Serra D’Aire | “Cabras sapadoras” ainda percorrem a Serra, mas a vida está difícil

Projeto lançado pela Quercus em 2011, o rebanho de cabras da Serra d’Aire pretendia preservar habitats e ajudar no combate a incêndios, através do pasto na serra. Em resultado da proposta do governo de lançar um projeto de “cabras sapadoras” no país, o mediotejo.net foi procurar o ponto de situação desta iniciativa ambiental que uniu as juntas de Fátima, concelho de Ourém, e do Pedrógão, concelho de Torres Novas há seis anos. O rebanho de Fátima foi abatido o ano passado após um caso de doença, o do Pedrógão só em 2017 conseguiu ter as condições adequadas para funcionar. Em ambos os casos a sustentabilidade da atividade, quer económica quer de gestão, é o grande problema para as autarquias.

PUB

O rebanho de cabras da Serra d’Aire foi uma ideia que pretendeu mostrar alternativas, explicava em 2016 Domingos Patacho, da Direcção do Núcleo Regional do Ribatejo e Estremadura da Quercus, ao mediotejo.net aquando uma entrevista sobre o tema. O projeto inicial encontrava-se ao abrigo do programa comunitário Life + “Habitats Conservation” e envolveu as juntas de freguesia de Fátima e Pedrógão, criando-se dois rebanhos cuja missão era preservar habitats e manter as faixas de contenção de incêndios limpas na serra.

O financiamento porém terminou em 2014, com os rebanhos a serem deixados à responsabilidade das respetivas juntas.

PUB

Se a ação do rebanho de caprinos na Serra d’Aire teve efeitos é difícil de avaliar, uma vez que nos últimos anos registaram-se poucos incêndios na zona e de rápida resolução. Mas em 2012 a junta de freguesia de Fátima aderiu com entusiasmo ao projeto, tendo na altura já algumas condições para o efeito na Quinta Rosa Albardeira e investindo na iniciativa. Posteriormente abriria uma loja, instalada no Mercado de Fátima, onde se vendia o queijo proveniente das cabras.

O rebanho registou altos e baixos, sendo que cinco anos depois, em 2017, verificou-se que os animais estavam infetados com CAEV (Artrite Encefalite Caprina), “uma doença crónica que debilita os animais, impedindo a sua função zootécnica e levando-os ao sofrimento ao longo do seu desenvolvimento”, segundo avançou o comunicado de imprensa. Optou-se por abater todo o rebanho e o espaço ficou em quarentena.

PUB

Um ano depois o rebanho não foi reposto, tendo a junta de freguesia pedido informação à Quercus sobre possível novo financiamento, adiantou ao mediotejo.net o presidente, Humberto Silva. “A junta não tem condições financeiras para adquirir e manter outro rebanho”, explicou, salientando que enquanto os animais estiveram a cargo da autarquia as faixas de contenção de incêndios foram sendo limpas.

Para Humberto Silva a grande dificuldade deste projeto registou-se ao nível do pessoal, com mudanças sucessivas de pastores ao longo dos cinco anos.

“São muitas horas, sábados, domingos e feriados, é a ordenha”, enumerou, salientando que é necessária experiência e uma capacidade de gestão e responsabilidade que é difícil de encontrar em simples funcionários. Humberto Silva elogiou por isso a solução encontrada pelo Pedrógão, que entregou a gestão do rebanho a um particular, tendo conseguido manter o projeto apesar das várias dificuldades.

“Se não for o dono, a gestão torna-se complicada”, referiu, preferindo não adiantar mais pormenores.

Já o Pedrógão esbarrou em 2012 com a burocracia e só no início de 2017, com apoio do município, conseguiu inaugurar o estábulo, instalado no Casal João Dias. Até então, sem condições adequadas à sua manutenção e crescimento, o rebanho do Pedrógão sofreu várias perdas “de cabeças” ao longo dos anos. Manteve-se porém, dentro do possível, o pastoreio na serra.

“A junta não tem condições financeiras para adquirir e manter outro rebanho”, explicou Humberto Silva , salientando que enquanto os animais estiveram a cargo da autarquia as faixas de contenção de incêndios foram sendo limpas.

Atualmente, adiantou o presidente da junta, Paulo Simões, ao mediotejo.net, o rebanho terá cerca de uma centena de animais e o objetivo é que este cresça pelo menos para o dobro. Tanto o rebanho como o estábulo pertencem à autarquia, mas a exploração está a cargo do mesmo pastor, que se manteve no projeto.

“A dificuldade maior é a viabilidade económica”, constatou o presidente, comentando a ideia de se instalar uma queijaria no espaço, mas para a qual também era necessário financiamento. A junta não tira qualquer benefício económico do rebanho, salientou.

Na mesma entrevista, Domingos Patacho salientou ao mediotejo.net que estes rebanhos de “cabras sapadoras” são “uma medida interessante” de combater as vagas de incêndios, mas que, ainda assim, necessitam de outras soluções. “É toda uma estratégia” que terá que envolver várias formas de gestão de combustível, como os corta-matos.

Segundo informação da Lusa, o governo vai avançar este ano com projetos-piloto de “cabras sapadoras” com rebanhos dedicados à gestão de combustível florestal na rede primária, anunciou o secretário de Estado das Florestas, Miguel Freitas, destacando o reforço na prevenção de incêndios. Segundo o governante, as organizações de produtores florestais são “os parceiros privilegiados” para a defesa da floresta contra incêndios.

No âmbito de uma audição parlamentar na Comissão de Agricultura e Mar, requerida pelo BE, o secretário de Estado das Florestas lembrou que já foram disponibilizados 17 milhões de euros para executar ações de defesa da floresta contra incêndios, destinados essencialmente à rede primária.

“Temos 130 mil hectares para executar”, referiu o governante, acrescentando que “estão feitos apenas 40 mil hectares” e a expectativa é “nos próximos três anos poder executar a totalidade da rede primária da defesa da floresta contra incêndios”.

Aos 17 milhões disponíveis neste âmbito “serão somados 15 milhões para executar este ano cerca de mil quilómetros de rede primária de defesa da floresta contra incêndios e manter 20 mil hectares da rede primária que está executada”, indicou Miguel Freitas.

De acordo com o titular da pasta das Florestas, o país vai ter, “pela primeira”, um equilíbrio orçamental entre a prevenção e o combate aos incêndios florestais.

O governante referiu ainda que o país vai ter uma diretiva única de prevenção e combate aos fogos.

“Pela primeira vez em Portugal, vamos ter uma diretiva operacional que mostra bem aquilo que se vai fazer quer em combate quer em prevenção. Até agora, a diretiva operacional era apenas de combate”, declarou o secretário de Estado das Florestas.

Questionado pelos deputados do PSD sobre como é que o Governo vai garantir que a Infraestruturas de Portugal cumpre a lei para a limpeza das faixas de gestão de combustível florestal, Miguel Freitas disse que a empresa pública já abriu um concurso, no valor de 18 milhões de euros, para fazer a limpeza da rede viária, considerando que “há uma grande determinação para avançar com a limpeza”.

c/Lusa

APOIE O NOSSO JORNAL, TORNE-SE UM LEITOR BENEMÉRITO

Se lê regularmente as nossas notícias torne-se um leitor benemérito fazendo contribuições a partir de 10€/mês, ou doando valores iguais ou superiores a 100€. Esses leitores passam a constar da ficha-técnica como apoiantes deste projeto independente de jornalismo. Pode também fazer uma contribuição pontual (5€, 10€, 20€, o que puder e quiser).

- Publicidade -

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here