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Terça-feira, Novembro 30, 2021

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“SPALIL, uma lenda da indústria ribatejana”, por António Matias Coelho

Foi a primeira fábrica de tomate do país, fundada em 1938 para responder à crescente produção proporcionada pelas ricas terras do Ribatejo. Teve na sua origem iniciativa, capitais e mão-de-obra portugueses e tecnologia italiana. Por isso adotou o nome SPALIL – Sociedade de Produtos Alimentares Luso-Italiana, Ld.ª. Durante mais de sessenta anos animou a atividade económica da Chamusca e desta vasta região.

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Deu trabalho direto ou indireto a muita gente, daqui e de fora, incentivou o cultivo do tomate e de diversos outros produtos do campo que transformava e que constituíam importante fonte de rendimento para centenas de pequenos e médios agricultores.

Não resistiu às exigências da modernização tecnológica e acabou por fechar, como aconteceu a outras unidades do seu género de concelhos vizinhos. Hoje é uma ruína que se acentua com o passar do tempo. E um testemunho de uma época em que o trabalho era muito duro mas havia que bastasse para todos.

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A ideia surgiu nos anos 30 quando um grupo de agricultores da Chamusca se apercebeu das potencialidades do campo para produzir tomate para fins industriais e do que isso poderia significar em termos económicos. Havia condições para alargar imensamente a área de cultivo, havia vontade de impulsionar o setor agroalimentar, em grande parte incentivada pelas políticas desenvolvimentistas do Estado Novo nascente e havia até capitais para a concretização do projeto. Faltava a tecnologia, o know-how como agora se diz.

Em matéria de tecnologia da transformação e conserva de tomate, a vanguarda estava então em Itália, em especial no vale do Pó. Por isso, um dos promotores da ideia, Francisco Mascarenhas, deslocou-se a Parma para obter informações sobre a maquinaria necessária à montagem de uma fábrica de tomate na Chamusca. O industrial italiano Pierino Cavazzini não apenas facultou essas informações como mandou a Portugal o filho Giovanni que orientou a instalação da SPALIL e por cá ficou a gerir a nova sociedade luso-italiana com os seus sócios portugueses, entre os quais Manuel da Silva Gomes.

Nos primeiros tempos de laboração a SPALIL produzia apenas concentrado de tomate. No ano seguinte ao da sua fundação começava a Segunda Guerra Mundial e durante os seis anos que ela durou a fábrica da Chamusca forneceu enorme quantidade de liofilizados aos países em conflito. Mais tarde desenvolveria a laboração com outros produtos alimentares em conserva, como picles, pimento, cenoura, alcaparra, mostarda e outros.

Anúncio ao concentrado Salutar / Coleção Sérgio Carrinho

Vendia muito para Inglaterra, sobretudo para a Heinz, a empresa que viria a adquirir a fábrica de tomate da IDAL em Benavente, e para as colónias, um mercado que cresceu imenso nas décadas de 50 e 60.

Funcionava todo o ano, empregando 30 a 50 trabalhadores permanentes. Mas o volume maior de trabalho era no período da campanha do tomate, nos meses de verão, ocupando centenas de pessoas. A campanha de 1969 foi a melhor de todas, envolvendo 519 trabalhadores. No campo era tal a necessidade de mão-de-obra para a apanha do tomate, feita sobretudo por mulheres, à mão para grades de madeira, que vinha muita gente de fora, às vezes de longe, em especial do Alentejo. A mecanização que se iniciou nos anos 70 viria reduzir substancialmente essa precisão de braços.

A SPALIL foi, no seu tempo, uma das poucas indústrias do concelho da Chamusca, a par da fábrica de papel de Ulme e da fábrica de cerâmica do Pereiro. E tinha caraterísticas regionais, abrangendo uma vasta área da lezíria e da charneca onde a produção de tomate conheceu grande incremento, em especial nos anos 60. Muitos pequenos e médios seareiros que produziam tomate, cenoura, pepino, em especial nas terras do Pinheiro e da Carregueira, conheceram então alguma prosperidade graças à SPALIL que lhes absorvia a produção em condições compensadoras. O tomate e outros produtos do campo eram inicialmente transportados em carroças dos próprios produtores ou então em pequenas camionetas que alugavam em comum para servir um número maior deles com custos partilhados.

O transporte de tomate para a fábrica – meados do século XX / Foto: DR

As instalações construídas no início da fábrica eram apenas as que se situam junto à estrada e que, por serem as mais antigas, são as que se encontram hoje em maior ruína. Tudo o restante seria erigido nos finais da década de 60, a época de ouro da empresa, para responder ao enorme crescimento da sua atividade.

Foi uma verdadeira escola de quadros e ocupava muita gente jovem durante as férias escolares de verão, constituindo para muitos a primeira experiência de trabalho. Rapazes e raparigas desempenhavam funções várias, mas a que todos gostariam de evitar era a da receção do tomate devido aos frequentes conflitos que ocorriam entre o funcionário que recebia o produto e o classificava a partir de uma amostra e o agricultor que muitas vezes não concordava com essa classificação. No final da campanha, para além de inúmeras e enriquecedoras experiências, havia um dinheirinho no bolso que dava jeito para os gastos e significava até uma certa autonomia. E relações mais fortes com os companheiros de trabalho. Ainda hoje há quem alimente páginas no Facebook com memórias das campanhas do tomate na SPALIL nos tempos da juventude…

O grande incremento da produção de tomate nestes concelhos do Médio Tejo levaria à instalação de outras empresas transformadoras nos concelhos vizinhos da Golegã e de Torres Novas: a SIC na Azinhaga e a UNITAL em Riachos. Nasceram depois da SPALIL, mas encerraram ambas antes dela.

A falência ditou o encerramento da fábrica em 2002, deixando no desemprego 47 trabalhadores, a maior parte deles com muitos anos de serviço e de dedicação à empresa. As máquinas seriam vendidas, dois anos depois, a uma empresa australiana. Os trabalhadores viram arrastar durante longos anos o processo de fecho das contas, só tendo recebido a indemnização possível no ano de 2010.

Surgiram entretanto diversos projetos para reativação do espaço e dos equipamentos existentes, mas nenhum deles vingou. E continua por encontrar um destino viável para o que ficou da primeira fábrica de tomate de Portugal.

À beira da estrada, vergada ao peso do tempo e aos anos de abandono, a SPALIL continua a ser, apesar da ruína que dela vai tomando conta, uma referência na paisagem, um lugar de recordações, boas e más, para muita gente, e uma presença a avivar-nos a memória da Chamusca do século que passou.

É ribatejano. De Salvaterra, onde nasceu e cresceu. Da Chamusca onde foi professor de História durante mais de 30 anos. Da Golegã, onde vive há quase outros tantos. E de Constância, a que vem dedicando, há não menos tempo, a sua atenção e o seu trabalho, nas áreas da história, da cultura, do património, do turismo, da memória de Camões, da comunicação, da divulgação, da promoção. É o criador do epíteto Constância, Vila Poema, lançado em 1990 e que o tempo consagrou.
Escreve no mediotejo.net na primeira quarta-feira de cada mês.

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1 COMENTÁRIO

  1. Mais um excelente artigo, como já nos habituou AMC. É um documento histórico e cultural de grande valor, que perpetua as nossas memórias coletivas, o modo vida, uma escola de aprendizagens práticas e de valores fundamental para várias gerações de jovens e uma fonte de emprego sazonal para dezenas de pessoas de várias zonas do país.
    A gestão da SPALIL soube acompanhar a evolução tecnológica até aos finais do séc XX, com linhas de montagem e embalamento automáticas, mas nao resistiu aos ultimos investimentos e exigências da UE…
    AMC trata neste documento, de forma quase radiográfica, todo o contexto desta indústria agroalimentar, desde o seu início até a sua decadencia de forma sublime. Parabéns ao autor e ao Mediotejo, por nos facultarem este precioso naco da nossa história recente.

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