“Simples assim”, por Berta Silva Lopes

Um pastor na serra. Créditos: DR

Lembro-me que era magro e franzino, tinha pele tisnada e olhos brilhantes, um sorriso ora tímido ora luz, e também que falava muito, monólogos feitos de frases ininteligíveis e sons que aos poucos se foram tornando familiares, mas nem por isso compreensíveis.

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Prometi que escreveria sobre ele na última crónica quando me meti a escrever sobre guardas-chuvas e me lembrei do Adelino espanhol, o último pastor da minha aldeia, embora já há muito tivesse planeado trazê-lo para estas linhas.

Não sei há quantos anos morreu mas hei-de pedir à Ti Maria Emília que espreite os seus diários para ver se me diz quando foi que o Espanhol nos deixou. Não falo de quando o levaram para o lar da vila, lhe despiram para sempre o pullover esburacado, as calças remendadas, as botas de couro e o capote velho, e o puseram todo pimpão, banhos em dias certos e roupa imaculada, barba e cabelo impecáveis, mas sim do dia em que partiu de vez.

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A Ti Maria Emília é a mulher mais velha de Queixoperra, fez apenas a quarta classe e além de fazer o melhor abafado da aldeia, é também a última guardiã das memórias de um povo e de um tempo que urge resgatar, e registar, para que não se desvaneçam rápida e irremediavelmente. Penso que devia ligar-lhe, mas escrevo a desoras e prossigo.

O pastor Adelino vivia num casebre apertado e sombrio a poucos metros dos muros que delimitavam o recreio da antiga escola primária local, não sei se por opção pessoal ou por imposição profissional, sozinho, e que todos ali sem exceção gostavam dele.

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Não se pense que era apenas compaixão, era afeto verdadeiro, novos e velhos puxavam conversa e ele retribuía com um ligeiro aceno e o esboço de umas palavras que se adivinhavam mais do que se entendiam. Tirando a Maria Ludovina, vizinha, poucos compreendiam de imediato as suas falas. Ganhou espanhol como alcunha.

Ao gado assobiava, encarreirava sons e gesticulava; e este obedecia. Consta que nunca voltou dos cabeços com o rebanho incompleto, cabras e ovelhas às dezenas, e que por respeito aos animais que cuidava recusou sempre provar a famosa chanfana feita na aldeia. Era um homem humilde e nobre de espírito. 

Recordá-lo sentado junto à eira, ao fundo da íngreme subida que leva à escola, a responder aos chamamentos da rapaziada enquanto roía uma côdea de pão e um bocadinho de chouriço e a acenar divertido, é pura poesia. Ou talvez ficção literária: um romance baseado em factos e histórias reais.

E lá apareceria então, como personagem principal, o Adelino espanhol, pastor de carne e osso, magro e franzino, pele tisnada e olhos brilhantes. Vestiria uma camisa de flanela grossa, surrada no colarinho e nos punhos e por cima um pullover roto, calças de fazenda remendadas e para agasalho uma croça. Não lhe faltaria a sombrinha, claro, austera e negra, para conferir alguma sobriedade, companheira fiel de todos os dias, quer fosse verão ou inverno.

Nas páginas do livro viveriam também uma viúva solitária, uma escola airosa e barulhenta, um moinho e um contrabandista, um rebanho e uma aldeia, uma mentira tida por todos como verdade e uma história inventada. Mas nada disso é preciso, afinal. Tudo aqui é real.

Estas linhas trouxeram-me de volta o pastor da minha infância, tal qual me lembro dele, e tantas outras pessoas, todas mais velhas do que o tempo, todas sábias e heróicas; e tudo por causa de uma sombrinha. Gracias por todo, espanhol.

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Define-se como uma mulher da aldeia a viver na cidade, assim uma espécie de amor para sempre por uma e amor à primeira vista pela outra. Gosta de Lisboa e tem Queixoperra no coração. Casada, com duas filhas, trabalha em Comunicação e Marketing há quase 20 anos e com escritores há 10. Não vive sem livros. Gosta de jazz e de música instrumental. Adora o cheiro da terra molhada, do arroz-doce acabado de fazer e do poejo fresco. Não gosta de canela, nem de favas, nem de bacalhau com natas. Troca facilmente a praia pelo campo. Sente-se sempre muito feliz em cozinhas grandes e cheias de luz. Cozinhar é uma terapia e gosta de experimentar pratos novos quando recebe amigos em casa – para grande ansiedade do marido, mas nada que os bons enchidos, o queijo e a broa de milho da sua aldeia não resolvam. Gosta de boas conversas regadas com vinho tinto. Como diz a sua querida Helena Sacadura Cabral, gosta dos pequenos prazeres da vida. E gosta de gostar disso.

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