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Quinta-feira, Janeiro 20, 2022
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“Sou cientista, não lhe devo satisfações. Será?”, por Sara Cura

Um colega disse-me uma vez que publicar em português era uma total perda de tempo e que escrever em revistas locais era patético. A crítica foi não só destrutiva, como pessoal. Encaixei, não dei valor e continuei a fazer o que sempre fiz. 

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Ao longo de duas décadas de carreira na investigação nunca me excluí da responsabilidade de publicar na minha língua e durante anos foi colaboradora da Zahara, revista que todos conhecemos. A Zahara é, na minha opinião, uma das melhores revistas de história local do país e a minha colaboração nunca foi um exercício patético, mas sim uma honra. Não colaboro mais porque os contributos têm de ser trabalhos sobre a região e nem sempre isso me acontece.

É certo que o inglês é a língua franca da ciência e eu escrevi e escreverei muito em inglês, todavia não o fazer também numa língua, a nossa, que é falada por mais de 250 milhões de pessoas em todo o mundo, parece-me absurdo. A questão não é somente tornar o português uma língua de ciência, como é também tornar acessível fora do nosso circuito fechado da investigação o trabalho que vamos fazendo. Chama-se a isso ciência aberta e comunicação de ciência, e é sobre esta última que vos quero escrever.

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É bem verdade que nem todos os académicos e académicas e/ou cientistas podem ou devem fazer divulgação pública do seu trabalho, mas os que o fazem bem, beneficiam todos os demais que vivem dentro de uma academia ainda muito fechada sobre si própria. Convém não esquecer que o trabalho público é inerente à nossa responsabilidade académica colectiva. Mais: todos nós, cientistas ou académicos, temos a responsabilidade de explicar paciente e repetidamente, se necessário for, o valor social do que fazemos.

Óbvio que nem todo o nosso trabalho propicia exposição pública ou desperta interesse fora do campo disciplinar mais restrito. Outro ponto assente é que o nosso trabalho é avaliado pela qualidade das suas contribuições dentro do nosso sistema de revisão por pares (que em si é criticável quando só focado em publicações) e jamais pelo tamanho da nossa audiência. 

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A pandemia trouxe a ciência para a vida de todos nós diariamente, o que mostrou as potencialidades da sua comunicação, mas também a debilidades na transmissão da mensagem e no entendimento da mesma.

Apesar de que muito se está a avançar na comunicação de ciência para o grande público, muito mais poderia ser feito e a este respeito tenho em mente o meu próprio campo disciplinar, as Humanidades. Estas perpassam toda a nossa vida social, política, cultural e cívica. Porém, a maioria das pessoas não se apercebe disso. Culpa nossa, mais do que tudo. Afinal de contas a história, a literatura ou a filosofia ensinam-nos como viver e todos nós precisamos de ajuda nisso. Acresce que as humanidades são fulcrais na formação de pensamento crítico, o que só aumenta a responsabilidade de nos abrirmos à sociedade nestes tempos de enorme amplificação de teorias conspirativas e falsas notícias.

Porém, uma das barreiras internas à comunicação de ciência no mundo académico é o medo. Passo a explicar.

Nós que fazemos investigação, e quando sobre ela escrevemos, na maior parte das vezes fazêmo-lo com a ideia que o nosso pior pesadelo crítico vai ser um único/a leitor/a. Um implacável investigador ou investigadora, umas vezes real, outras imaginário, sempre aterrador, que lerá as nossas ideias para, em seguida, as decompor, sem apelo nem agravo, perante toda a comunidade científica. 

É sobretudo para esse espectro que escrevemos de forma densa, cheia de jargões e fórmulas (em ciências sociais e humanas algumas vezes forçadas, mas que pensamos terem o poder de atestar a nossa capacidade científica). Fazêmo-lo num tom defensivo para nos protegermos do esperado ataque à suposta fragilidade das nossas ideias. A aquietação da nossa assombração crítica e intransigente leva-nos para um labirinto de discursos e arranjos linguísticos que, demasiadas vezes, não tem saída. O preço disto é a redoma que construímos em relação a todos os outros que não são nossos colegas ou aos fantasmas científicos, mas antes pessoas reais que gostam do que estudamos e gostariam de saber mais sobre como o fazemos e o que vamos descobrindo. 

Eu não digo que deixemos a exigência e rigor especializado do mundo académico, é obviamente fundamental, o que eu digo é que não podemos, nem devemos, subir a torre de marfim e esquecer da escada que nos permite dela descer. A ciência não pode ser uma prática de captura intelectual que não nos liberta para o admirável trabalho que é comunicarmos o que fazemos. Diz o filósofo brasileiro, Mário Sérgio Cortella, que o conhecimento não serve para humilhar, serve para encantar. Não podia estar mais de acordo.

A arqueologia, a minha disciplina, não é excepção. Com frequência fecha-se sobre si própria, quando tem um público curioso, ávido de saber mais e disposto a aprender de forma acessível, ainda que rigorosa. Acredito que a maior parte das pessoas abandona as mirabolantes ideias de revistas sensacionalistas e emissões noturnas do Canal História se lhe oferecermos a nossa história, fiel ao rigor nossa prática, de uma forma cativante. São ainda poucos os exemplos desse esforço em Portugal e só desejo que tenham um efeito multiplicador cada vez maior (proporcional à sua qualidade).

Na maior parte dos casos, as pessoas não desconfiam da ciência em si, elas desconfiam daquilo que contradiz o seu sistema de crenças. Não é tarefa fácil destronar a convicção e a crença. É jogar num campo dominando pelas emoções que a suportam. Mas os cientistas não são desprovidos de emoções, desde logo têm paixão pelo que fazem, sentem maravilhamento nas suas descobertas, entusiasmo pelo trabalho de equipa, fascínio pelos pensamentos dos que os precederam. Porque é que isso não haveria de ser partilhado? Quem não se encanta com o Cosmos do Carl Sagan? E por cá não é um prazer ouvir, entre outros, o Carlos Fiolhais?

Não esqueço nunca o que me disseram uma vez: simplificação da comunicação não é necessariamente simplificação do pensamento. De resto, as pessoas gostam de aprender, mesmo as coisas mais difíceis. É um erro tremendo pensar o contrário. 

Sara Cura

Natural de Vila Nova da Barquinha, formou-se em Arqueologia na Faculdade de Letras de Lisboa e especializou-se na Sorbonne, em Paris, tendo trabalhado quase 20 anos como arqueóloga no Museu de Arte Pré-Histórica e do Sagrado no Vale do Tejo, em Mação. Atualmente exerce funções no Gabinete de Apoio à Investigação e Qualidade da Escola Superior de Comunicação Social, em Lisboa.

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