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Sábado, Maio 8, 2021

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“Subalternas de todo o mundo, uni-vos!”, por Carla Baptista

Perto da vista, perto do coração – jornalismo por dentro
Os textos desta secção têm um propósito: contar histórias sobre jornalismo. Os tempos são de “abundância mediática”, mas o consumo ininterrupto de informação coexiste com um grande desconhecimento sobre quem são e como trabalham os jornalistas.

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A escritora Grada Kilomba, autora de Memórias da Plantação, disse numa entrevista à jornalista Isabel Lucas que gosta mais da tradução brasileira do seu livro, de Jess Oliveira, do que da portuguesa, de Nuno Quintas: “Quando leio as duas traduções vejo diferenças e tivemos de fazer muitas correcções porque ele usou uma linguagem branca e masculina. Usa termos como ‘arrancámos este projecto’. ‘Arrancar’ é um verbo típico usado por homens, que uma mulher não usa. Nós ‘começamos’, ‘iniciamos’ um projecto. Há nuances em que se percebe: isto é traduzido por um homem branco.”

A possibilidade da tradução, isto é, a esperança de que leitores diversos participem num diálogo intercultural, é um dos temas abordados por Grada Kilomba, artista interdisciplinar, académica e ativista antirracista. Quando um sujeito… o masculino hegemónico que marca tantas palavras em português obriga a recomeçar a frase usando uma linguagem mais inclusiva.

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Segunda tentativa: Quando uma pessoa sente em si o desejo de escrever a sua própria história, uma revolução acontece. Algo semelhante a um desligamento entre placas tectónicas ou a um fenómeno químico que altera a estrutura molecular da matéria.

A consciência do arquivo de sentidos encerrados nas palavras que usamos todos os dias cria uma combustão transformadora. Como um xamã em transe, vemos atrás delas pessoas invisibilizadas, vozes silenciadas, vidas torturadas por uma política da língua que perpetua a dissemelhança entre os homens… perdão, volto atrás, entre os seres humanos.

Terceira tentativa para incluirmos as mulheres nessa humanidade de falantes: entre nós. As palavras deviam ser irmãs que nos levam pela mão em viagens maravilhosas. Devíamos abraçá-las fraternalmente e não tropeçar nelas.

Estamos atrasadas, mas ainda não é tarde para sermos capazes, e que bem soa esta forma regressiva do verbo ser, porque precisamos de andar muito para trás para reencontrar a força original da existência, “a madrugada que eu esperava”, em que rompemos as cadeias da sujeição, sermos capazes de contar outras histórias acerca da revolução portuguesa.

Créditos: Eduardo Gageiro

Lemos nas primeiras páginas dos jornais do dia 25 de abril de 1974 como a censura dos coronéis já não usou o lápis azul em Lisboa, e vermelho no Porto, mas ainda as escreveu com palavras feridas de guerra e medo: Movimento das Forças Armadas desencadeia ação na madrugada (A Capital); O Movimento das Forças Armadas prosseguirá na sua ação libertadora (Diário de Lisboa); O Movimento das Forças Armadas proclama a entrega do governo a uma Junta de Salvação Nacional (Diário Popular); As Forças Armadas tomaram o poder (República); Eclodiu um movimento militar (Diário de Notícias); O general António de Spínola preside à Junta de Salvação Nacional (O Século); O Movimento das Forças Amadas derrubou o governo de Marcelo Caetano (O Primeiro de Janeiro).

Desencadear, eclodir, derrubar, entregar são verbos de homens brancos armados que tomaram o poder, essa força masculina que morre na boca quando a feminizamos, reproduzidos pelos homens jornalistas que contaram a história daqueles dias. Não há um conhecimento universal mas, 47 anos depois, a memória do 25 de abril ainda não soa na “língua mais bela”, título de uma exposição de Grada Kilomba em 2017, a língua materna, das mães, das irmãs, das filhas que ficaram nas fotografias atrás dos ombros dos homens que avançam em primeiro plano.

Há uma diferença quando as mulheres contam a história. O texto que a jornalista belga Colette Braeckman publicou no jornal Le Soir, 1 de Maio de 1974, fala como “Lisboa em delírio celebra a festa do trabalho em liberdade”. Colete Braeckman tem hoje 75 anos e tornou-se uma das maiores especialistas em assuntos da África Central mas em maio de 1974 ela descreveu uma festa, não os massacres que mais tarde testemunhou no Ruanda e na República Democrática do Congo: “Todas as lojas, os restaurantes e os cafés estavam fechados, mas ninguém pensava em beber. Não havia outra embriaguês senão a da alegria, nem outro alimento além da esperança (…). Ao longo de quilómetros e quilómetros comprimiam-se multidões imensas, felizes (…) Vermelha era Lisboa neste 1º de Maio de liberdade, vermelha a cidade reconquistada pelo povo. Vermelha como a própria felicidade, como a vida reencontrada depois de meio século de anestesia. E vermelhos eram, também, os cravos nas bocas dos canhões, nas baionetas das espingardas, na lapela dos uniformes, sobre todos os corações unidos na mesma alegria.”

Desapareceram os homens brancos armados, chegou a alegria e a esperança. Os canhões têm bocas, nos uniformes destacam-se as lapelas, a cidade é vermelha, a multidão é imensa, a embriaguez é feminina. Podemos substituir armado por amado. Uma subtil elisão que abre a via da reparação do trauma.

Segundo Grada Kilomba, a cura para a ferida aberta da sujeição (seja o colonialismo, o racismo, o sexismo, a opressão política) ocorre nas vivências micro. São os sorrisos na rua entre estranhos iguais que nos salvam porque resgatam a humanidade roubada. A multidão sorridente que se abraçou nas ruas de Lisboa há 47 anos precisou desse toque de pele para esconjurar a maldição. Precisou de dizer as palavras proibidas, como as que foram negadas a Maria Teresa Horta, na altura jornalista d’A Capital, onde começou a trabalhar em 1968, no suplemento Literatura e Arte. Em abril de 1971 publicou o livro de poesia Minha Senhora de Mim, na coleção “Cadernos de Poesia”, da Dom Quixote, dirigida por Snu Abecassis.

Em maio, um homem que ocupava um subcargo – César Moreira Baptista, subsecretário de Estado da Presidência – chamou Snu Abecassis ao seu gabinete, mandou-a sentar e disse: “A senhora publicou este livro que está apreendido. Não lhe vou fechar a editora, mas a próxima vez que publicar esta senhora eu fecho-lhe a editora.”

Em junho, a editora foi objecto de um auto de busca e apreensão da obra por parte da PIDE/DGS, operação extensiva a todas as livrarias do país. Os arquivos da censura na Torre do Tombo guardam os documentos dessa operação. No dia 15 de junho, o agente de 2ª classe José Cláudio Conceição Foz, encarregado da apreensão de 113 exemplares da obra intitulada Minha Mulher Minha, da autoria de Maria Teresa Horta, na livraria Antecipação, informou que somente apreendeu 2 exemplares, em virtude de 75 dos quais haverem sido devolvidos à editora e vendidos os restantes 36.

O lapso cometido no título do livro – que passa de Minha Senhora de Mim para Minha Mulher Minha – recorda-nos como as palavras não nomeiam simplesmente as coisas, mas criam a realidade. Essa, felizmente, podemos debatê-la hoje, em liberdade, lendo um dos 59 poemas sobreviventes. Modo de Amar – fala sem medo de sexo e desejo femininos: Lambe-me os seios/desmancha-me a loucura/usa-me as coxas, devasta-me o umbigo/abre-me as pernas, põe-nas nos teus ombros/e lentamente faz o que te digo.

Esta também é uma história de 25 de abril, sempre.

Docente no Departamento de Ciências da Comunicação da NOVA FCSH, investigadora do ICNOVA na área da história dos media e jornalista freelancer, escreve todos os meses no mediotejo.net sobre jornalismo. Porque os tempos são de “abundância mediática”, mas o consumo ininterrupto de informação coexiste com um grande desconhecimento sobre quem são e como trabalham os jornalistas.

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