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Sábado, Janeiro 22, 2022
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“Sim, pari de pé!”, por Marta Gameiro Branco

Sim, pari de pé! Ou melhor, de cócoras. E não, isto não é outra história horrível sobre partos.

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Esta história começa em 2014. Não me vou meter aqui a contar uma história horripilante e cheia de peripécias sobre o parto do meu primeiro filho até porque, bem vistas as coisas, foi um parto atualmente visto como absolutamente “normal”. Vou contar como me senti:

Parto induzido às 40s+6 dias, senti que estavam a obrigar o meu corpo a expulsar qualquer coisa de mau. Senti todo o processo como anti-natural. Senti-me completamente desorientada e nas mãos dos médicos. Senti que se tivesse que tomar uma decisão a iria tomar de forma completamente aleatória e teria que lidar com isso o resto da vida. Quando o meu filho nasceu eu não conseguia falar de tão assoberbada que estava. Não consegui pedir que virassem a carinha dele para mim de forma a vê-la…

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No entanto, assim que saí da sala de partos tudo começou a passar e, juro mas juro, esqueci tudo. No mês seguinte já pensava em engravidar novamente dali a um ano.

Engravidei passados dois anos.

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Quando as minhas hormonas começaram a pedir desesperadamente outro bebé, todos os sentimentos por que tinha passado no primeiro parto vieram ao de cima.

Nas minhas deambulações pelas redes sociais acabei por descobrir que existem senhoras que dão apoio emocional durante o pré, pós e parto à mãe. Têm conhecimentos científicos mas não são parteiras. Estão ali, muitas vezes, apenas para dar a mão. São as Doulas! Ora era exactamente aquilo uma das coisas que me tinha feito falta e, grávida de 5 semanas, contactei logo uma.

A minha querida doula Liliana Ribeiro ouviu-me durante 9 meses de forma exaustiva.

Durante toda a segunda gravidez eu pesquisei. Estudei todo o ciclo ovulatório feminino ao ponto de saber a data de conceção.  Se ultrapassasse as 41s teria a certeza que não seria por um erro de cálculo.

Pesquisei sobre parto natural e parto ativo. Conheci conceitos como violência obstétrica, parto na água e parto domiciliar. Descobri a estranha (e assustadora) política de cesarianas do Brasil. Vi filmes e documentários. Li livros sobre o nascer consciente, e acompanhava grupos sobre o assunto. Aprendi realidades de outros países, completamente diferentes.

Com cerca de 33 semanas entrei em contacto com o Hypnobirthing Portugal. Este curso de hipnoparto acompanhou-me o resto da gravidez. Basicamente, parte da premissa de que todo o processo do parto está envolto numa carga demasiado negativa. Nos primórdios há evidências de que este se desenrolava de forma muito mais rápida e o único problema hoje em dia é “nós pensarmos demais”!

Sentia-me muito empoderada. Eu queria um parto hospitalar o mais natural possível e tinha plano de parto.

Ora fosse porque tenho algum bloqueio emocional, fosse porque efetivamente tenho gestações prolongadas, o que é facto é que vi ansiosamente a data de DPP (data prevista de parto) a passar e as terríveis 41 semanas a chegar. Sintomas tinha. A minha doula dizia que eu andava em trabalho de parto latente há 15 dias, mas o que é certo é que nada o espoletava.

O meu médico, apologista de esperar pelas 42 semanas, resolveu ficar de férias. Tinha de ir fazer o registo das 41s ao hospital de Leiria.

Qual o problema da indução? A chamada cascata de intervenções. Uma intervenção chama outra intervenção. A ocitocina sintética utilizada (ao contrário da natural) provoca contracções rápidas e muito dolorosas. A mãe acaba por pedir epidural. A falta de sensibilidade das pernas não permite a mãe movimentar-se e tem de permanecer deitada. O estar ativa faz com que a progressão do parto seja mais rápida, tal como o estar de pé e a ação da gravidade permite que o bebé desça. Com a epidural a mãe não faz força corretamente nem no sítio certo, logo o uso de ventosas, fórceps com consequente episiostomia torna-se corriqueiro. Isto é uma parto normal no nosso país. Extremamente intervencionado e com o médico como senhor da situação.

Recusei ficar internada. A médica ia-me fulminando. Assinei um termo de responsabilidade e saí. A conselho do meu médico voltei dois dias depois e acedi em fazer um descolamento de membranas (uma indução mecânica). Não resultou. Voltei ao final de tarde e fiquei internada.

O que aconteceu a seguir foi o que eu já imaginava. Depois de apanhar uma médica super acessível que se comprometeu a respeitar o meu plano de parto, foi substituída por outra que literalmente me ordenou que ficasse deitada, fingiu que me observava (eu não sou parva) e exigiu que toda a equipe de enfermeiros não a contrariasse (sim também não sou surda e a senhora não falava baixo). Aguentei 8h30m sem pedir epidural com todas as técnicas que tinha aprendido. Com a mudança de turno de enfermeiros o meu CTG, que me obrigava a ficar deitada apesar da primeira médica ter permitido um CTG sem fios, ficou desligado. A minha doula mandou-me levantar. Levantei-me e fiz uns exercícios. Senti um “ploc”. A bebé tinha encaixado finalmente.

Até que chegou o meu anjo…

A Esmo Cristina chegou e veio falar comigo. Aconselhou uma epidural fraquinha que mantinha a sensibilidade nas pernas e era dada em porções com duração de pouco mais de 1h. Eu já tinha 7 cm. A partir daqui ia-se tornar um martírio. Eu precisava de forças para o expulsivo. Ela prometeu-me ajudar a ter o meu parto de cócoras.

Cedi. Cedi na epidural, na amniotomia e até na maldita episiostomia.

Mas senti tudo. Na hora do expulsivo senti as dores que obrigavam o meu corpo a se orientar de determinada forma. Senti a necessidade desesperada de fazer força. E assim que a cabeça saiu, puxei a minha filha que foi direitinha para o meu peito de olhos muito abertos. O Hospital de Leiria tem uma barra que é encaixada na cama. Foi o meu suporte no momento final. Espectacular! Permaneci eufórica durante várias horas.

É importante para a mulher empoderar-se. É importante questionar. O médico não pode gritar do lado de fora que ou fazemos o que ele diz ou nos podemos ir embora quando já estamos no bloco de partos há 12h e ligadas a ocitocina sintética. A doula é fundamental! Era ela quem verbalizava tudo o que me passava naquelas horas pela cabeça e me fez ficar em paz com as minhas decisões. A mulher tem direito de escolha! Quer opte pelo parto natural quer opte por uma cesariana eletiva. A mulher tem voz, mas também precisa de estar informada.

Uma vez li que a mulher não tem o parto que quer mas o parto que precisa. Eu identifico-me com isto. Tive um novo parto induzido com um final tão, mas tão diferente. Graças à Esmo, graças à Doula, graças ao hypnobirthing, que me ajudou a passar pelo processo e a aceitar as contrariedades.

Porque este diferente, faz toda a diferença.

Médica dentista especializada em endodontia, 31 anos. Mãe, para os bons e os maus momentos. Gosta de questionar, gosta de perceber, ainda que a questão seja óbvia. Porque o mundo é um livro aberto onde há sempre a possibilidade para mais uma leitura.
(E lavem os dentes todos os dias!)

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