“Senhora de Fátima 1 – 0 Senhora de Lurdes”, por Aurélio Lopes

As enxurradas noticiosas respeitantes à consagração de Portugal como campeão europeu de futebol, trouxeram para primeiro plano o carácter religioso do treinador, apresentado, de alguma forma, como catalisador de uma, mais ou menos percetível, boa vontade divina.

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O que levou, aliás, a uma peculiar reflexão com os meus botões (principalmente com o do lado direito, mais dado a estas coisas do desporto) enquanto me ia apercebendo que o, até aí  Engenheiro Santos (Fernando para os amigos), emergia desta epopeia como o novo D. Fernando; “o treinador santo”.

Na verdade, não possuíamos, ainda, nenhum santo engenheiro. Se não considerarmos o Sócrates, é claro.

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E ele merece! Afinal acreditou, profetizou, orou, suplicou e, no fim, chorou de alegria enquanto agradecia aos céus as inefáveis graças divinas.

Confesso, porém, que me foi sempre algo difícil perceber esta recorrência às divindades da nossa devoção, a quem se pede encarecida (e piedosamente, já se vê) que nos conceda a vitória em eventos desportivos.

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Que nos permita ter a sorte necessária à obtenção do êxito desejado.

Que nos impeça, por exemplo, de falhar aquele penalty. E, já agora, que faça uma forcinha para levar a falhar os nossos adversários.

Por isso, oramos e prometemos.

Promessas piedosas e facilmente concretizáveis.

Afinal, somos devotos. Não somos parvos!

Mas o fulcro da questão sobre o qual me interrogo (e interrogo, com pouco êxito, o respetivo “botão”) é, afinal, o seguinte:

Porque diabo há de a Virgem Maria (ou qualquer entidade afim) ajudar-nos?

Porque não deixar, simplesmente, o resultado entregue à verdade desportiva?

Ou, até, porque não ajudar os outros?

Não são, igualmente, cristãos?

Ou será que estamos mais bem vistos no Céu?

Ou seremos melhores cristãos?

Mas então não deveria ser critério de seleção a natureza piedosa dos jogadores?

E, já agora, dos treinadores, dirigentes federativos e por aí adiante.

Rejeitando, obrigatoriamente, ateus, herejes e agnósticos. E, naturalmente, os cristãos ditos “não-praticantes!”

Para “não praticantes” já bastam, no nosso desporto, os políticos e autarcas honestos, o cumprimento fiscal, os dirigentes desportivos responsáveis, os jogadores com amor à camisola, os jornais não sensacionalistas e por aí diante,

E porque raio, intervêm, agora, o “botão da direita”; havia Deus ou a Virgem de se preocuparem com um jogo de futebol?

Não têm nada mais importante que fazer?

Por exemplo, meter algum juízo na cabeça dos responsáveis, diretos e indiretos, pelos atentados que continuam a lançar o terror e a tragédia entre massas inocentes e indefesas?

Na verdade, volto a interrogar-me (não obstante desconhecer as “misteriosas razões clubísticas do Senhor”), porque raio deve o mesmo apoiar alguns, mesmo que sejamos nós (que ficaremos eternamente gratos; pelo menos até ao próximo jogo) prejudicando necessariamente outros (provavelmente tão bons católicos como nós) e ficando, esses, naturalmente, tristes e inconsoláveis?

Onde está, aqui, a tão propalada justiça divina?

Será que também no Céu há filhos e enteados?

Poderá ser (alego eu, ainda) que a explicação se encontre, sim, no nosso apego particular a uma dada representação iconográfica (seja a Senhora do Caravaggio, seja a Senhora de Fátima) daquela que é, no entanto, a mesma entidade divina?!

Dá a impressão que entendemos o Céu como um lugar em que os diversos avatares marianos (e não só) se entretêm a apoiar os seus particulares devotos nas diversas competições desportivas, por eles, desenvolvidas na Terra!

Talvez para obstar à previsível monotonia celeste.

Contudo, intervém o “botão da direta” (à guisa de derradeira contra argumentação), pode-se sempre dizer, que “Deus ajuda, quem se ajuda”.

Pois, sim…  interrompe o “botão da esquerda” (algo enfadado com tanta conversa); o que nos leva, linearmente, de volta ao princípio. À conhecida expressão popular “fia-te na Virgem e não corras…

E, resmungando, conclui, numa argumentação que se pretende definitiva: o que dispensa, afinal, as tais súplicas e orações!

Mas, acreditarmos, é sempre importante, alega, ainda, o “botão da direita”: acreditarmos em nós (claro) e, principalmente, levar os outros a acreditar.

Afinal, é assim que nascem os profetas!

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