“Subiu ao alto, perdeu a pena”, por José Rafael Nascimento

Ilustração de Freya Blackwood para o livro "The Feather"

“Ao fim e ao cabo, ele não era má pessoa. Apesar de ter falhado redondamente, deu o melhor da sua incompetência” – Isabella L. Bird

PUB

“Quis voar a uma alta torre, mas achou-se desasado. E, vendo-se depenado, de puro penado morre. Se a queixumes se socorre, lança no fogo mais lenha: não há mal que lhe não venha”. Em dezasseis versos distribuídos por três estrofes, Luís de Camões glosa em Perdigão perdeu a pena sobre a ambição desmedida e imprudente dos Ícaros deste mundo, sempre desejosos de voar próximo do Sol, mas não avaliando ou não criando as condições para o fazer com sentido de responsabilidade e probabilidade de sucesso (para o próprio e para os outros).

É que não basta ambicionar voar, é indispensável ter asas adequadas e saber voar, [re]aprendendo continuamente. Quando tal não acontece, ou se insiste em voar demasiado alto, confirma-se o Princípio de Peter.

PUB

Laurence J. Peter, afirmou, em 1969, que “numa hierarquia, tende-se a subir até atingir o nível de incompetência”, justificando o provérbio “quanto maior é a subida, maior é a queda”. Mas o incompetente lá se vai aguentando como pode no cargo, sabendo que quem o alcandorou e sustenta é como o generoso cachorro-quente que “alimenta a mão que o morde”.

Na minha vida profissional, cruzei-me certa vez com um Perdigão. Exercia funções de estafeta na sede de um grande banco internacional, onde entrou por cunha, estando afecto aos serviços administrativos que eu chefiava. Além do trabalho rotineiro de courier, o ambicioso Perdigão fazia os recados que se lhe pedia, com uma disponibilidade e solicitude inexcedíveis. O que – e sempre que – fosse preciso fazer, o Perdigão lá estava, qual Super-Homem irrompendo de nenhures!

O Perdigão era motivado por grandes (e legítimas, reconheça-se) aspirações, mas tinha um problema: não pensava. Ou, para ser mais justo, pensava pouco. Talvez até se pudesse dizer que a sua extremosa prontidão, a raiar o hiperactivo, o impedia de pensar melhor. Eu explico: quando se lhe começava a dizer “Perdigão, é preciso ir…”, o célere empregado já ia. “Perdigão, Perdigão, calma! Sabe onde tem de ir?”, perguntava-lhe eu, logo satisfazendo a sua admirada expectativa: “É preciso ir à agência X…”. E lá disparava o estafeta!

Mais importante do que dedicar-se e esforçar-se muito, é alcançar bons resultados quantitativos e qualitativos, fazendo aquilo que deve ser feito, com a maior satisfação possível de todas as partes interessadas (stakeholders).

“Perdigão, Perdigão, calma! Sabe o que vai lá fazer?” e a história repetia-se, até que a impetuosa criatura percebesse com rigor o que tinha de fazer, designadamente quando se tratasse de tarefa nova ou diferente da usual. Levou tempo, mas o voluntarioso Perdigão lá aprendeu a planear minimamente as suas tarefas, definindo antecipadamente o que, como, onde, quando, quem e quanto realizar. Todavia, nunca chegou longe no seu desempenho profissional, por não conseguir perceber suficientemente a razão ou finalidade daquilo que fazia.

Efectivamente, o porquê completa a tão famosa quanto útil fórmula de Lasswell, mas o Perdigão precisava sempre de receber as instruções da forma mais detalhada possível pois, não entendendo o objectivo e fundamento das tarefas, não possuía a competência indispensável à tomada autónoma de decisões. Nem à realização das tarefas com a qualidade e a eficiência requeridas, desejavelmente superando-as. O Perdigão era metaforicamente (e literalmente, como se disse) um “moço de recados”, i.e., um “pau mandado”.

Muitas vezes me lembrei, nessa altura, de uma anedota que o meu pai contava e que vinha a propósito do comportamento do Perdigão. Era a de um trabalhador (chamar-se-ia também Perdigão?) que questionou a chefia sobre a fraca avaliação do seu desempenho, considerando-a injusta face à de um colega com menor tempo de serviço, mas melhor avaliado. Em vez de o esclarecer explicitamente, o chefe perguntou-lhe o que estava a fazer uma determinada carrinha à porta da empresa.

Solícito, o empregado despachou-se a ir ver do que se tratava e voltou para informar o chefe: “É uma carrinha que vem entregar resmas de papel”. “A quem se destina o papel?”, perguntou de seguida o chefe. “É só um momento que vou já saber!”, respondeu o empregado. Num instante, estava de volta: “É para a Contabilidade”. “E quantas resmas são?”, insistiu o chefe. “Só um momento que já lhe digo!”, respondeu o fogoso trabalhador. E a história voltou a repetir-se…

PUB
Há quem goste de se vitimizar e esteja sempre a queixar-se de não ver reconhecidos o seu esforço e dedicação, rejeitando pontos de vista discordantes ou simplesmente diferentes. Alguns, desempenhando altos cargos políticos ou empresariais, revelam mesmo traços preocupantes de imaturidade, narcisismo e autoritarismo.

Finalmente, o chefe disse ao empregado “Obrigado, já estou esclarecido, não se importa de aguardar aqui um momento?” e chamou o colega com melhor avaliação. Quando este chegou, o chefe perguntou-lhe o que estava a fazer a referida carrinha à porta da empresa. O trabalhador dirigiu-se ao local e voltou com a informação: “Trata-se de uma carrinha da empresa X que vem entregar na Contabilidade 30 resmas de papel da marca Y, encomendadas ontem pelo senhor Z”.

Escusado será dizer que o empregado reclamante ficou plenamente esclarecido sobre a disparidade entre ambas as avaliações, não tendo sido necessário dizer-lhe mais nada. Há quem se esforce e sacrifique muito no trabalho, mas apresente fracos resultados ou, até, produza o que não deve. Na verdade, há uma linha que separa o esforço e dedicação da eficiência e produtividade. E outra linha que separa estas últimas (o como fazer) da eficácia inerente à correcta definição dos objectivos estratégicos e operacionais (o que fazer, mas, sobretudo, o que não fazer).

O comportamento arrebatado e veemente que se observa em determinadas pessoas – vulgo “o homem não pára, está em todas, não perde tempo!” – agindo de forma impulsiva e precipitada (a que alguns gostam, eufemisticamente, de chamar “pragmatismo”), com desprezo pelo pensamento e planeamento estratégico e prospectivo (ou mesmo pela táctica e a qualidade dos processos), geralmente acaba mal, com o sujeito a queixar-se de que a sua entrega e prontidão à função não são devidamente valorizadas pelos outros.

“Andale, andale! Arriba, arriba!”, repetia o rato Speedy Gonzales enquanto procurava surripiar o queijo e esquivar-se de felinos problemas. Fraca ambição de vida, no limite do que o instinto lhe sugeria. Perdigão, como Ícaro, teve maior ambição, ”subindo-lhe o pensamento a um alto lugar”. Contudo, como disse Camões, ”não tendo no ar nem no vento asas com que se sustenha, perde a pena do voar, ganha a pena do tormento. Não há mal que lhe não venha”.

Em crónica anterior (ler aqui), afirmei que “Ao controlarem, directa ou indirectamente, os recursos vitais da comunidade, […] os caciques locais detêm um poder quase absoluto sobre as condições de existência de todos aqueles que deles necessariamente dependem. […] Essa supremacia limita e atrofia a capacidade e motivação dos cidadãos, mesmo dos mais empreendedores, para exprimir e realizar o seu potencial criador”.
Em todas as épocas e lugares se conheceu e reconhece um Perdigão. Ou um Secretário (sagittarius serpentarius), sei lá, entre tantos pássaros, passarinhos e passarucos, aves de rapina e cucos. Bem sei que a vontade de quem acoita e sustenta essa passarada é chumbar o mensageiro, i.e., aquele que denuncia o favoritismo e os privilégios de que gozam certas espécies protegidas (abordei o tema aqui), mas o diabo do olhinho vesgo da sua incompetência não lhes permite concretizar tal desejo. Ficam-se, pois, pela pena do tormento.

Qualquer organização humana (passe a redundância), para ser bem-sucedida, precisa de ter as pessoas certas nos lugares certos e no tempo certo. Sendo necessárias (e desejáveis) a vontade, a capacidade e a disponibilidade individuais, elas devem no entanto estar alinhadas com as necessidades e aspirações organizacionais, assim como as da comunidade que se serve. As acções tácticas e operacionais devem ser enquadradas e sustentadas por políticas e estratégias bem desenhadas pois, como diz um provérbio oriental “estratégia sem acção é um sonho, acção sem estratégia é um pesadelo”.

Ficou famosa a declaração de Belmiro de Azevedo, um empresário que apostava fortemente no capital humano dos seus negócios, o qual, referindo-se explicitamente a um conhecido político-comentador da sua área ideológica, afirmou que “nem para porteiro [da minha empresa] servia porque demorava demasiado tempo a explicar como se entra nas instalações”. Assistimos amiúde, inclusive à nossa volta, a personagens incompetentes e oportunistas que se desmultiplicam em acções, declarações e publicações que têm por finalidade criar a impressão de que são muito preocupadas, dedicadas e esforçadas, tudo singularizando na sua primeira pessoa.

Todavia, quando afastamos a espuma dessa azáfama ou a deixamos esvair, pouco mais fica do que uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma. Lembra aqueles motores que se fartam de roncar, mas cuja potência é pífia ou lhes falta a correia de transmissão, para que as coisas rolem com a velocidade e a segurança necessárias. Em 1982, Tom Peters e Robert H. Waterman, Jr. escreveram a seminal obra “Em Busca da Excelência”, a qual marcou uma geração de gestores. Hoje, em muitas realidades políticas e empresariais, talvez fizesse mais sentido o título “Em Busca de Sua Excelência”. É realmente uma pena…

*O autor não segue as regras do novo acordo ortográfico.

PUB

APOIE O NOSSO JORNAL, TORNE-SE UM LEITOR BENEMÉRITO

Se lê regularmente as nossas notícias torne-se um leitor benemérito fazendo contribuições a partir de 10€/mês, ou doando valores iguais ou superiores a 100€. Esses leitores passam a constar da ficha-técnica como apoiantes deste projeto independente de jornalismo. Pode também fazer uma contribuição pontual (5€, 10€, 20€, o que puder e quiser).

PUB

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here