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Segunda-feira, Outubro 18, 2021

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Sertã/Incêndios | Xavier Viegas: “Não podemos deixar que se repitam as tragédias do passado” (C/VIDEO)

Domingos Xavier Viegas, professor catedrático do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra e coordenador do Centro de Estudos sobre Incêndios Florestais (CEIF) falou ao mediotejo.net, após uma conversa no SerQ – Centro de Inovação e Competências da Floresta -, sobre os grandes incêndios de 2017 que têm sido objeto de estudo seu e da sua equipa.

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Salientou as lições e recomendações quer para o Estado, para as autoridades e, acima de tudo, para a população e a forma como devem ser encaradas potenciais ocorrências que poderão ter os mesmos riscos e impactos. As medidas e recomendações prendem-se essencialmente com a segurança e proteção das pessoas, para “evitarem cometer erros como vimos acontecer repetidamente no passado”.

O especialista em incêndios florestais e também fundador da Associação para o Desenvolvimento da Aerodinâmica Industrial (ADAI) da qual faz parte o CEIF, é também diretor do Laboratório de Estudos sobre Incêndios Florestais.

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Tem como referência para o seu despertar para o estudo dos incêndios, o acidente que envolveu a corporação de bombeiros de Armamar, a 8 setembro de 1985, que levou à morte de 14 bombeiros, carbonizados durante o combate a uma frente de fogo que lhes trocou as voltas, entre a aldeia de São Martinho das Chãs e Vila Nova, na Serra de Lumiares. Publicou em 2013, após longa investigação e pesquisa, um livro sobre este acontecimento.

Abordou os incêndios de 2017, numa sessão muito participada que decorreu no SerQ, na tarde desta terça-feira, dia 31 de julho, referindo que tanto os incêndios de Pedrógão Grande (julho) como os de 15 e 16 de outubro vieram mostrar “que o nosso país não tem sido bem governado”. E esta é uma das conclusões do relatório, que contou com a sua contribuição, mostrando que “décadas de má governação no país têm levado a esta situação”.

“O que é que falhou? Falhámos todos!”, afirmou, notando que muitas das mortes podiam ter sido evitadas se houvesse preparação e organização, nomeadamente da parte das autoridades de socorro e da própria população.

Assumindo-se como uma pessoa “de terreno”, notou que se tem cruzado com a realidade do Interior do país, uma realidade que deverá ser alheia a muitos governantes. “Encontra-se uma realidade que é completamente diferente da maior parte das pessoas que governam e têm influência no país. Que são pessoas urbanas. Encontramos dois países diferentes”, disse Xavier Viegas, notando que a preparação das pessoas para enfrentar este tipo de ocorrências, passa também por lhes dar condições de segurança e de vida.

“Se nós não damos condições de vida sequer… como é que podemos exigir que essas pessoas tenham recursos para fazer a limpeza e cuidar da floresta, que façam uma série de coisas?”, questionou, em tom de retórica.

O especialista trouxe alguns dados que apontam para uma crescente tendência de aumento do índice de secura no país, que traz como consequência o facto de propiciar o aumento de incêndios. Mas também outros fatores têm merecido a sua atenção, e da sua equipa, nomeadamente o facto de as pessoas do meio rural se terem afastado da floresta, e já não tirarem rendimento dela nem a limparem como faziam antigamente. Também a plantação desregrada de pinhais veio gerar grande carga de biomassa.

Por outro lado, a mudança climática “está a tornar cada vez mais provável a ocorrência de situações extremas”, explicou, referindo que os incêndios de julho e de outubro de 2017 apresentaram “circunstâncias meteorológicas fora do comum”.

Mas será que se aprenderam lições com estas duas tragédias? O professor Xavier Viegas crê que sim. “Do ponto de vista político, veio mostrar-se a importância da floresta para o país e veio demonstrar-se que os incêndios não são um mero problema ambiental ou económico, pois são, antes de mais, um problema de segurança pública, de proteção civil e representam uma ameaça para a vida das pessoas, para o seu bem-estar e saúde”, declarou.

No seu entendimento, também os governantes despertaram para esta temática, reagiram à lição “de alguma forma” e “estão a tomar medidas”, ainda que não o estejam a fazer “da forma eficaz e com a premência com que desejaríamos”, assumiu o professor catedrático.

Xavier Viegas voltou a defender a existência de um quarto pilar no Sistema Nacional de Defesa da Floresta contra Incêndios (SNDFCI), que se resume ao reforço dos restantes três: o ICNF, a ANPC e a GNR. Aqui, segundo o investigador, deveria ser incluído o pilar referente à comunidade/população, que “deve ser reforçado e mais envolvido em todo o processo, que deve incluir todas as entidades que não fazem parte do Estado, mas que têm algo a dizer e um contributo para dar”.

Ainda assim, acredita que se trata de um pilar mais difícil de incluir, uma vez que há “dificuldade crónica em nos organizarmos”, ou seja, “o Estado consegue, de alguma forma e por vezes mal, gerir os seus próprios recursos, mas quando se trata de mobilizar as pessoas, de lhes dar uma causa, de as motivar a fazer algo de interesse de todos, não tem sido muito eficaz”.

E é a partir deste aspeto que Xavier Viegas afirma que “ainda há muito a fazer no que toca à prevenção de incêndios e proteção das pessoas, para melhorar o conhecimento e nós sentimos isso cada vez mais”, continuou.

Foto: Joana Santos/mediotejo.net

“O país deveria ter investido muito mais neste campo, para ajudar a encontrar soluções que ajudassem as pessoas a compreender melhor o que se passa, perceber o risco, e não correr riscos e não tomarem atitudes que podem ser danosas para as suas vidas”, contextualizou, enumerando que algumas das soluções passariam por dar “mais conhecimento, mais informações, mais dados” e noutros casos, onde isso já não adiantaria, “tem que se dar outro tipo de apoio, para que se sintam amparadas e que não pensem que foram deixadas entregues a si próprias”, algo que aconteceu em Pedrógão Grande.

Disse que, durante a sua investigação no terreno, se apercebeu que muitas pessoas perderam a vida “porque a sociedade, a comunidade, as ignorou, as pôs de parte [caso de uma mulher invisual que havia ficado para trás e cuja casa acabara por arder horas mais tarde]. “Temos que estar atentos e não depende só da vontade do Estado, mas também da capacidade das pessoas para terem essa sensibilidade, de olhar para quem está ao seu lado e ajudar, garantindo a sua proteção e melhores condições”, concluiu.

Aldeia Segura, Pessoas Seguras? “Um exemplo do muito que há a fazer”

Para Xavier Viegas a inclusão e envolvimento da sociedade na prevenção de incêndios e proteção de pessoas deve ser reforçada, e isso só aconteceria se o sistema sofresse alterações contínuas. Ainda que o governo esteja a implementar o Programa Aldeia Segura, Pessoas Seguras, o investigador põe em causa “o ímpeto e organização como estão a ser feitas as coisas”, considerando que “2000 aldeias é muito pouco comparado com todo o conjunto de lugares e sítios onde vivem pessoas, espalhados pelo mundo rural, no nosso país”, reconhecendo porém o esforço para “começar” e esperando que “seja mantido de uma forma regular e organizada e possa vir a chegar a cada vez mais pessoas”.

A solução, diz, passa pela formação, mas “não é uma coisa que se faça de um mês para o outro, ou de um ano para o outro. Tem de ser feito ao longo do tempo, tem que ficar entranhada nas pessoas”, algo que no seu entender tem falhado. “Quantas campanhas institucionais viram, sem ser sobre o programa e limpezas de terrenos, sobre a segurança e proteção das pessoas em caso de incêndio?”, questionou.

Neste sentido, a equipa de investigadores que acompanha Xavier Viegas tem deixado algumas recomendações nos vários relatórios produzidos, bem como em apresentações quer aos Secretários de Estado, quer à própria Assembleia da República. São medidas que se destinam sobretudo “à proteção das pessoas e para a sua segurança, ainda que foque a organização dos meios e do sistema, mas centra-se sobretudo nas pessoas”, no sentido de se “evitarem cometer erros como vimos acontecer repetidamente no passado”.

O investigador explica porquê. “Uma das razões pelas quais nós estudamos os acidentes passados, onde pessoas correram perigo ou perderam a vida, é para tentar retirar lições. Para fazermos as coisas de maneira diferente. Se não fizermos isso, as lições não chegam às pessoas, pouco as aproveitam”, justificou.

Entre as recomendações, destacou o facto de não se dever menosprezar o comportamento do fogo, pois “há pessoas que pensam que o fogo está longe e desligam, não pensam que os incêndios podem chegar junto das casas delas em muito pouco tempo”. Por outro lado, também o facto de as pessoas agirem por impulso e sem pensar na sua segurança é motivo de preocupação do investigador, uma vez que “há pessoas que vão enfrentar o fogo com uma roupa ligeira, como se estivessem na praia. São coisas que têm de ser evitadas”.

Por fim, outro dos conselhos deixados é que as pessoas “nunca estejam sozinhas”, disse, recordando que a maior parte das vítimas mortais foram encontradas sozinhas. “Não se deve deixar uma pessoa sozinha, deve procurar-se ficar em grupo, e com pessoas experientes, que conheçam e saibam ver e analisar o que está a acontecer”, considerando que “uma pessoa quando está só, fica desanimada para tomar decisões que permitam às vezes sair daquela situação de perigo”.

Especial atenção deve ser dada aos grupos vulneráveis, que devem, na sua opinião, ser retirados muito antes de o incêndio, caso dos idosos, crianças, doentes, etc, pois “uma evacuação não é uma fuga”.

Quanto às pessoas que estejam nas suas residências, estando o fogo a aproximar-se ou a passar junto às habitações, “seria preferível que permanecessem em casa, havendo condições para isso, e ao passar o fogo conseguirem atuar e salvar a casa”, referiu, aludindo às situações de pânico e falta de conhecimento/formação, que levam muitas vezes a comportamentos de risco e a situações trágicas irreversíveis e que poderiam ter sido evitadas.

Foto: Joana Santos/mediotejo.net

Tragédias de 2017 podem vir a repetir-se

Grandes ocorrências como as do ano passado podem acontecer com mais frequência no país? “De facto pode acontecer isso. Em qualquer momento podemos ter circunstâncias, como temperaturas muito altas, ventos fortes, como tivemos no dia 15 de outubro, que surgem quase do nada e associadas a outros fenómenos como o ciclone”, respondeu Xavier Viegas, frisando que “a probabilidade não é nula”.

Ponto assente é que, acontecendo eventos desta natureza, “não podemos deixar que, nessas circunstâncias, se repitam as tragédias do passado”, reforçou, dando como exemplo o acontecimento recente na Grécia “em que, de um dia para o outro, caíram numa situação trágica com perda de quase 100 vidas, para já… mostra como um evento desses pode acontecer noutra realidade completamente diferente da nossa, pois não é só o conjunto de circunstâncias que temos no país que catalisa ou potencia esse tipo de ocorrências”, sustentou.

Para Xavier Viegas não se deverá permitir “aquele número de mortes, aquela falta de preparação que tínhamos, tivemos e que se calhar ainda temos… (…) é a nossa principal preocupação e a nossa principal mensagem: que as pessoas, os cidadãos, as autoridades estejam atentos e preparados para evitar isso”.

Quanto às circunstâncias naturais que favorecem estas ocorrências, o investigador refere que “não podemos esperar o melhor”, especialmente quando se assiste a uma “tendência geral do aumento da temperatura, o que favorece tempo mais seco, menos precipitação e condições mais favoráveis para os incêndios”, condições que se manifestam de forma diferente na Europa, uma vez que considera tratar-se de atos “particularmente graves” aqueles que já ocorrem no norte da Europa e que se prevê que aconteça na Península Ibérica.

Ainda que aponte que os países do norte da Europa, caso do Reino Unido e dos países escandinavos, estejam “a levar o problema muito a sério”, e que estes têm muito menos preparação do que Portugal, ressalva que estes países já se estão a preparar para enfrentar situações de futuro, “esforço esse que parece estar a faltar em Portugal”.

“São coisas que temos de enfrentar, não vale a pena estar a escamotear a realidade. Não podemos ser pessimistas, mas temos de assumir que estas são as condições em que estamos a viver”, frisou, inclinando uma vez mais para a prevenção.

“Temos que trabalhar no sentido de, quando esse tipo de condições vierem, não sermos apanhados desprevenidos”, concluiu.

Formada em Jornalismo, faz da vida uma compilação de pequenos prazeres, onde não falta a escrita, a leitura, a fotografia, a música. Viciada no verbo Ir, nada supera o gozo de partir à descoberta das terras, das gentes, dos trilhos e da natureza... também por isto continua a crer no jornalismo de proximidade. Já esteve mais longe de forrar as paredes de casa com estantes de livros. Não troca a paz da consciência tranquila e a gargalhada dos seus por nada deste mundo.

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