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“Serão as rotinas boas ou más?”, por José Rafael Nascimento

“O costume!”, respondeu o cliente com a expressão de sempre, assim que o empregado lhe apresentou a ementa.

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Diz-se que o ser humano é “um animal de hábitos”, querendo com isso significar que o nosso comportamento é determinado por hábitos ou rotinas, ou que necessita deles para se comportar com eficiência (produtividade) e eficácia (impactos). O Prof. Alex Pentland do MIT – Massachusetts Institute of Technology afirma que “gostamos de nos ver como seres conscientes e possuidores de livre-arbítrio, autogovernados e separados dos outros animais pela capacidade de raciocínio”. Contudo, diz, “somos mais instintivos e muito mais parecidos com outras criaturas do que gostamos de pensar”.

Por seu turno, o psicólogo John Bargh da Universidade de Yale diz que “a maior parte da vida quotidiana de uma pessoa é determinada por processos mentais postos em movimento pelo contexto ou situação”, confirmando assim os resultados da investigação do MIT que revelam que “90% do que a maioria das pessoas faz, em qualquer dos dias, segue rotinas tão completas que o seu comportamento pode ser previsto com apenas algumas equações matemáticas”.

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A este propósito, conta-se o caso da Target, uma insígnia retalhista americana, a qual descobriu que as consumidoras de certos produtos em conjunto – vitaminas, loções não-perfumadas e toalhetes de rosto – podem estar grávidas e, então, usam essa informação para iniciar uma campanha de marketing individualizada. Aconteceu que um pai ficou furioso com a Target quando a sua filha adolescente recebeu pelo correio cupões de produtos para bebé. Dias mais tarde, ficou a saber que a filha estava mesmo grávida.

Diz o dicionário que por hábito se entende a “prática frequente, uso ou costume”, a que a rotina lhe acrescenta o “fazer uma coisa sempre do mesmo modo”, seguindo uma “sequência de instruções ou de etapas na realização de uma tarefa ou actividade” (Priberam). Poderia ainda falar-se em ritual, um hábito ou rotina com carácter “sagrado”. Será isto bom ou será isto mau? A resposta não surpreenderá, pois, como se viu em crónica anterior, “nem tudo é mau e o que é mau pode também ter algo de bom, havendo até “males que vêm por bem” (e tudo isto vice-versa).

Seremos nós, humanos, verdadeiramente conscientes e utilizadores do livre-arbítrio, dando bom uso à capacidade de raciocínio com que fomos abençoados? Ilustração de Rami Niemi

A plataforma aberta Medium, com 170 milhões de leitores, aponta 8 vantagens e desvantagens do comportamento rotineiro. A favor das rotinas, está a eficiência na definição e cumprimento de metas, a evitação do stress – proporcionando mais felicidade e melhor saúde –, a redução do esquecimento e da procrastinação, o aumento da confiabilidade por se ser mais cumpridor, o menor esforço em responder às exigências da “vida real”, a optimização da aprendizagem e da proficiência, a estruturação e atribuição de um significado mais positivo à vida, e a maior facilidade em mergulhar num estado de “fluxo”.

Contra as rotinas, está o facto de não funcionarem de igual modo para todas as pessoas e de poderem atrasar a resolução de problemas urgentes, condicionar a vida/realidade às rotinas e não as rotinas à vida/realidade, ser causa de monotonia, aborrecimento e acomodamento, estagnar o crescimento pessoal e organizacional, ser desvantajosas ou prejudiciais para os indivíduos ou grupos, travar ou entorpecer a inspiração, criatividade e inovação, e impor tarefas inúteis ou desnecessariamente custosas.

Há, ainda, quem acrescente ou especifique os malefícios das rotinas como causa de perda ou amortecimento de emoções e sensações, ao ligarmos o “piloto automático” comportamental e desligarmos o contacto connosco próprios, com os outros e com a rica diversidade de experiências sensoriais próximas e imediatas. Se é verdade que as rotinas nos podem dar um sentimento de competência e satisfação relativamente às tarefas envolvidas, deixando-nos aparentemente mais seguros e incontestados, elas podem estar também a penalizar-nos sem que dêmos conta disso.

É certo que há indivíduos para quem um dia bom é um dia em que nada acontece (de mau), enquanto para outros um dia bom é um dia em que tudo acontece (de bom). A pergunta que todos devem fazer, contudo, é “Estou realmente a viver a vida?”. Para nos mantermos vivos, precisamos de alimentar de forma sustentável o nosso sentido de contemplação e admiração, de curiosidade e descoberta, de entusiasmo e realização. Precisamos de experiências novas e energizantes que acrescentem valor a nós próprios e aos outros, directamente ou através de terceiros.

As pessoas, como os animais, criam rotinas ou quebram-nas quando beneficiam de recompensas ou quando as perdem (ou são penalizadas), respectivamente. Esses benefícios ou penalizações podem (e devem) ser autoatribuídos para “descongelar” velhas rotinas e “congelar” novas e melhores. Ilustração de Caroline Frumento

Parece difícil, mas poderá não ser assim tanto. Aliás, o maior desafio é mesmo a inércia, mais do que o medo ou a insegurança. Pode começar-se por pequenas coisas, como mudar a ordem pela qual se cumpre as rotinas (não comprometendo resultados positivos antes obtidos) ou experimentar novas escolhas, sejam estas p.e. um caminho, um local ou uma pessoa. Depois, pode arriscar-se assumir um novo papel ou identidade, aproveitando ou criando novas oportunidades – familiares, de trabalho, de lazer ou de aprendizagem – ou decidindo fazer algo fora-da-caixa ou mesmo nonsense (absurdo).

Tratando-se de hábitos arreigados (vícios incluídos), torna-se difícil – mas não impossível – mudá-los ou eliminá-los. O melhor momento para o fazer é quando ocorrem disrupções nas nossas vidas, associados a pequenos ou grandes eventos, como ir de férias, mudar de emprego, casar ou ter um filho. Quebra-se, assim, o “ciclo do hábito”, composto por três etapas: o “gatilho” que o activa, ao instruir o cérebro a entrar em modo automático, o comportamento rotineiro propriamente dito e a recompensa que o reforça.

Mas, se é comum falar-se em quebrar ou romper com rotinas, também é importante falar-se em estabelecê-las quando elas fazem falta, seja nas etapas precoces e tardias das nossas vidas, seja nas situações que podem ocorrer na etapa intermédia de vida activa, em que as capacidades cognitivas possam estar comprometidas, por curto ou longo período. Porque, ao fim e ao cabo, a necessidade ou dispensabilidade das rotinas tem tudo a ver com o nosso perfil ou estado emocional, sendo este gerido inteligentemente pelo mecanismo racional de cada um.

As rotinas – de pensamento e acção – podem ser, portanto, uma bênção ou uma maldição, consoante a gestão que delas se faça e os resultados que se obtenha. Uma coisa é certa, não existe vida sem rotinas. Esta não é uma opinião, é um facto científico, mais ou menos evidente, sendo impossível pensar – a priori ou a posteriori – em tudo o que se precisa de fazer, a começar pelos processos que ocorrem no sistema nervoso autónomo e a terminar em tarefas mais ou menos complexas, como falar, comer, conduzir ou amar.

O planeamento ajuda a estabelecer ou a mudar rotinas. Escreva num calendário aquilo que se compromete a fazer, preferencialmente em grupo

Se as rotinas são uma necessidade determinada pelas nossas limitações cognitivas, libertando capacidades para outras tarefas, elas também influem na neuroplasticidade do cérebro. As funções desempenhadas pelo córtex são determinadas pelas rotinas, e estas pela relação dos indivíduos com o meio ambiente e suas exigências. Alva Noë, professor de Filosofia na Universidade da Califórnia, dá este exemplo: “Muito do espaço cortical somatossensorial humano é dedicado às mãos; não seria, se as mãos não fossem tão adequadas às necessidades e dificuldades humanas. E, claro, as mãos não seriam tão adequadas se não fosse a infraestrutura cortical correspondentemente ajustada”.

E acrescenta este académico que “este é um círculo virtuoso; gostamos de pensar que podemos explicar o que somos e o que podemos fazer, em termos de cérebro, mas acontece que o próprio cérebro – e o seu papel na consciência e na cognição – é melhor compreendido em relação ao que somos e ao que podemos fazer. De qualquer maneira, os hábitos ou rotinas desempenham um papel básico em dar sentido ao que somos”.

Para Alva Noë, o tempo passa mais depressa à medida que envelhecemos porque nos acomodamos às linhas da história ou aos arcos narrativos (em vez de aos momentos ou aos pontos) com que estruturamos as nossas vidas. Passamos a viver num mundo de significados – baseado em acções e eventos significantes (próprios dos mestres) – e não de meros sons, palavras ou movimentos (próprios dos aprendizes). E os arcos reduzem o tempo, ao tornarem o tempo – medido pelo tique-taque de um relógio ou pelo virar das páginas de um calendário – irrelevante.

Quem quer voltar a sentir-se jovem ou sentir que viverá para sempre, diz o professor de Filosofia, deve quebrar as rotinas, fazer coisas que nunca fez ou deixou de fazer há muito tempo. Cada dia parecerá, então, uma eternidade. Mas há um preço a pagar (ou mais do que um): ganha-se tempo, mas perde-se sentido e segurança. Não há bela sem senão, as rotinas são uma bênção e uma maldição, mas não existe vida humana sem elas. Nem sem elas, nem só com elas.

*O autor não segue as regras do novo acordo ortográfico

José Rafael Nascimento tem 64 anos de idade e reside na aldeia de Vale de Zebrinho (São Facundo), na casa que foi dos seus avós maternos. É bacharel em Economia, licenciado em Organização e Gestão de Empresas e mestre em Psicologia Social e Organizacional, com pós-graduação em Marketing Político e Social. Tem desenvolvido atividade docente no ensino superior, assim como formação e consultoria empresarial, depois de uma carreira de gestor em organizações multinacionais e públicas. Tem dedicado a sua vida cívica à atividade associativa e autárquica, interessando-se pelos processos de participação e decisão democráticos.

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