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Sexta-feira, Outubro 22, 2021

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Sertã | Antiga professora tornou-se atleta aos 70 anos e quer correr “até as pernas deixarem”

“Esta mulher não deve estar boa da cabeça”. Comentários como este não fazem desanimar Julieta Coelho enquanto corre na zona ribeirinha da Sertã, local onde habitualmente treina. Reformada desde 2002 como professora do ensino básico, Julieta Coelho aprendeu a gostar de correr já perto dos 70 anos e desde então nunca mais parou.

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Quase todos os dias sai de casa para correr, atividade para a qual conta com o apoio do marido. Pode percorrer apenas um ou dois quilómetros mas também pode chegar aos 10 e 15 quilómetros.

Antes de começar a correr, já fazia caminhadas e foi, literalmente, passo a passo, que foi acelerando o ritmo e aumentando as distâncias percorridas.

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Entrou para o CCD – Centro Cultural e Desportivo da Sertã há cerca de três anos e é nesta coletividade que quase todos os dias se junta a jovens atletas sendo tratada carinhosamente como se fosse uma avó do grupo.

Aos 71 anos e com uma boa disposição invejável, Julieta Coelho tem participado nos últimos meses em várias provas virtuais nacionais e internacionais, levando o seu nome e as cores sertaginenses além-fronteiras.

Para isso teve de trocar o seu velho telemóvel de teclas por um smartphone onde pudesse ser instalada a aplicação Strava que lhe permite gravar os percursos e tempos realizados. Sem perceber destas “modernices”, Julieta tem a ajuda de Carlos Farinha, dirigente do CCD, que a inscreve nas provas e envia os resultados através da aplicação. “Ele é o meu agente”, diz a sorrir a atleta veterana.

– Como é que surgiu a corrida na sua vida? Quando é que começou a correr?

– Eu desde miúda que gosto muito de caminhar. Tínhamos de ir a pé para a escola e nunca deixei de caminhar normalmente aqui junto à Ribeira da Sertã. Há poucos anos, comecei a experimentar correr, primeiro 50 metros, depois mais 50, mais 50, por aí fora. Em 2017 houve aqui na Sertã a corrida do Maranho organizada pelo CCD e o meu marido incentivou-me a participar. Disse-me: “se gostas de correr, vai”. Nunca tinha visto uma prova ao vivo. Inscreve-me. Na altura estava para desistir porque, quando deram o sinal de partida, eu fiquei sozinha, mas pensei, não, vou atrás dos outros e fui por aí fora… porque é preciso ter ténis adequados e saber-se movimentar. O meu marido até dizia que eu mexia os braços como se estivesse na marcha. Depois o Presidente do Clube, no ano seguinte, vendo que eu gostava de correr, disse-me para ir treinar com os jovens atletas do CCD e assim foi. Faço os exercícios com eles e lá tenho andado…

– Nesta altura de pandemia com algumas limitações…

Sim, isto agora tem andado um bocado parado. Faço mais provas virtuais. Antes tinha um telemóvel de teclas, mas depois ofereceram-me um destes modernos. Comecei a pesquisar e descobri as provas virtuais. Como não era capaz de me inscrever, pedi a um dos treinadores que me ajudasse e ele é que me tem inscrito. Comecei a participar em provas primeiro 4 ou 5 km e agora faço normalmente os 10 km. Fiz há dias os 10 km do Barcelona e no próximo fim de semana vou fazer os 10 km de Nova York. Olhe, tenho viajado sem pagar bilhete (risos).

Foi na Corrida do Maranho que Julieta se estreou em provas. Foto: DR

– E pelos vistos tem melhorado os seus tempos…

Sim, desde que o Município publicou uma notícia sobre mim até começo a ficar com calafrios na barriga antes de cada prova porque quero sempre fazer o melhor. Tenho feito sempre os 10 km sozinha, mas já corri até aos 15 km e mais. Mas eu já não posso esticar muito e não quero ficar pelo caminho nas provas maiores. Vou-me safando. Agora, quando estou a treinar com os miúdos, eu às vezes quero esticar-me, mas eles são muito mais novos.

– Quais são os seus maiores receios quando corre?

Quando corro sozinha tenho medo de derrapar porque já dei algumas quedas. Numa corrida de 15 km caí e fiquei com uma marca na cara.

– Mas quando corre o que é que sente?

Nem me lembro de nada. Vou por aí afora sempre e fico contente porque vejo que ainda consigo. Agora já corro um bocadinho mais depressa.

Julieta diz que até se esquece da idade quando corre. Foto: DR

– E em termos de saúde tem cuidados especiais?

Nós aqui no CCD fazemos sempre exames médicos no princípio da época. Tenho cuidado porque vejo grandes atletas que têm muita preparação e às vezes caem inanimados. Por vezes, tenho medo. Este ano devo fazer também um eletrocardiograma e análises, mas problemas de saúde não tenho. Só alguma falta de cálcio, mas isso também é da idade. De resto está tudo bem. Eu quando vou correr nem me lembro da idade (risos).

– Corre todos os dias?

Sim, tento correr quase todos os dias nem que seja só um bocadinho. Hoje por exemplo vou ter treino com os miúdos, mas vou correr um bocadinho antes do treino. É conforme, pode ser só 1 km ou pode chegar aos 10 km. Tem a ver com o nosso estado de espírito. E tenho uma amiga que me desafia, também vou com correr ela, mas não ela não participa nas provas.

– Torna-se um vício correr?

Sim, só não vou mais tempo porque tenho outras atividades e tenho afazeres em casa. Sabe, como sou um bocadinho nervosa, quando corro, não penso nos problemas da vida. Às vezes quero fazer só 2 km e faço 4 ou 5. Vou andando, andando e vou por aí fora sempre…

– Em termos de alimentação, tem alguns cuidados especiais?

Sim, primeiro nunca fumei e nunca bebi álcool. Depois, escolho sempre comida saudável, evito as gorduras e os fritos. Embora também coma de tudo, mas mais legumes e frutas. Evito os doces, porque eu também sou uma doceira e agora até nem os faço para não os comer (risos).

Julieta Coelho tem dois filhos e dois netos. Foto: DR

– Portanto, em termos de saúde sente-se bem…
Pelo menos até agora não sinto nada. Nem tomo medicação para nada a não ser umas ampolas de vitamina por causa da falta de cálcio, de resto nada.

– E consegue conciliar o desporto com os seus afazeres da família (é casada, tem dois filhos e dois netos)?

Sim, sim. Agora nem tenho ido correr muito cedo porque as manhãs estão mais frescas e com esta coisa da pandemia se uma pessoa se constipa nem tem onde se vá curar. Por isso vou assim mais a meio da manhã. Quando está a chover não vou porque também os meus ténis não são de qualidade. Isto é como um carro quando não tem os pneus como deve ser…

Aqui na Sertã há bons percursos para praticar atletismo?

Tem, tem. Aqui junto às ribeiras, mas também gosto de subir montanhas. A gente escolhe o percurso. Há muitos sítios.

Quanto a prémios, já ganhou alguns?

Sim, corro no escalão acima dos 55. Às vezes fico para trás, mas também não me importo. Já fiquei em 5º, já fiquei em 3º, mas também já fiquei em 1º.

Até quando é que pensa correr?
Olhe, até ter forças, até as pernas deixarem.

Correr torna-se viciante reconhece a atleta sertaginense. Foto: DR

Ganhou o “bichinho” do jornalismo quando, no início dos anos 80, começou a trabalhar como compositor numa tipografia em Tomar. Caractere a caractere, manualmente ou na velha Linotype, alinhavava palavras que davam corpo a jornais e livros. Desde então e em vários projetos esteve sempre ligado ao jornalismo, paixão que lhe corre nas veias.

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