Sertã | A arte de confecionar e degustar o caracol em Cernache do Bonjardim (c/vídeo)

Fátimas Santos, a cozinheira da Feira do Caracol. Foto: mediotejo.net

“Comer caracóis com o ensinamento do Mestre” é o mote da 14ª edição da Feira do Caracol que decorre no jardim do Clube Bonjardim, em Cernache do Bonjardim, no concelho da Sertã, de 12 de julho a 4 de agosto. E o Mestre, apesar de não estar presente fisicamente, é a figura que inspira e motiva o evento ao qual se dá continuidade também como forma de homenagem.

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Falamos de Belmiro Domingos, Grão-Mestre da Confraria do Caracol e fundador, há 14 anos, da Feira do Caracol em Cernache do Bonjardim. A sua morte inesperada há cerca de um mês deixou em choque toda a comunidade e todas as pessoas com quem o cozinheiro se cruzou um pouco por todo o país e até por Espanha.

A ele se deve este evento gastronómico que todos os anos em julho traz a Cernache milhares de pessoas. O jornal mediotejo.net falou com Daniel Mendes e Orlando Brito, dirigentes do Club Bonjardim, coletividade fundada há 134 anos, que dinamiza o evento com o apoio da Câmara da Sertã e da Junta de Freguesia local.

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Tudo começou há 14 anos quando Belmiro Domingos, natural de Matos do Pampilhal, na União de freguesias de Cernache do Bonjardim Nesperal e Palhais, propôs à Junta de Freguesia e ao Clube organizar a Feira do Caracol, numa altura em que o mentor já tinha as receitas e os segredos acumulados ao longo da sua vida dedicada à cozinha.

Mais do que um curioso, Belmiro Domingos era um estudioso do caracol, como o próprio dizia. “Não podíamos deixar de dar continuidade a esta iniciativa até como forma de homenagem ao Sr. Belmiro”, explicou Daniel Mendes.

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Orlando Brito e Daniel Mendes, dirigentes do Clube Bonjardim. Foto: mediotejo.net

Aquilo que começou por ser um festival feito ao ar livre com poucas condições, ganhou uma projeção a nível nacional e melhorou significativamente as condições. Só para se ter uma ideia, no ano passado foram vendidas no festival perto de duas toneladas de caracol, conforme revela aquele dirigente associativo.

O evento acontece sempre nos últimos fins de semana de julho, este ano prolongado até ao primeiro fim de semana de agosto para permitir aos emigrantes que vêm de férias neste mês participarem também no festival.

Para os apreciadores do gastrópode, há 12 pratos à escolha: Caracol frito, Caracol à Pescador, Caracol com Caril, Caracol à S. Nuno, Omelete de Caracol, Feijoada de Caracol, Escargot, Caracoleta Grelhada na Chapa, Caracol tradicional, Caracol à Caçador e Caracol à Criança.

Houve mais receitas que Belmiro Domingos deixou mas, uma vez que são mais elaboradas, não estão disponíveis durante o festival. O Caracol Frito e o Caracol à Pescador, iguarias criadas por Belmiro Domingos, são os pratos de eleição, segundo Daniel Mendes.

O grau de perfecionismo na cozinha por parte do fundador ia ao ponto de cozer o caracol num panelão à fogueira de lenha, porque tal conferia outro sabor ao caracol, mas dada a dificuldade logística isso apenas foi feito no primeiro ano.

Quanto ao tamanho do molusco, há o tradicional, mais pequeno, há a mitra, entre o caracol e a caracoleta (o mais consumido) e há a caracoleta e o escargot, de maior dimensão, conforme nos explica Daniel Mendes.

Só no primeiro dia passaram pelo Festival entre 300 a 400 pessoas e vendeu-se perto de 300 quilos de caracol, revela Orlando Brito.

A reportagem do mediotejo.net deslocou-se depois aos bastidores do evento e encontrou Fátima Santos, a cozinheira responsável pela confeção dos caracóis desde há nove anos.

Feira do Caracol em Cernache do Bonjardim, de 12 de Julho a 4 de agosto

Publicado por mediotejo.net em Sábado, 13 de julho de 2019

Não partilha os segredos que herdou do fundador da Confraria e do Festival do Caracol mas aponta as ervas aromáticas como sendo o ingrediente que faz a diferença.

Para Fátima Santos, o Caracol Frito e o Escargot são os pratos com mais saída, além do tradicional, marcado pela presença aromática dos orégãos.

É com paixão que se dedica à atividade. “Gosto de fazer isto, aprendi aqui com o Sr. Belmiro, que me pediu para nunca dar as receitas”, ressalva, destacando as milhares de pessoas vindas de todo o país e até de Espanha para apreciar as iguarias.

Para quem não gosta de caracóis – petisco que, ou se gosta muito ou se detesta – serve-se bifanas, maranho, moelas, pica-pau ou o “bifanão” (bifana em pão da avó), entre outros.

Na hora de comer os caracóis, a cerveja é apontada por todos como a bebida que melhor combina. Há no entanto, quem prefira vinho e até sidra.

Ao falar com os dinamizadores da Feira do Caracol, percebe-se que a figura de Belmiro Domingos está sempre presente. Ele era “o embaixador de Cernache”, “era muito conhecido e por onde andasse promovia a sua terra e este evento gastronómico”, referem os dirigentes do Clube Bonjardim.

No ano que se assinala o 10° aniversário da Confraria do Caracol, o seu fundador e Grão Mestre, falecido há cerca de um mês com 69 anos, vítima de doença súbita, vai ser homenageado no dia 28 de julho.

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1 COMENTÁRIO

  1. E ainda dizem que o interior, não é desenvolvido.
    Isto e tudo o mais que o povo do interior desenvolve, em prol de puxar algum dinheiro às suas colectividades e com isso fazer levar as gentes das grandes cidades até eles é de louvar.
    Viver no interior é difícil, viver nas metrópoles, pode parecer fácil, ou talvez não.
    Parabéns Cernache, parabéns Sertã.

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