“Sobre o discernimento e a ecologia da percepção”, por José Rafael Nascimento

Ilustração de Pete Gamlen

Vivemos tempos confusos e de desorientação. As capacidades cognitivas de atenção, compreensão e julgamento – e inerentes capacidades emocionais – dedicadas à realidade próxima circundante, no espaço físico dos nossos bairros e aldeias, foram sendo desafiadas por um espaço físico e mediático cada vez mais alargado – regional, nacional e internacional –, fruto da evolução das vias e meios de comunicação.

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Hoje, esses recursos cognitivos e emocionais estão a ser postos à prova, não apenas por um espaço físico e mediático globalizado e mega-urbanizado, mas também por um novo espaço digital e virtual onde todas as “realidades” podem ser criadas e mescladas com a “realidade real”. Vivemos mais de imagens longínquas e ilusórias, tornadas próximas e “reais”, do que de realidades físicas que podemos tocar, cheirar e provar.

As variáveis do meio social e natural multiplicaram-se exponencialmente, tornando o contexto muitíssimo mais complexo. Já não são só as notícias de que o amigo Manel se aleijou ou a prima Maria engravidou, somos bombardeados com informação do que (se diz que) acontece, em tempo real, em todo o planeta e, até, no universo observável e inferível.

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Vivemos em estado de “sobrecarga de informação” e podemos estar a atingir o limite das nossas capacidades, as quais, por natureza, são limitadas e selectivas. Não é fácil perceber esta hiper-realidade e ser capaz de a discernir. Muitos revelam dificuldades em compreender e avaliar tão grande volume e complexidade de informação, comprovar a sua fiabilidade e formar adequadas atitudes e comportamentos. E alguns parecem já sofrer de “burnout mediático”.

Mas somos obrigados a lidar com esta realidade, quer queiramos quer não. Desde logo, porque estes processos são em larga medida automáticos e, depois, porque a vida, com toda a sua diversidade, enleios, paradoxos e dilemas, nos impõe escolhas difíceis que requerem intensa busca de informação, interacção social e processamento mental.

Consegue ver o toureiro? E o touro? E o que mais vê? “O Toureiro Alucinogénico” (1968-1970), quadro de Salvador Dali

Decidir não formar uma atitude ou não encetar um comportamento é, em si mesmo, formar uma atitude e encetar um comportamento. Não há fuga possível, as atitudes e os comportamentos nunca são neutros, pois a neutralidade é, ela própria, um lado, uma parte, um partido.

E toda a realidade tem, pelo menos, dois lados, mesmo que estejamos perante representações dominantes ou até hegemónicas. Expressões como “Não há bela sem senão” ou “Não há rosa sem espinhos” estão aí para o lembrar, caso fosse necessário, mas os contrastes naturais luz-sombra ou fome-saciedade, por exemplo, tratam de o fazer a cada momento com mais espontaneidade.

Sempre me criou perplexidade a defesa radical e continuada do lado “positivo” da realidade, a qual me “cheira” sempre, aliás, a hipocrisia ou artificialidade. Ou a coisa espiritual, sei lá… Sublinho o “radical e continuada”, pois compreendo que a escolha do lado bom e agradável da vida ajuda a vivê-la, gerando até respostas positivas por parte daqueles com quem se interage.

Mas a ecologia da percepção – o equilíbrio e objectividade com que se percepciona a realidade – recomenda que não se ignore o lado “negativo”, por assim dizer. Na verdade, o positivo só existe porque existe o negativo, o que faz com que o “negativo” seja também ele positivo, ou seja, útil, benéfico e até indispensável, merecendo por isso ser apropriadamente notado.

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A alegria e a sorte, por exemplo, só existem porque existem a tristeza e o azar, ou, se quiserem, porque existem a falta de alegria e a falta de sorte. Observar o lado negativo da realidade não é, nem deve ser, exclusivo dos cépticos nem dos pessimistas, tal como observar o seu lado positivo não é, nem deve ser, exclusivo dos crédulos e optimistas.

As capacidades mentais e psicomotoras de discernimento são postas à prova nos puzzles e no jogo do Mikado

Na filosofia chinesa, este dualismo é representado pelas forças naturais contrárias Yin e Yang (símbolo Taichi), consideradas complementares, interrelacionadas e interdependentes. Elas interagem formando um sistema dinâmico em que o todo é maior do que a soma das partes. Outros exemplos seriam ordem-desordem, fogo-água, expansão-contracção ou luz-escuridão.

Neste mundo intrincado, a passar por processos de transformação sem precedentes – em termos de dimensão, diversidade, velocidade e impacto –, o discernimento emerge como uma capacidade fundamental dos indivíduos e das sociedades, exigindo mais dos líderes formais e informais: a capacidade de diferenciar, avaliar e julgar, distinguindo o Bem do Mal, i.e., o que é certo, bom ou positivo do que é errado, mau ou negativo, sem cair todavia num maniqueísmo simplista e redutor.

Esta aptidão ou competência – que se apoia na “inteligência analítica” (ou “componencial”) – requer sabedoria e deve estar ancorada numa escala de valores que prime pela nobreza ética e clareza de convicções. Ela inclui a capacidade de reconhecer problemas, definir a sua natureza, decidir sobre estratégias para os resolver, monitorizar as soluções e avaliá-las a posteriori, mediante a aquisição, codificação, comparação e combinação selectiva de informação.

Na exortação apostólica Amoris Laetitia, o Papa Francisco refere-se insistentemente ao “discernimento”, associando-o à ideia de “consciência”. Na perspectiva Jesuíta, esta capacidade de julgar com sabedoria e de escolher criteriosamente deve ser aplicada de acordo com as práticas espirituais enunciadas por Santo Inácio de Loyola, fundador desta Congregação no Séc. XVI.

Estas práticas definem o método que permite identificar, ponderar e avaliar, “com a ajuda de Deus” e tendo em conta a riqueza e complexidade da pessoa humana, as diversas forças ou motivações interiores que competem entre si, como sejam o egoísmo-altruísmo ou a liberdade-condicionamento, tendo em vista a tomada de boas decisões.

Discernir o certo do errado foi o desafio colocado por Deus ao proibir o fruto da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal. “Breton Eve” (1889), quadro de Paul Gauguin

Se o Bem é para perseguir, exigir e alcançar, o Mal terá de ser evitado, rejeitado e enfrentado. Nenhum deles deverá, contudo, ser ignorado, desvalorizado ou desprezado. Por outras palavras, o Mal, tal como o Bem, obriga a assumir uma atitude com valência negativa e positiva, respectivamente, cada uma delas com maior ou menor extremidade, resistência, persistência e confiança, consoante as situações.

Neste sentido, a atitude “negativa” – de censura, oposição e rejeição – poderá ser tão válida quanto a “positiva” – de elogio, apoio e aprovação –, dependendo das circunstâncias. O que se exige é assertividade, bom senso e sentido de equilíbrio, evitando a armadilha da permanente negatividade ou o artificialismo da continuada positividade. Sem medos nem condicionamentos.

*O autor não segue as regras do novo acordo ortográfico.

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