do tempo e terminou com chave de ouro muito depois do tempo. O fogo do costume desta vez não levou só bombeiros, levou quem lhe apareceu à frente, moradores, visitantes, crianças e mulheres grávidas, pessoas de carne e osso passaram a ser números, estatística.

Desta vez o pesar parece ser real, a sociedade une-se para fazer donativos, sair à rua e até deu para o vencedor do Festival da Eurovisão dar um “peidinho” para meio país ouvir, mas ninguém entendeu a mensagem, ninguém está disposto a “amar pelos dois”. Relativamente aos donativos questiona-se o seu real paradeiro e integridade da sua aplicação, enquanto o sair à rua, além de mostrar solidariedade para com as vítimas dos incêndios, aproveitou-se também para dar umas “punhadas” no parceiro de cor partidária diferente.

A comunicação social, insaciável por mostrar o que procuramos, o que queremos ver, a desgraça alheia, acaba por mostrar mais do que queríamos. Mostra lágrimas, mostra destruição, mostra terra queimada, mostra até corpos amortalhados se for preciso.

Mas, se para a comunicação social as regras parecem estar bem definidas, no Facebook são inexistentes, tal como o bom senso. Parece que toda a gente quer contribuir para esta pornografia negra. Tenta-se mostrar o maior pesar possível para revelar as boas pessoas que somos, cresce a indignação, apontam-se culpados e clama-se por mais sangue. O Facebook que dá sempre aquela sensação libertadora de termos feito algo sem que, na realidade, nada tenhamos feito.

O relatório acerca da tragédia de Pedrogão Grande realizado pela Comissão Técnica independente é publicado mesmo a tempo de assistir ao pior dia do ano em matéria de incêndios. Quem leu e depois teve de lidar com os fogos na primeira pessoa, foi como se tivesse tido uma aula teórica seguida de uma aula prática intensa do que está a falhar no país em matéria de combate a incêndios – sendo que o secretário-geral da Administração Interna deu todo o apoio moral possível para que a lição ficasse bem estudada.

O nosso Primeiro-Ministro dá um discurso que se assemelha ao de um firme treinador cuja a equipa está a levar uma cabazada da equipa adversária, mas que, mesmo assim, este decide manter, convicto das suas ideias. Há que não esquecer: o que interessa é a economia do país.

O nosso Presidente finalmente pôs os pontos nos i´s. Afinal de contas, “quem não se sente não é filho de boa gente”, mas num país com comentadores a mais e fazedores a menos, atribuem-lhe a característica de calculista. Se tivesse apresentado um discurso ou postura diferente tinham-lhe atribuído outra característica qualquer, há sempre é que comentar na mesma.

A ministra da Administração Interna lá conseguiu ter as férias tão desejadas, ao contrário dos nossos jornalistas – estes não tiveram descanso. Enquanto o país ardia ainda tiveram de fazer a cobertura das eleições, ver se o SIRESP realmente funciona e fazer uma matéria acerca do inesperado aparecimento das armas de Tancos que, afinal de contas, se suspeita não terem chegado a desaparecer.

A verdade é que o provérbio “mais vale prevenir do que remediar” há muito que não se aplica ao nosso país e o certo é que mais noticias destas vieram para entreter os ditadores do sofá, por uma simples razão: em vez de se fazer algo para que elas não aconteçam, muitos vão ficar sentados à espera que aconteçam.

Engenheiro Civil, de 32 anos, teve como tantos outros, de sair do país para conseguir exercer a sua profissão. Com raízes em Alvega, tem enorme gosto em conhecer novos sítios e novas culturas, custa-lhe é lá permanecer.

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