“Somos o que respiramos”, por José Rafael Nascimento

Ilustração de Irene Lee

“A democracia está na nossa cultura, no nosso ar: Nós respiramos democracia!”
– The Copenhagen Criteria. Fighting for Democracy

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Respirar não é obrigatório. Sobreviver também não, ironizou W. Edwards Deming quando se referiu àqueles que acham que não é necessário mudar. O reputado académico e guru da qualidade total (mas também da gestão e da liderança) sabia bem do que falava, conhecendo como conhecia os sistemas produtivos e empresariais dos EUA, Japão e outras economias de topo. Alguns consideram-no mesmo o pai da terceira revolução industrial. Pode não ser obrigatório respirar, mas os seres humanos, que suportam algumas semanas sem comer e alguns dias sem beber, não sobrevivem mais do que alguns minutos sem respirar.

Respiramos para fornecer oxigénio, através dos pulmões e do sangue, às células que compõem os vários sistemas ou aparelhos do nosso corpo – respiratório, cardiovascular, digestivo, muscular, esquelético, nervoso, reprodutor, articular, sensorial, endócrino, excretor, imunológico, linfático e tegumentar – proporcionando-lhes a energia (ATP mitocôndrica) necessária ao seu funcionamento. Os pulmões absorvem o oxigénio do ar (inspiração) e eliminam o dióxido de carbono (CO2) libertado pelo sangue (expiração), fazendo-o através de milhões de alvéolos e vasos capilares. Nasce daqui a metáfora “inspire o futuro e expire o passado.

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Também respiramos activamente – bem fundo e lentamente – para acalmar o sistema nervoso, diminuindo o ritmo cardíaco, a ansiedade e o stress, e para estimular a actividade eléctrica no cérebro, favorecendo a memória e os processos emocionais. Neste caso, é a inspiração activa pelo nariz que atinge a amígdala e o hipocampo, influenciando a região límbica do cérebro. Sophie Tucker dizia que “o segredo da longevidade é continuar a respirar” e Kris Carr ia mais longe, ao afirmar “adoro respirar, o oxigénio é sexy!”.

Compreende-se agora melhor o velho conselho “respire fundo!” e a importância de inspirarmos pelo nariz o ar puro da natureza. Este é composto por cerca de 78% de azoto, 21% de oxigénio e 1% de árgon. Existe igualmente vapor de água no ar (sobretudo o mais quente), perfazendo entre 0,1% e 4% da troposfera, bem como pequenas quantidades de outros gases residuais (como dióxido de carbono) e partículas (como fuligem e metais, lançados na atmosfera a partir de fontes naturais e antropogénicas). Frequentemente, só se dá conta do ar saturado e tóxico quando se respira ar puro e fresco…

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A cada minuto, os pulmões processam cerca de 5 a 8 litros de ar aspirado pelo nariz/boca e traqueia, enviando cerca de 15 a 30% de oxigénio para o sangue, mesmo quando a pessoa está em repouso (mais do que decuplica durante o exercício). Mas é o cérebro – também ele necessitado de oxigénio para as funções centrais e periféricas (somáticas, autónomas e entéricas) – que controla o processo (em conjunto com a aorta e as carótidas), recebendo informação sobre a quantidade de oxigénio e dióxido de carbono no sangue e enviando instruções ao diafragma e outros músculos (abdominais, intercostais e do pescoço) envolvidos na respiração e sua frequência (12 a 15 vezes por minuto).

O sistema respiratório (em cima, imagem da Artmed) e o impacto da poluição do ar na saúde humana (em baixo, imagem da AEA)

Quando o oxigénio não chega às células na quantidade suficiente, tal pode dever-se a um problema agudo ou crónico nos pulmões, no coração, na circulação sanguínea ou nas vias aéreas. Ou ainda a anemia, anafilaxia, ansiedade ou crise de pânico. Mas também se pode dever a factores ambientais, como poluição ou altitude. A falta de oxigenação dos tecidos tem geralmente como consequência e sintoma o aparecimento de um tom arroxeado nos lábios, nariz ou dedos. Existimos porque – e somos o que – respiramos. 

A respiração – seja ela pulmonar, traqueal, branquial ou cutânea – é um processo normalmente automático e inconsciente (se pensarmos, pode até faltar-nos o ar…), excepto quando fazemos exercícios de respiração. No entanto, os mamíferos cetáceos precisam de pensar de cada vez que têm de respirar, mesmo quando dormem (metade do cérebro permanece activo). De facto, só o podem fazer à superfície, momento em que ficam expostos a predadores tão diferentes como humanos gananciosos ou gaivotas famintas (usam o bico para arrancar pedaços de pele e gordura).

As baleias, que chegam a ter pulmões mil vezes maiores do que os seres humanos, aproveitam 90% de oxigénio do ar inalado, conseguindo permanecer submersas por cerca de hora e meia. O maior animal de sempre no nosso planeta, cujo parente vivo mais próximo parece ser o hipopótamo, vive em geral 60 a 90 anos (mas pode viver mais de 200), chega a medir 30 metros e a pesar 180 toneladas (só a sua língua pesa mais que um elefante). O seu coração, do tamanho de um automóvel, ouve-se a mais de 3 quilómetros e a sua boca tem espaço para cerca de 100 pessoas. 

Todos os mamíferos, incluindo naturalmente os humanos, respiram por pulmões. A respiração cutânea (ou tegumentar), total ou parcial, é exclusiva de animais que vivem em ambientes aquáticos ou húmidos, como minhocas, sanguessugas, ténias, alforrecas, vermes, esponjas, sapos, rãs e salamandras. As trocas gasosas através da pele são impossíveis nos mamíferos porque estes possuem uma pele grossa que lhes permite manter uma elevada temperatura corporal e reduzir a perda de água.

Contudo, em finais dos anos 90 do século passado, os cientistas descobriram que o Dunnart de Julia Creek, um rato marsupial do deserto australiano, respira totalmente pela pele (quase transparente) à nascença. Com 12 semanas de gestação e 4 milímetros de comprimento, é ejectado para a bolsa marsupial e aí se desenvolve, perdendo gradualmente a capacidade de respiração tegumentar à medida que os pulmões se desenvolvem.

O rato marsupial Dunnart de Julia Creek (em cima, imagem de Tim Doherty) e os esporos do parasita Henneguya salminicola ao microscópio (em baixo, imagem de Stephen Atkinson)

Também se pensava, até recentemente, que todos os animais multicelulares – existentes há mais de 1.450 milhões de anos – precisavam de respirar oxigénio para viver, mesmo que rarefeito ou em condições de hipoxia. Contudo, cientistas da Universidade de Telavive (Israel) descobriram que o Henneguya salminicola, um parasita cnidário do salmão, pertencente ao mesmo filo dos corais, águas-vivas e anémonas, não precisa nem de oxigénio nem de respirar.

Se a respiração constitui uma função bem definida de movimento de ar ou água através da superfície de estruturas respiratórias, como brânquias (guelras) ou pulmões, para possibilitar a troca de oxigénio e dióxido de carbono com o meio ambiente, em linguagem corrente ela tem mais o significado genérico de arejamento ou de trocas/interacções químicas (ou simbólicas) entre matéria (e não-matéria) e meio envolvente (atmosfera e outros elementos), produzindo determinados metabolismos (orgânicos ou semióticos).

Assim, nesta acepção, também a pele e outros órgãos externos, a mente e os sentimentos, os alimentos crus e cozinhados, a roupa e o calçado, as organizações e os sistemas (incluindo os países, as comunidades locais e as democracias) precisam de “respirar”. Embora a pele humana – e estruturas adjacentes, como pelos, unhas, cabelo, glândulas sudoríparas e sebáceas – efectivamente não respire, utiliza-se incorrectamente a expressão “respirar” para referir outras funções e trocas ambientais que realiza, como metabolizar a luz solar e absorver substâncias lipossolúveis, incluindo vitaminas A, D, E e K, além de hormónios esteróides, como o estrogénio.

A pele serve, fundamentalmente, para protecção dos nossos órgãos internos, regulação da temperatura corporal, recepção sensorial, reserva de nutrientes, excreção de suor e libertação de feromonas. No entanto, as células da camada superior da pele e as células da superfície frontal dos olhos recebem uma quantidade significativa de oxigénio directamente do ar e não do sangue. É essencial que a superfície dos olhos seja transparente, coberta por um bolsa de fluido em forma de lente chamada humor aquoso, protegida pela córnea, para permitir que a luz brilhe. É o humor aquoso que fornece o oxigénio, absorvido do ar, às células na lente e no verso da córnea.

Em relação à pele (epiderme e derme), o maior e mais pesado órgão do corpo humano (pesa cerca de 16% do peso corporal total), sabe-se que a sua camada superior, até uma profundidade de 0,25 a 0,40 milímetros, é quase exclusivamente suprida por oxigénio externo, sendo desprezível a quantidade de oxigénio que chega a camadas inferiores, as quais carecem do oxigénio fornecido pelo sangue. É muito importante, pois, que os poros da pele não estejam obstruídos, evitando a acumulação de acne.

“Não uso máscara pela mesma razão por que não uso roupa interior: as coisas precisam de respirar (things gotta breathe).” – Argumento brejeiro de uma cidadã americana em Palm Beach, Florida (EUA)

No mundo vegetal, os processos de intercâmbio gasoso entre as plantas e a atmosfera também estão naturalmente presentes. A respiração ocorre através dos estomas, poros microscópicos presentes em toda a estrutura das plantas vasculares, mas sobretudo nas folhas, as quais absorvem oxigénio, inclusive à noite. Já a fotossíntese consiste na produção de energia através da luz solar e fixação de carbono proveniente da atmosfera, ocorrendo também um processo de transpiração em que a planta elimina água na forma de vapor.

De resto, as coisas precisam em geral de “respirar” (things gotta breathe), i.e., de realizar intercâmbios positivos com o meio envolvente, e esta não é uma necessidade exclusiva dos seres vivos. Veja-se o que se passa com os alimentos e a roupa. O vinho, por exemplo, sobretudo quando ainda está muito fechado e pouco expressivo, precisa de domar as moléculas de tanino e pôr a acidez no lugar, tornando-se mais macio. Ou seja, em linguagem vulgar “precisa de respirar”, o que todavia não é consensual entre os especialistas.

Também a massa fermentada e alguns cozinhados precisam de ficar algum tempo em repouso, a “respirar”. O pão, sobretudo quando comido ainda quente (p.e. o bolo do caco madeirense), deve ser arrancado e não cortado, para que o miolo “respire” à vontade e, em repouso, deve permanecer numa gaveta de madeira, num saco de pano ou numa vasilha cerâmica, evitando-se guardá-lo num saco de plástico ou numa caixa hermética.

Algo semelhante se passa com a roupa e o calçado (ou com os tecidos e o couro, se se preferir). Recomenda-se guardá-los em local arejado, em sacos de TNT (tecido não tecido) que os deixam “respirar”. Os colchões devem ter bases ou estrados ventilados, de preferência com ripas de madeira e forrados com tecidos “respiráveis”. As fibras naturais (algodão, lã, seda ou linho), de origem animal ou vegetal, permitem que o corpo “respire” melhor, proporcionando um desejável conforto táctil (e olfactivo…).

Mais recentemente, o paradigma da “respiração” da matéria chegou aos metais. A bio-arquitecta Doris Kim Sung propôs a criação de materiais mais eficientes na troca de temperaturas. Os “termo-bimetais” são materiais inteligentes que respondem dinamicamente, de forma combinada, à mudança de temperatura, reduzindo o calor nos espaços interiores o que dispensa, consequentemente, os aparelhos de ar condicionado. A tecnologia é semelhante à dos tecidos sintéticos usados no desporto de alta competição.

George Floyd chamou repetidamente pelos filhos e pela falecida mãe, enquanto dizia ao polícia que este o estava a matar: “Vai matar-me, vai matar-me, não consigo respirar!”, repetiu mais de 20 vezes durante 9 longos minutos. Morreu pouco depois, asfixiado pelo joelho do agente sobre o seu pescoço. As suas últimas palavras foram “Mamã, eu amo-te. Diz aos meus filhos que eu os amo. Estou morto”. Mural pintado por Novadead, em Bruxelas

Temos, finalmente, a preocupação com a “respiração” da não-matéria, i.e., das realidades intangíveis às quais os indivíduos atribuem significados, através do processo de comunicação. Assim, é comum ouvir-se dizer, metaforicamente, que “a democracia precisa de respirar”, o mesmo se dizendo de um território, comunidade, economia, partido, empresa ou indivíduo, muitas vezes com o significado de ganhar espaço e tempo para reflectir, exprimir e resolver problemas, ou simplesmente para usufruir de liberdade. Ennio Morricone dizia que “a música precisa de espaço para respirar”, o mesmo se podendo dizer de todas as demais formas de expressão e comunicação.

Conta-se a anedota do cão que veio viver para uma democracia liberal, fugindo de um regime autoritário. Passeando com um cão amigo nativo, o cão refugiado indignava-se continuamente com as dificuldades materiais do cão nativo, dizendo-lhe que no país dele tudo lhe era garantido pelo Estado, ao que este questionou a razão pela qual ele tinha vindo viver para ali. “Para poder ladrar”, respondeu o cão refugiado. Apesar de ser uma anedota, ela diz bem da importância da liberdade de pensamento, opinião e expressão, no conjunto das necessidades e motivações humanas.

Como escrevi na crónica Fair-play democrático, “Numa comunidade que preza a democracia, o nível do debate e relacionamento público – cívico e político – revela a saúde e a qualidade dessa democracia. Por sua vez, em sentido inverso, a forma e a substância desse debate e relacionamento determinam o nível a que se entende e pratica a democracia. […] A minha tese é, pois, a de que as interacções tóxicas envenenam o ambiente cívico e político, pondo em causa a democracia”. Impedem-na de “respirar”.

Façamos tudo o que pudermos para viver, com a maior qualidade e dignidade possível. E o possível é muito mais do que aquilo que temos, se acreditarmos nas nossas capacidades individuais e colectivas. Mas, para viver bem, é preciso respirar bem: absorver os elementos que o ar puro nos proporciona e expelir os gases deletérios que nos intoxicam. Cuidemos da nossa saúde social como cuidamos da saúde física e psíquica, prevenindo as doenças e superando-as quando elas surgem. Epidemias há muitas e o primeiro alvo, como a COVID-19 nos alertou, é geralmente a respiração…

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