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Domingo, Setembro 19, 2021

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“Sobre adiantados mentais”, por António Matias Coelho

Há certas criaturas que julgam ter vindo ao mundo para cumprir uma missão verdadeiramente especial. Estão esses seres convencidos que veem mais do que os outros, que projetam o seu olhar para lá do horizonte, que alcançam mais adiante. São os adiantados mentais*.

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Os adiantados mentais são alguém para quem o mundo está todo mal, cheio de vícios e de perigos, a girar em contramão – e são eles, e só eles, que caminham no trilho certo, que veem com clarividência, que conhecem a chave para alcançar a perfeição.

Nada fazem os adiantados mentais, a não ser dizer mal do que os outros fazem. É essa a sua missão nesta vida: vislumbrar que tudo o que se faz é mal feito, pérfido, pernicioso e que, portanto, há que deitar abaixo, denunciar, desfazer.

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Como diz o povo, «quem os ouvir falar não os leva presos» e até pode parecer que os adiantados mentais têm conhecimento de causa e visão de futuro. Mas, porque a maior parte das pessoas – que não são adiantadas mentais, mas também não são parvas – vai conhecendo «as peças» e «já sabe o que a casa gasta», acaba-se por lhes dar o desconto, por lhes negar crédito, por não os levar a sério.

Sendo, por natureza, associais (porque, como é evidente, ninguém tem paciência – nem adiantamento – para os aturar), os adiantados mentais procuram meter-se em tudo, mas em todo o lado geram confusão e, mais tarde ou mais cedo, acabam por ser corridos, para alívio das criaturas normais que dispensam a sua adiantada visão e apenas pretendem fazer serenamente o seu trabalho.

Na ânsia de cumprir a missão de dizer mal de tudo, os adiantados mentais de tudo deitam mão, incluindo da mentira, da falsidade, da insinuação e até da injúria e da calúnia. Tudo lhes serve, sem decência nem pudor. E ficam, à sorrelfa, a comprazer-se com a luxúria de imaginar o sofrimento que julgam ter infligido às suas vítimas.

São, em regra, solitários os adiantados mentais. Vivem sozinhos com as suas frustrações, com o peso imenso da sua insuportável pequenez, com a pobreza da sua improdutiva existência. Sempre à procura de mais uma guerra, não importa contra quem seja, para dar uso à sua espada de papelão.

Os adiantados mentais falam grosso, barafustam, fazem muito barulho. Estão convencidos que quem grita muito alto tem mais razão, não entendendo que a sua voz, por mais que se esforcem, jamais chegará ao céu…

Todos nós, mais tarde ou mais cedo, nos cruzamos com um adiantado mental – porque, pobres deles, há uns quantos por aí. É a natureza a pôr à prova a nossa bonomia e a nossa capacidade de resistência. Porque não somos, como eles são, adiantados mentais.

Pior do que um adiantado mental só dois adiantados mentais juntos. Quando se encontram, «junta-se a fome com a vontade de comer» e emparceiram para tentarem levar ao superlativo a tarefa que o destino lhes confiou: dizer mal dos outros, desfazer no que eles fazem, apontá-los como gente perigosa e perversa. Não é preciso ser-se adiantado mental para perceber que um dia se irão desentender e ficar a falar sozinhos. E, claro, a dizer mal um do outro.

* Nesta genérica reflexão, qualquer semelhança com a realidade tangível é pura ficção.

É ribatejano. De Salvaterra, onde nasceu e cresceu. Da Chamusca onde foi professor de História durante mais de 30 anos. Da Golegã, onde vive há quase outros tantos. E de Constância, a que vem dedicando, há não menos tempo, a sua atenção e o seu trabalho, nas áreas da história, da cultura, do património, do turismo, da memória de Camões, da comunicação, da divulgação, da promoção. É o criador do epíteto Constância, Vila Poema, lançado em 1990 e que o tempo consagrou.
Escreve no mediotejo.net na primeira quarta-feira de cada mês.

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