“Ser Músico ou não… não é a questão”, por Mário Mata

Mário Mata, músico e compositor

Muitas pessoas perguntam-me se escolhi bem ser músico e se foi uma boa escolha. Nunca se tratou de uma escolha. Aliás, na minha opinião não és tu que escolhes a música, é a música que te escolhe a ti.

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Está na pessoa.

Não te tornas músico porque estudaste música.

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É algo que terás ou não dentro de ti.

E quando estudas, aprendes a ler e a escrever…aprendes eventualmente a tocar, mas tudo o que fazes tem um plano e regras, e no fundo aprendes aquilo que já está escrito.

Não quer dizer que não tenhas que estudar.

Quando aprendes por aprender arriscas-te a mecanizar aquilo que fazes mas se não sentires o que estás a tocar acabas por te tornar uma coisa sem alma, como aqueles músicos que quando ficam sem a partitura perdem a noção, desorientam-se e acabam por desligar da corrente, porque só aprenderam a ler e não tinham a música dentro deles.

Uma coisa bem diferente é teres o dom. A música escolheu-te, vive dentro de ti e às vezes nem sabes bem o que fazer, e quando decides estudar, unes aquilo que aprendes à musicalidade que possuis dentro de ti e isso é maravilhoso porque te faz dar passos em frente e garantes a tua satisfação pessoal.

Depois aprimoras as técnicas e o dom passa a refletir-se naquilo que crias, na interpretação, na expressividade e descobres qualidades novas, tudo o que fazes é uma extensão de ti próprio, o estudo deu-te ferramentas para garantires a tua satisfação pessoal.

Por isso é que fui escolhido pela música, mas não sei se fiz bem porque não escolhi, limitei-me a ser aquilo que sentia.

Diz-se que uma pessoa que não tem um “ouvido musical” por muitos anos que estude nunca irá compreender o que faz…não lhe servirá para nada.

O meu ouvido musical nunca foi desenvolvido com recurso a técnicas, nem sei se existem, porque na minha aprendizagem limitei-me a seguir o meu instinto e a minha sensibilidade e sempre acreditei que ser músico é algo maior, não é ser apenas, é algo mais que não possui explicação, tal como um sentimento.

Já toquei em tantos lugares, tantas terras, tantas festas…eventos de rua, arraiais e até bares…habituado a ouvir as reclamações dos organizadores sobre os problemas constantes com os atrasos, porque “fulano chega sempre atrasado, beltrano bebe copos a mais durante o concerto, “Felcrano” deu uma banhada à última da hora”.

Por essas razões habituei-me a ser pontual porque sempre achei que ser organizado e possuir responsabilidade com os compromissos assumidos, ser cuidado e ter bons instrumentos e respeito pelo público, ser educado e simpático, tudo isso faz parte inerente da minha profissão de músico, e procuro ser fiel a essa postura.

E é extremamente importante ter o reconhecimento do público, afinal quando se cria uma canção e se tem o sentimento de a partilhar, são as pessoas que nos alimentam, porque precisamos delas, dos seus sorrisos, que cantem conosco as nossas canções, ou nada do que somos fará sentido. E depois vem o reconhecimento de outros músicos, que como nós sentem as mesmas coisas, mesmo que tenham outras musicalidades e outros estilos. E o futuro dependerá sempre dos reconhecimentos.

Eu aceitei que a música me escolhesse.

Não digo que sou melhor do que os outros, do pouco que estudei acabei por aprender sozinho e com amigos, e é mesmo tudo aquilo que sei, que leio mal, que escrevo razoavelmente as cifras das minhas músicas, mas que sinto tudo aquilo que faço com humildade, sem medo de não encontrar o caminho mas ansioso por cada momento com a guitarra na mão.

Habituei-me a desvalorizar os engodos. Os “play backs” afligem-me mas deveriam afligir mais os músicos que os aceitam fazer porque deixam de parte a possibilidade de revelarem a sua qualidade pela facilidade de uma mímica.

Pessoalmente rejeito-os e continuo a ousar tocar ao vivo.

Quando levo a guitarra e me junto com os músicos que escolho, aqueles que tocam comigo, ainda levo com a pergunta: “Então não traz bailarinas?”

E eu tenho sempre a mesma resposta: “Se me pagares cachet de jeito, até trago bailarinas para dançar em cima da tua mesa!” (Tomem lá, para bom entendedor)

E a estrada, que é o nome que chamamos à vida de levar a música para toda a parte, essa é a que ainda me motiva a levar a guitarra às costas, com a sorte de ter gente boa por perto, e poder escolher aqueles que comigo partilham o palco.

Mas agora vivemos algo diferente. Aparte as brincadeiras, que sempre fizeram parte da minha natureza surgem os receios e hoje vivemos uma calamidade mundial que afecta todos os Países, todas as cores, todas as profissões, e a música também.

É como se estivéssemos no Titanic. O barco vai ao fundo e os músicos continuam a tocar e acabarão por afundar também enquanto outros se salvam como podem.

São muitos os músicos que não possuem condições ou mecanismos de defesa, sobretudo da Segurança Social e poucos terão apoios estatais e tal como o barco que se afunda também os fundos da Cultura não salvam ninguém, embora os acenem “para português ver”, serão muito poucos os que terão uma boia de salvação.

E não serão só os músicos, afinal existem tantas profissões nos espectáculos e todas elas fazem parte do mesmo problema. As pessoas nem têm noção que num evento musical existem imensas pessoas que trabalham para que tudo funcione desde técnicos de som, de iluminação, assistentes e gente especializada em diversas áreas, que chegam a ser em maior número do que artista ou músico que vai cantar ou tocar.

São muitas as pessoas que vivem exclusivamente da vida dos espectáculos, mas não julguem que é uma vida fácil. Uma grande maioria necessita de associações e cooperativas para poder facturar os eventos, muitas das vezes mal pagos e não há margem para liquidar dívidas às finanças ou a Segurança Social.

Não tiveram sorte com a quantidade de trabalho e o pouco dinheiro que entrou deu para as contas e para o frigorífico. Não são criminosos, tiveram poucas oportunidades e até assumem os erros mas vivem sempre com receio porque são desconsiderados, e agora não têm direito a nada.

O que está mal é mesmo tudo.

Agora é ver se pelo menos os municípios pagam os eventos marcados que foram cancelados e reagendados, mas isso provavelmente será pouco se continuarmos muito tempo sem retomar a normalidade, talvez pela internet, se tiverem ajudas e receberem donativos, sei que já há quem esteja a realizar propostas dessas.

O pior é que não adiantará muito reclamar, porque sou apenas um a opinar por uma classe que durante anos a fio nunca se soube unir e muitos só sabem mesmo olhar para o seu próprio umbigo. O panorama nunca foi bom e agora também não deve melhorar.

Enquanto der vou continuar a tocar a música que me escolheu.

Abraços

Mário Mata

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