Quarta-feira, Dezembro 8, 2021

“Se morreu é porque é bom…”, por Hália Santos

Não tens aquela ideia de que quando as pessoas morrem só se dizem coisas boas sobre elas?

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Tenho! Parece que é resultado de uma certa capacidade de apagar os erros que cometeram, as injustiças que criaram e os males que fizeram. Sim porque, em algum momento, todos nós tivemos momentos maus. Ou, pelo menos, momentos infelizes, em que tivemos comportamentos que se deviam ter evitado ou momentos em que dissemos coisas que alguém não devia ter ouvido…

Mas é quase incontornável… quando morrem, foram todos bons homens e boas mulheres, com um caráter irrepreensível, com um espírito solidário, com um perfil inovador, com uma atitude arrojada, com uma vida dedicada aos outros, enfim… algumas destas descrições aparecem sempre nos obituários.

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Pois é. E isso chega a ser irritante.

Parece que fica mal dizer mal dos mortos, quando, na verdade, não seria dizer mal dos mortos, mas antes descrever o tipo de pessoas que foram. Parece que nos sentimos na obrigação de dizer coisas bonitas para que ‘passem para o outro mundo’ num manto de coisas boas e para que os seus supostos pecados não interfiram com a vida eterna. A verdade é que, com a exceção daquelas figuras públicas que cultivaram, em vida, um certo mau feitio, em que a sua imagem de marca passava mesmo por esse rótulo de pessoa insuportável… com a exceção desse tipo de pessoas, todas as outras são só virtudes.

Estás a esquecer-te de gente como os criminosos de guerra. Esses também não são poupados no momento da morte.

Pois não, mas esses são mesmo exceções. Aqui a conversa é sobre aquele tipo de pessoas que, sendo figuras públicas, mais ou menos conhecidas, quando são recordadas por quem as conheceu só o são pelo lado bom. Raramente alguém conta um episódio desconfortável ou polémico sobre quem acaba de morrer. Raramente alguém lembra aquela tomada de posição pouco abonatória. Raramente alguém refere injustiças ou crueldades supostamente levadas a cabo por quem acabou de desaparecer…

Talvez as maldades sejam em menor número do que as bondades. Digo eu!

O certo é que a maioria das pessoas só conhece uma faceta da vida dos outros. Raramente conhecemos os outros na sua plenitude. Mesmo quando vivemos muito próximo uns dos outros. Escondemos muitas coisas das nossas vidas. Talvez por isso as coisas más que todos fazemos não sejam conhecidas da generalidade das pessoas… Para além disso, os outros interpretam a nossa vida à luz dos seus valores e dos seus princípios.

É verdade, essa coisa do conhecimento que temos das pessoas e da forma como interpretamos a informação que sobre eles temos tem muito que se lhe diga. Acabou de morrer um homem elogiado por imensas pessoas. Um exemplo. Homem extraordinário. Próximo das origens. Independente dos poderes políticos. Próximo das origens. Um exemplo. Homem extraordinário. Criador de riqueza. O maior empresário.

Esse é o discurso formal de quem faz opinião, que conheceu quem desapareceu num certo enquadramento profissional, digamos que de alto nível. E acredito que, neste caso concreto, assim seja. Em vida foi isso que dele ouvi dizer, inclusivamente de pessoas que o conheciam.

Mas há sempre um outro lado da questão. Basta abrir as caixas de comentários que os jornais têm online para percebermos que há pessoas com muitas outras sensibilidades e opiniões.

Lá está… porque veem a pessoa sob uma outra perspetiva. Provavelmente, a perspetiva do funcionário que recebia o ordenado mínimo e que, como todos nós, achava que devia receber mais… O que eu sei é que estamos a falar do Homem que, para além da sua história de vida e da sua visão do mundo empresarial, permitiu a criação de um projeto de Comunicação único no jornalismo que fez toda a diferença neste país, sempre com prejuízo.

E isso justifica o discurso do “tudo nele era bom”?…

Para mim, é o suficiente, para além de todos os postos de trabalho que criou! Se teve os tais maus momentos que eu acho que todos temos, serão pouco relevantes. Por isso, talvez desta vez o discurso do “tudo nele era bom” seja dos mais justos que se têm feito. Curiosamente, no meio de tanto comentário unicamente positivo, uma das pessoas que lhe apresentou a ideia desse projeto jornalístico também mostrou o outro lado: “Ele era determinado, frontal, incisivo – e por vezes um pouco difícil de aturar, como se imaginará…” Não o conheci, mas suspeito que o ‘tio Bel’ gostaria muito mais de ser lembrado assim… com honestidade.

Professora e diretora da licenciatura em Comunicação Social da Escola Superior de Tecnologia de Abrantes (ESTA), do Instituto Politécnico de Tomar, doutorou-se no Centre for Mass Communications Research, da Universidade de Leicester, no Reino Unido. Foi jornalista do jornal Público e da Rádio Press. Gosta sobretudo de viajar, cá dentro e lá fora, para ver o mundo e as suas gentes com diferentes enquadramentos.
Escreve no mediotejo.net à quinta-feira.

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