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Sábado, Outubro 23, 2021

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“Sim, é possível! (III): Quando o torpor nos traz atolados”, por José Rafael Nascimento

“Onde há vontade, há um caminho”
– George Herbert

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Saídos do buraco, que é como quem diz, superados os desafios anteriores (ver aqui e aqui), espero que o leitor já tenha começado a rever seriamente a falácia paralisante da “impossibilidade”. Ao invés de usar a expressão comodista e negativista “É impossível!”, substitua-a pela dúvida optimista “Será possível?”. Na verdade, se fomos capazes de passar um camelo inteiro por onde nem a sua pequena cabeça parecia conseguir passar, que desafio nos faltará ainda superar?!

Bom, certamente muitos, pois a vida é um permanente quebra-cabeças e a toda a hora somos desafiados a resolver problemas, desde os mais simples e intuitivos até aos mais complexos e dilemáticos, muitos vezes rotulados de “impossíveis”. Assim, sendo este o último desafio que lhe trago para demonstrar que nunca se deve fechar as portas à busca de uma boa solução para um problema julgado impossível, achei por bem seguir o conselho de Cervantes e tentar o absurdo.

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Disse Dom Quixote sobre o Impossível: “Sonhar o sonho impossível, Sofrer a angústia implacável, Pisar onde os bravos não ousam, Reparar o mal irreparável, Amar um amor casto à distância, Enfrentar o inimigo invencível, Tentar quando as forças se esvaem, Alcançar a estrela inatingível: Essa é a minha busca”. Ilustração de Octavio Ocampo, mestre na metamorfose de personagens.

Inspirado em Rá, o Deus Sol egípcio, criador da ordem divina e de todos os seres vivos na Terra, proponho-lhe um exercício muito simples: construir uma superfície que nos leve ao Sol. Será isto possível? O que me responderia, “É impossível!” ou “Será possível?”. Quero acreditar que, tal como eu, escolheria esta última resposta, não porque eu tenha dúvidas quanto à solução teórica, mas porque (ainda) não estou a ver como seja possível concretizar a solução física e prática.

De facto, acreditando ser (por enquanto) materialmente impossível a construção de tão longa superfície (atenção que já se fala na construção de um elevador até à Lua…) e, percorrendo-a, chegar perto de uma temperatura solar na ordem dos 5.800º Celsius, pode-se todavia imaginar uma solução teórica, sem limite de recursos e operações, usando uma simples folha de papel com 0,13 milímetros de espessura. A solução passa tão-somente (surpreenda-se) por dobrar 50 vezes essa folha.

Com que altura (ou espessura) ficariam, então, as folhas sobrepostas, depois de dobrar cinquenta vezes a folha de papel (se tal fosse fisicamente viável)? Em quase trinta anos de actividade como formador na área organizacional-comportamental, a generalidade das respostas que obtive variou entre uns quantos milímetros e uns poucos de metros, mesmo depois de esclarecer que não se tratava da altura de 50 folhas, mas da altura das folhas que se sobrepunham ao fim de 50 dobragens.

Dobragem sucessiva de uma simples folha de papel. Ao fim de 50 dobragens, a altura (ou espessura) das folhas sobrepostas é de aproximadamente 150 milhões de quilómetros.

Pois a altura destas 1.125.899.906.842.620 folhas é, caro leitor, de aproximadamente 150 milhões de quilómetros, a distância estimada da Terra ao Sol. Impossível? Pois é só fazer as contas e confirmar, assim mesmo, sem milagres nem magias. A dificuldade em compreender esta estimativa, pode residir na natureza exponencial do seu crescimento: veja só que, para regressar à Terra, i.e., obter uma altura (ou espessura) igual à das cinquenta dobragens anteriores, bastaria dobrar apenas mais uma vez; e repare que, longe do que se imagina, não se consegue normalmente dobrar uma folha de papel mais do que seis ou sete vezes.

O crescimento exponencial ocorre, por exemplo, no processo de interacção e influência social, vulgarmente conhecido por “fenómeno viral”, “passa-palavra” ou “de boca em boca”, sobretudo quando praticado por líderes de opinião. Não por coincidência, é o mesmo crescimento que se verifica nas epidemias gripais. No domínio económico, o crescimento exponencial observa-se na adopção de novos produtos, quando os mesmos são recebidos com entusiasmo pelos consumidores. Já não é assim com a constituição de empresas, a realização de investimentos ou a criação de empregos, cujo crescimento é geralmente mais lento.

Note-se, contudo, que a definição e a implementação de boas políticas económicas permitem alcançar resultados inesperados e muito acima das melhores expectativas. Também aqui não há “impossíveis”, desde que se logre ver o “invisível” ou o “não visto”. Como disse o filósofo sérvio Dejan Stojanovic “Compreender o possível implica compreender o impossível”, a que o autor ruandês Bangambiki Habyarimana acrescentou, sem cerimónia, “De cada vez que alguém diz ser impossível, está a dar um tiro no pé”.

Voar, sempre pareceu impossível ao Homem, até que conseguiu voar. Fernando Pessoa disse que “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce”.
Ilustrações: O padre português Bartolomeu de Gusmão foi pioneiro na busca de uma solução tecnológica que permitisse concretizar o sonho humano de voar.

A criatividade e a inovação não surgem, geralmente, em momentos “Eureka!” de indivíduos excêntricos, são antes produto do trabalho persistente de pessoas que trabalham em equipa, combinando e sintetizando informação. O impossível torna-se possível com a descoberta de novas verdades e do potencial de mudança em cada um. Os velhos modelos e protagonistas, ou se realinham ou são rejeitados pelo progresso. Mas, para isso, não basta adquirir novas perspectivas, é preciso descongelar e desaprender as anteriores, lidando eficazmente com a mudança.

Também Alice, nas suas aventuras pelo País das Maravilhas, se confrontou por diversas vezes com a “impossibilidade”. Em diálogo com a Rainha Branca, por exemplo, esta diz-lhe a idade (101 anos, 5 meses e 1 dia) e Alice, rindo, responde “Não adianta tentar, não se pode acreditar em coisas impossíveis”. A Rainha comenta, então, que Alice não tem muita prática e que, com a idade dela, “praticava sempre meia hora por dia, chegando a acreditar em até seis coisas impossíveis antes do pequeno-almoço”.

Contudo, aconteceram tantas coisas esquisitas que Alice “começou a pensar que raríssimas coisas eram realmente impossíveis”. E foi assim que encontrou uma garrafa, em cujo gargalo estava enrolado um rótulo de papel com a palavra “Beba-me”. Alice arriscou provar e “encolheu como um telescópio”. Agora só tinha vinte e cinco centímetros de altura e “o seu rosto iluminou-se com a ideia de que chegara ao tamanho certo para passar pela pequena porta e chegar àquele jardim encantador”. 

“Vamos, não adianta nada chorar assim!”, disse Alice a si mesma, num tom um tanto áspero, “eu aconselho-a a parar já!”. Em geral, dava conselhos muito bons a si mesma (embora raramente os seguisse), repreendendo-se de vez em quando, tão severamente que ficava com lágrimas nos olhos.
Ilustração: “Alice no Jardim”,  de Noelle Sevilla.

Ali não era certamente o Paraíso, razão pela qual a vida não era eterna, mas existiam árvores agradáveis à vista e abundantes frutos saborosos (alguns deles proibidos…). No entanto, para lá chegar era preciso confiar e arriscar, bebendo do que era bom e não do que era veneno, pois, se fosse esta a escolha, “é quase certo que iria sentir-se mal, mais cedo ou mais tarde”. O poema “Momento da casca de ovo azul” (Blue Eggshell Moment), da escritora britânica J. S. Watts, capta a emoção gerada por um momento como este, de confiança e ousadia:

Há dias,
como este,
que eu poderia segurar para sempre,
na palma da minha mão aberta,
como um ovo azul claro,
banhado no céu e aninhado
na minha pele rosada e nua,
suave, delicado, aperfeiçoado,
cheio de vida
e possibilidade curiosa.

Mas, para a vida viver,
o ovo deve rachar,
a cria deve conhecer o mundo,
ou não haverá mais
dias de ovo azul.
E, no entanto,
Sinto falta da graça frágil daquele ovo abandonado:
acreditando que haverá outros,
sabendo que eles jamais
serão exactamente o mesmo.

Por mais que o sentimento seja de segurança ou conforto com aquilo que se tem, há mudanças que têm de ocorrer para que outros seres possam viver e outras vidas possam ser vividas. Esta é a dialéctica que garante a existência, mesmo que as mudanças pareçam desnecessárias ou impossíveis. O filósofo Heráclito de Éfeso, considerado o “pai da dialéctica”, afirmou que “Nada é permanente, excepto a mudança” e que “Não se pode entrar duas vezes no mesmo rio”, pois o rio e a pessoa deixam, a cada momento, de ser quem eram.

Amanhã é outro dia” é um velho provérbio anglo-saxónico, sugerindo o constante despertar de novas oportunidades, por serendipidade ou deliberado propósito. Como disse Charles Dubois, “Devemos estar preparados, a todo o momento, para sacrificar o que somos por aquilo que podemos vir a ser”. O mundo do impossível está, como se viu, cheio de excelentes possibilidades. Não se pode, por isso, acreditar em tudo o que se escuta, nem escutar apenas aquilo em que se acredita. Chegou a hora de sacudir o torpor e libertar o espírito do atoleiro da descrença. Sim, é possível!

José Rafael Nascimento tem 64 anos de idade e reside na aldeia de Vale de Zebrinho (São Facundo), na casa que foi dos seus avós maternos. É bacharel em Economia, licenciado em Organização e Gestão de Empresas e mestre em Psicologia Social e Organizacional, com pós-graduação em Marketing Político e Social. Tem desenvolvido atividade docente no ensino superior, assim como formação e consultoria empresarial, depois de uma carreira de gestor em organizações multinacionais e públicas. Tem dedicado a sua vida cívica à atividade associativa e autárquica, interessando-se pelos processos de participação e decisão democráticos.

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