“Sobre a estética e a discussão do gosto”, por José Rafael Nascimento

Ilustração baseada na obra 'Gosto Visual', de Adrián Gómez

“Para ter gosto, é preciso ter alma.”
– Luc de Clapiers
“O mau gosto é uma espécie de má moral.”
– Christian Nestell Bovee

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Do cimo do pedestal, perorou-se sobre a estética do ‘mono-mental’ urinol, erigido à socapa a metro e meio da solene entrada do sagrado local. Dá a ideia de que o vulgar cartaz motivacional “forte, inteligente e gentil” deu gás a todos os dislates, inclusive aos que dão razão a quem acusa o poder local dos mais absurdos atentados urbanísticos. Não se reparou, contudo, que a versão original do dito cartaz tem quatro (e não três) palavras de ordem, faltando-lhe o mote “engraçado” (“drôle” ou “funny”, o qual não deve ser confundido com “ter graça”, porque não tem).

Disse-se, da indignação que contesta a chungosa localização do público mictório, que “de vez em quando são colocadas questões mais estéticas do que outra razão qualquer. […] Se fica do lado direito ou do lado esquerdo, é de facto uma questão estética, de pormenor, de opinião, de subjectividade ou de gosto, se quiser”. Repetiu-se três vezes o disparate, para que não restassem dúvidas sobre o valor que a estética suscita a quem toma decisões sobre o espaço público, incluindo locais tão veneráveis e sentidos quanto são os cemitérios das pequenas e remotas aldeias.

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Sói dizer-se que “gostos não se discutem”, um adágio que parece remontar ao tempo do Império Romano quando a máxima era de gustibus non est disputandum. Contudo, de que gostos (e de que discussões) se fala quando se usa esta expressão? De gostar de pepinos ou caracóis? De usar um laçarote ou um chapéu de coco? De cuspir ou urinar na via pública? De derrubar uma muralha histórica ou um antigo mercado coberto? Ou de implantar um mono impúdico e malcheiroso à porta de um local sagrado?

É certo, também, que “a beleza está nos olhos de quem vê” e que “quem feio ama, bonito lhe parece”. Mas amar um urinol!?… E esses olhos, não são os da comunidade que fará uso do dito equipamento? Não merecem esses olhos contemplar um espaço público esteticamente cuidado e urbanisticamente valorizado? Atente-se, por exemplo, nos estudos da Academia das Ciências dos EUA, da autoria de Vessel, E. et al. (2019), que nos dão conta de que as experiências estéticas são poderosos momentos de interacção com o meio envolvente – p.e. paisagens e obras de arte e de arquitectura – moldando o comportamento, o humor, as crenças e até o sentimento de si próprio.

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A nível individual ou de comunidade, “a estética tem consequências políticas substanciais. Alguém considerar-se bonito ou feio, desejável ou indesejável, tem consequências profundas em termos de sentimentos de auto-estima e capacidade de ser um agente político.” – Cornel West

Poderá dizer-se, por outras palavras, que o belo (ou a beleza) cativa o espírito e alimenta a alma. De facto, os estímulos que tocam os nossos sentidos e que a nossa mente processa como harmonia, distinção ou requinte, são geradores de pasmo, encanto e sublime prazer. Assim, pesquisas com imagens de Ressonância Magnética Funcional demonstram, sem surpresa, que o sentido e emoção do belo activam as áreas do cérebro também associadas à imaginação, à criatividade e à introspecção, reflectindo sobre memórias do passado e planos para o futuro.

A psicologia evolucionista, diz Paul Hekkert em Design aesthetics: principles of pleasure in design (2006), argumenta que “preferimos padrões e características ambientais que são benéficas para o desenvolvimento dos sentidos e a sobrevivência em geral, assentes em quatro princípios do prazer estético: (1) efeito máximo para recursos mínimos, (2) unidade na variedade, (3) o mais avançado, porém aceitável, e (4) ) correspondência (congruência) óptima. O gosto não tem, pois, a ver apenas com a dimensão estritamente estética e do prazer, muitas vezes e de modo errado assumida como essencialmente subjectiva, prendendo-se também com a avaliação do arrojo, da qualidade, da eficiência e dos impactos do que se faz, seja em termos de projecto, seja de execução.

A objectividade do gosto é matéria que tem interessado os pensadores, pelo menos desde a Antiguidade. Refere a Enciclopédia Britânica que “os dois maiores filósofos gregos, Platão e Aristóteles, estavam de acordo sobre a importância da estética e ambos viam a música, a poesia, a arquitectura e o teatro como instituições fundamentais do corpo político. Os escritos mais místicos de Platão, como o Timeu, contêm sugestões de abordagem estética baseada na teoria pitagórica do cosmos, a qual exerceu uma influência decisiva sobre os neoplatónicos.

Por meio dos escritos de Santo Agostinho, Boécio e Macróbio, a cosmologia pitagórica e a inerente estética da harmonia foram passadas aos pensadores da Idade Média. São Tomás de Aquino dedicou algumas passagens da Summa Theologiae ao estudo do belo e sua relação com o bem. No seu pensar, o interesse da humanidade pela beleza é de origem sensual, mas prerrogativa dos sentidos que têm capacidade de “contemplação”, ou seja, dos olhos e dos ouvidos. Para este filósofo o belo faria parte dos três elementos “transcendentes” – Verdade, Bondade e Beleza – e, para ser reconhecido, requereria três condições: perfeição (ou integridade), proporção e clareza.

Art Critic, óleo sobre tela de Norman Rockwell, 1955. Rockwell disse uma vez que invejava os alunos que desmaiavam ao ver a Mona Lisa porque ele nunca havia sentido tal paixão. Ele reclamava por as pessoas dizerem coisas como “Nada sei sobre arte, mas gosto muito dos seus quadros!”. E acrescentava «Tudo bem, obrigado, mas não seria bom que, de vez em quando, alguém dissesse “Sei alguma coisa sobre arte e gosto muito dos seus quadros!”»

Para os neoplatónicos, a beleza era vista como uma espécie de ordem divina, em conformidade com as leis da Matemática, i.e., dos números, que são também as leis da harmonia. Música, poesia e arquitectura exibem todas a mesma conformidade com uma ordem cósmica e, ao experimentar a sua beleza, estamos realmente a experimentar a mesma ordem em nós próprios. Nesse sentido, “toda a experiência estética, seja de arte ou de natureza, seria informada e dependente de um exercício de gosto”, universal e espiritualmente determinado. 

Por sua vez, a relação entre os valores estéticos (bom ou mau gosto) e os valores morais (boa ou má conduta) é justificada pelo sentido que emerge da arte e da crítica, “sem que se resvale para um elitismo moral intolerável que faz do refinamento o único padrão de conduta aceitável”. Assim, o esteta é aquele que “coloca os valores estéticos acima de todos os outros e busca uma moralidade em conformidade”. Em contraste, o filisteu “coloca os valores morais acima de todos os outros e rejeita qualquer estética que não esteja em conformidade com eles”.

Mas esta relação é mútua e recíproca, não podendo ser vista em termos de prioridade ou precedência. Até porque a escolha do objecto da experiência estética é frequentemente cuidada e deliberada, pois “somos julgados pelas nossas escolhas, não apenas de obras de arte, mas também de esquemas de cores, vestidos ou ornamentos de jardim, tal como somos julgados pelos nossos modos e sentido de humor. O nosso gosto ‘trai-nos’, expressando não apenas uma pequena parte de nós, mas o todo que somos”.

No seu livro You May Also Like: Taste in an Age of Endless Choice, o jornalista Tom Vanderbilt procura explicar a natureza fluida das escolhas e dos gostos humanos. Diz ele que “são muitas as vezes em que não sabemos do que gostamos ou porque gostamos do que gostamos. As nossas preferências estão eivadas de preconceitos inconscientes e facilmente inculcadas por influências contextuais e sociais. Existem poucas probabilidades de gostarmos amanhã do que gostamos hoje e menos ainda de nos recordarmos do que nos conduziu aos nossos gostos antigos”. Para este autor, balançamos entre a novidade e a familiaridade, ou seja, “gostamos do que é novidade desde que esta nos lembre algo do velho”.

No que respeita à apreciação individual da arte (incluindo a arquitectura), o filósofo David Hume considerava que ”é necessária uma ‘certa delicadeza de gosto’ para perceber a sua beleza”, a par de “ausência de preconceitos, prática, comparação e bom senso”. Tal exigiria, segundo Hume, “perfeita serenidade de espírito, congregação de pensamentos e devida atenção à obra de arte”. Contudo, para o seu rival Thomas Reid, a beleza seria antes de mais uma propriedade dos objectos, independente dos sentidos e sentimentos do observador.

A jornalista Helena Oliveira, que dá conta do livro de Vanderbilt, revela que “foi no século XVIII que se tornou mais importante distinguir as preferências, na medida em que estas ditavam a linha que separava o bom do mau gosto e, consequentemente, a distinção entre classes”. Kant, diz ela, “foi um dos grandes responsáveis pela introdução da apreciação estética moderna [em A Crítica do Julgamento], abrindo caminho para a capacidade de se admirar o belo como uma marca exclusiva das pessoas mais ‘civilizadas’ e para preparar o terreno para o (bom) gosto se transformar numa função de determinada classe social”.

Os antropólogos P. Richerson e R. Boyd sublinham, em Not By Genes Alone: How Culture Transformed Human Evolution, a influência sociocultural na formação do gosto e afirmam que “as pessoas imitam os seus pares e a cultura torna-se adaptativa porque aprender com os outros é muito mais eficaz e dá muito menos trabalho do que tentarmos por nós próprios inovar, gastando tempo e energia preciosos”. Everett Rogers, na sua Teoria da Difusão, vai mais longe e sugere que a adopção da novidade é facilitada, além da compatibilidade, pela vantagem relativa, complexidade, observabilidade e experimentabilidade.

Quem conhece as ciências sociais sabe bem como conjuntos (ou clusters) de subjectividades, designadamente de gostos ou preferências, formam objectividades homofílicas (ou de afinidades) que caracterizam segmentos ou perfis de personalidade e comportamento. Em dois trabalhos de investigação que eu próprio realizei enquanto académico, publicados em 2000 e 2003 na revista Marketeer com os títulos Preferências Cruzadas dos Consumidores e O Sexo do Marketing, pude definir o que distinguia p.e. um homem de uma mulher ou um adepto do Sporting de um do Benfica, a partir de cem pares de gostos ou preferências (só parte deles estatisticamente significativos).

Este é o exemplo perfeito de como uma boa ideia se perde numa má execução. Qual o padrão estético e democrático de quem aprovou esta obtusa localização, sem escutar previamente os habitantes da aldeia, como mandam os bons princípios e práticas de gestão da coisa pública? Recomendava o bom senso e a competência política e técnica que o urinol fosse construído no âmbito do arranjo exterior do cemitério, pelo menos limpando o terreno, reparando o banco e replantando a árvore cortada, se mais e melhor não quisessem fazer.

Em jeito de síntese diria que, em matéria de obras públicas, existem e devem ser tidos em conta padrões e referências estéticas que não se compaginam com ineptas opções pessoais ou vãs desqualificações da beleza e do gosto, ainda que provenientes de políticos ou técnicos investidos em altos cargos. Os cidadãos têm, mais do que o direito, o dever de questionar as decisões destes servidores públicos que impactam fortemente na comunidade, bem como de exprimir e até fazer valer, em determinadas circunstâncias, as suas preferências. Se, como afirmou Susan Sontag, “as regras de gosto impõem estruturas de poder”, quem detém em democracia o poder?

A expressão “Os gostos não se discutem” apenas pretende, na verdade, “pôr fim a discussões intermináveis que não levam a lado nenhum, oferecendo um compromisso democrático para questões bloqueadas”. Quem o afirmou foi Monroe Beardsley, no ensaio de 1958 Os Gostos Discutem-se, no qual esclarece que a palavra “taste” (gosto) tanto pode significar a sensação primária do paladar – onde geralmente não há disputa – como o sentido e agrado estético geral de cada indivíduo. Nesta última acepção, a palavra “discutir” não significa meramente discordar ou contradizer “só porque sim”, significa sim debater e argumentar com justificação ou fundamentação.

Na perspectiva de Beardsley, o Céptico Estético – aquele que não acredita na objectividade do gosto – bloqueia qualquer hipótese de discussão ou argumentação. Para ele não há bom e mau gosto, há o teu e o meu (“fica lá com o teu que eu fico com o meu”), confundindo o direito à liberdade de escolha ou decisão com a qualificação fundamentada do gosto, em bom ou mau, e sua relação com o bem. Relação essa evidente p.e. na expressão “A ética é a estética do comportamento humano”, a qual autoriza a apelidar de [muito] ‘feio’ o processo mal conduzido de implantação do enjeitado uro-mamarracho.

Foi isto que aconteceu, lá no alto do pedestal. Desvalorizou-se a razão estética face a qualquer outra razão, confinou-se as opções às laterais da fachada do cemitério, ignorando intencionalmente a dimensão frontal, chutou-se para canto (fazendo, todavia, autogolo) com a falsa desculpa da fossa séptica, fez-se de outros bodes expiatórios, fugindo à responsabilidade e, por último, mas não menos importante, ignorou-se e desrespeitou-se a boa gente desta aldeia. Tudo serviu para justificar o injustificável e prosseguir a ignomínia sem, contudo, se prever o inevitável: o sacrossanto urinol já foi reconhecido como Património ‘Mono-mental’ da Cacaborrada.

*O autor não segue as regras do Novo Acordo Ortográfico.

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