Sertã | Acordeonistas homenageiam Eugénia Lima, a “Rainha do acordeão”

O som do acordeão dominou por completo, este domingo, 28 de novembro, a Casa da Cultura da Sertã. O auditório não chegou para todos os que quiseram assistir à sexta Gala “Eugénia Lima”, sendo que alguns sertaginenses assistiram ao espetáculo de pé. O evento pretende homenagear, postumamente, a acordeonista Eugénia Lima (nascida em Castelo Branco) e, simultaneamente, promover o acordeão, um instrumento típico da música popular portuguesa.

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Atuação do grupo de escolas de Acordeão da Sertã abriu o evento musical que encheu a Casa da Cultura Foto: mediotejo.net

Pelo palco passaram nomes como Tino Costa, Catarina Brilha, José Cláudio, Tiago Pirralho, Andreia Sofia, o grupo de Dança Taconeando e Michel, dançarino francês do sapateado. A primeira atuação coube ao grupo de escolas de Acordeão da Sertã composto por Pedro Martins, Alexandre Alves, Miró Ribeiro, Vasco Miguel, David Antunes e Patrícia Farinha. Em palco a concentração é tudo pelo que o único som que se escuta são mesmo os aplausos após cada uma das atuações.

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David Antunes, Patrícia Farinha e Vasco Miguel da Escola de Acordeão da Sertã têm em Eugénia Lima uma referência musical Foto: mediotejo.net

Nos bastidores, o mediotejo.net foi ao encontro de alguns dos músicos para tentar saber a sua opinião sobre Eugénia Lima. Vindo do Algarve, (Celes)Tino Costa contou que a sua ligação ao acordeão surgiu, precisamente, quando assistiu a uma exibição de Eugénia Lima. “Acho maravilhoso esta homenagem porque a Eugénia Lima é um ponto de referência para todos os acordeonistas e para todo o público que gosta de acordeão, em qualquer parte do mundo”, disse com entusiaamo.

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Tino Costa assistiu a uma exibição de Eugénia Lima com apenas quatro anos e ficou fascinado pelo acordeão Foto: mediotejo.net

Tino Costa refere que tomou contacto com Eugénia Lima quando tinha quatro anos de idade e ela 21. “Fui ao bailarico onde ela estava a atuar – fui com os meus pais –  e, ao invés de andar a brincar com as outras crianças da minha idade, fiquei a ouvi-la do pôr do sol ao nascer do sul, à luz do petromax porque não existia luz elétrica na altura”, recorda. Apaixonou-se pelo acordeão e pela sensibilidade que Eugénia Lima tinha ao tocar este instrumento com grande mestria. “No outro dia pedi aos meus pais para me comprarem uma concertina mas eles não podiam. Quem me desenrascou foi o meu vizinho, o Tio Tomé, que me emprestava a sua concertina. No Natal seguinte os meus tios, que eram mais bem realizados financeiramente do que os meus pais, ofereceram-me uma concertina que, vim a saber mais tarde, custou 120 escudos”, recorda ao mediotejo.net.

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Público encheu o auditório da Casa da Cultura na Sertã. Na primeira fila encontrava-se a vereadora Cláudia André Foto: mediotejo.net

A sua aprendizagem do instrumento foi feita de forma autodidata. Dos 4 aos 10 aprendeu a tocar concertina. Quando frequentava a Escola Industrial e Comercial de Lagos um professor – depois de o ver tocar – achou que ele tinha “muito ouvido” para o instrumento e sugeriu que fosse aprender música porque podia ir muito longe e que devia comprar um acordeão. “Vendeu-me um acordeão a prestações e deu-me aulas de música grátis até eu as poder pagar com os bailaricos que dava”, conta. Tino Costa começou a dar espetáculos em todo o país. Nunca mais parou não sendo esta a primeira vez que atua na Sertã.

“Esta ligação de Eugénia Lima comigo e com todos os colegas que gostam de acordeão deve-se à sua sensibilidade, ao romantismo e a um sentimento de música portuguesa principalmente que incutiu a todos nós. Somos almas gémeas no gosto pela música”, atesta Tino Costa para quem o mais gratificante são os aplausos e o público ouvir em silêncio, como sinal de respeito.

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David Antunes considera Eugénia Lima como a Rainha do Acordeão Foto: mediotejo.net

David Antunes, Patrícia Farinha e Vasco Miguel, jovens alunos da Escola de Acordeão da Sertã disseram ao mediotejo.net que o gosto pelo instrumento foi despertado por alguma ligação familiar. “O meu irmão começou a tocar  – desistiu antes de eu nascer – e tinha um acordeão lá em casa. Comecei a brincar e só depois é que quis aprender a sério. Encontrei o José Cláudio e já lá vão oito anos de aprendizagem”, conta David Antunes.

Patrícia Farinha descobriu o acordeão porque o pai e o irmão tocavam concertina. “Quando comecei a ver o sogro do meu irmão a tocar acordeão apaixonei-me e comecei a tocar nos botões dele”, conta. Já Vasco Miguel tomou contacto com o acordeão através do pai que era organista. “Começou-me a influenciar aos 5 anos para tocar acordeão e tive aulas a partir daí”.

Estes jovens contam que tiveram contacto com a acordeonista Eugénia Lima através de outras galas ou em concursos onde participaram. “Ao ouvirmos o seu nome, a primeira coisa que nos vem à ideia é a de inovação. Porque falamos de uma senhora com 84 anos que conseguia variar qualquer música mantendo o seu registo inicial tornando-a em algo muito melhor”, refere David Antunes para quem Eugénia Lima é a Rainha do Acordeão.

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Michel mestre do sapateado, em primeiro plano, nos bastidores deste evento Foto: mediotejo.net

Esta gala foi promovida pelo município da Sertã sendo que, na primeira fila encontrava-se a vereadora da Cultura, Cláudia André que confessa não saber tocar este instrumento e que aprendeu a gostar da sua sonoridade. “A Câmara decidiu fazer estas galas porque estamos a falar de uma grande criadora do acordeão. Não só era interprete como criadora de música e de letras para este instrumento. E por ser uma grande senhora, começou por se fazer o desafio à mesma que sempre nos deu a honra da sua presença até à sua morte para desenvolver esta gala tão nobre”, conta a vereadora da Cultura.

“O acordeão é um instrumento muito tradicional, muito apreciado especialmente em zonas como as nossas, onde as festas na aldeia se faziam à volta do acordeão. É, sem dúvida, um instrumento muito apreciado pelas gentes do concelho da Sertã. E, portanto, quisemos fazer um espetáculo que juntasse dois estilos de música, dentro do mesmo instrumento, em que temos oportunidade de ver, a interpretação com acordeão de estilos musicais muito diferentes”, destacou.

Segundo Cláudia André, a iniciativa, no que depender deste executivo, é para continuar até porque o êxito da mesma está refletido num auditório que se mantém sempre repleto de público desde a primeira edição.

Aos 12 anos já queria ser jornalista e todo o seu percurso académico foi percorrido com esse objetivo no horizonte. Licenciada em Jornalismo, exerce desde 2005, sempre no jornalismo de proximidade. Mãe de uma menina, assume que tem nas viagens a sua grande paixão. Gosta de aventura e de superar um bom desafio. Em maio de 2018, lançou o seu primeiro livro de ficção intitulado "Singularidades de uma mulher de 40", que marca a sua estreia na escrita literária, sob a chancela da Origami Livros.

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