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Quinta-feira, Setembro 23, 2021

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Saúde Mental | Centro Hospitalar tem o dobro dos casos e metade dos médicos na Pedopsiquiatria

A pandemia fez disparar os casos de crianças e jovens a necessitarem de acompanhamento psiquiátrico e o CHMT não está a conseguir dar resposta célere a tantos pedidos. Uma adolescente com historial de tentativas de suicídio denunciou ao nosso jornal estar há 6 meses à espera de retomar as consultas.

Desde o início da adolescência que Joana (nome fictício), atualmente com 17 anos, luta contra uma depressão. No seu historial clínico contam-se duas tentativas de suicídio mas o seu mundo interior ia-se reorganizando, a pouco e pouco, a cada vez que percorria os corredores do Hospital de Tomar, nas consultas de Pedopsiquiatria, de 15 em 15 dias.

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Contudo, há seis meses deixou de ter acompanhamento. Tinha uma consulta agendada em fevereiro e faltou “porque estava em isolamento” devido à covid-19, como explica ao nosso jornal. Desde essa data não viu a consulta remarcada nem houve resposta aos múltiplos apelos dos dos pais, da psicóloga da escola, da assistente social e da Comissão de Proteção de Crianças e Jovens – que acompanham o seu caso e insistiram com o CHMT pedindo ajuda numa marcação célere de nova consulta, durante meses. A situação, denunciada pela família, foi confirmada pelo mediotejo.net junto das entidades que acompanham a jovem.

Na semana passada, a adolescente do concelho de Sardoal confidenciava sentir-se mal e ter “a cabeça cheia de maus pensamentos”. Preocupava-se também com a saúde mental da mãe, “que já perdeu um filho e teme perder outro”, desabafou.

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A sua medicação, dizia, talvez precisasse de ser reajustada. E contactou o nosso jornal já em desespero, procurando uma luz ao fundo do túnel, tendo depois feito também uma partilha do seu caso nas redes sociais.

Joana já tentou suicidar-se duas vezes e, sem consulta com a sua psiquiatra desde fevereiro, lançou um pedido desesperado de ajuda. Tem medo de não conseguir controlar a sua cabeça, “cheia de maus pensamentos”

No dia seguinte foi de urgência para o Hospital de Torres Novas devido a uma crise de ansiedade. É aí que há meses funciona o Centro de Desenvolvimento da Criança, “transferido provisoriamente do Hospital de Tomar devido a contingências que derivam da pandemia”, justifica ao mediotejo.net o Centro Hospitalar.

Aí conseguiu fazer-se ouvir e explicar os seus receios à sua médica, embora apenas ao final da tarde, quando a psiquiatra teve tempo para a receber. A sua medicação foi alterada e os serviços marcaram-lhe nova consulta para o dia 24 de agosto. Mas, entretanto, essa consulta foi cancelada.

O CHMT esclarece ao nosso jornal que “o Centro de Desenvolvimento da Criança não suspendeu atividade durante a pandemia”, mas reconhece que saíram dois médicos da especialidade em 2020, havendo agora apenas dois médicos com essa valência na Pediatria, apoiados por um psicólogo, num período em que a procura aumentou consideravelmente – a pandemia fez disparar os casos de crianças e jovens a necessitarem de acompanhamento psicológico, admite o CHMT. Nas unidade do Hospital Universitário de Coimbra e no Dona Estefânia, em Lisboa, são referidos aumentos na ordem dos 50%, valor que é referido por vários especialistas como sendo a referência do que se passa a nível nacional, havendo um crescimento preocupante de tentativas de suicídio, crises de ansiedade e desordens graves de comportamento alimentar.

“Por já estar fechado o procedimento concursal não foi possível proceder ao pedido de vaga para esta especialidade no ano corrente. O procedimento será iniciado assim que tal seja possível, esperando-se que o concurso não fique deserto, pois são muitas as dificuldades em contratar médicos nesta especialidade”, justifica ainda o CHMT.

Atualmente, “há 346 utentes” menores em seguimento, “existindo uma lista de espera de 64 doentes”, mas “nenhum em espera há mais de seis meses”, afirma a administração, referindo que esses “são dados que podem ser confirmados na plataforma dos Tempos Médios de Espera, do Serviço Nacional de Saúde”.

Contudo, além da dificuldade na marcação de uma primeira consulta, alguns casos em “seguimento”, como o de Joana, não têm sido acompanhados com a necessária frequência ou foram suspensos, sem nova remarcação de consulta, apesar das múltiplas insistências dos pais. É também o caso de Raquel (nome fictício), de 10 anos, residente no concelho de Abrantes, sem acompanhamento desde novembro de 2020, ou seja há 9 meses, refere a sua mãe, mostrando a documentação que o comprova.

Foi na primavera de 2020 que Raquel iniciou acompanhamento no serviço de Pedopsiquiatria no Hospital de Tomar, por indicação do médico de família. Após vários meses de confinamento, sem escola nem outras crianças por perto para brincar, manifestava alterações no comportamento, ataques de ansiedade, intolerância ao isolamento e pedia ajuda.

“Começou a agredir-se sempre que era contrariada. Dava estalos a ela própria, atirava objetos ao chão, mandava tudo pelos ares e gritava”, conta a mãe que, perante tais sinais de alerta, procurou ajuda.

Raquel, de 10 anos, não lidou bem com o confinamento. “Começou a agredir-se sempre que era contrariada, dava estalos a ela própria, atirava objetos ao chão, mandava tudo pelos ares e gritava”, conta a mãe

Com as consultas de Pedopsiquiatria, “sem ter sido medicada, bastavam as conversas com a médica” e Raquel sentia-se “muito melhor, mais tranquila”. Regressava a casa “ansiando pela próxima consulta”, acrescenta.

Mas as consultas, que inicialmente era quinzenais, passaram a ser mensais, tendo decorrido a última no dia 5 de novembro de 2020. Estava agendado novo encontro com a pedopsiquiatra para o dia 3 de dezembro mas foi cancelado, não tendo havido remarcação até ao momento, apesar da insistência dos pais, através de telefonemas para o Hospital de Tomar e de e-mails enviados para a médica que a acompanhava. “Não tive qualquer resposta, nenhuma justificação”, lamenta a mãe de Raquel.

O impacto do confinamento

A pandemia agravou os problemas de saúde mental na população portuguesa, e de forma muito particular os mais novos. Tal como os adultos, as crianças e adolescentes tiveram de se adaptar a um mundo diferente, mas sem as armas que a maturidade e uma maior experiência de vida conferem.

Além de terem de adaptar-se repentinamente a novas rotinas, com a escola em casa, os longos períodos de isolamento e o medo de uma doença desconhecida e potencialmente mortal vieram a revelar importantes impactos psicológicos.

Segundo o CHMT, “a pandemia, além dos constrangimentos que provocou ao nível do Centro de Desenvolvimento da Criança, em particular com a mudança provisória para a Unidade de Torres Novas, provocou um crescimento de casos de crianças e adolescentes que deram entrada no Serviço de Urgência, alguns com necessidade de internamento no Serviço de Pediatria”.

Além dos casos de Urgência, “os doentes para consultas de Pedopsiquiatria chegam, como para as restantes especialidades, na sua maioria referenciadas pelos Cuidados de Saúde Primários. A triagem é feita pelos especialistas e é atribuída uma prioridade de acordo com a condição clínica do doente”, explica o CHMT.

“Passada a fase mais crítica da pandemia, está o CHMT a adequar os seus recursos a este período pós-pandémico. A maioria dos serviços voltou aos seus espaços de origem existindo, no entanto, necessidade de readaptação de espaços”. Prevê-se o regresso do Centro de Desenvolvimento da Criança à Unidade Hospitalar de Tomar nas primeiras semanas de setembro.

No âmbito desta reestruturação, o Conselho de Administração assegura estar a estudar “a possibilidade de as consultas de desenvolvimento poderem começar a ser efetuadas nas três Unidades do Centro Hospitalar do Médio Tejo”, ou seja, além de Tomar, também Abrantes e Torres Novas, o que permitirá dar uma resposta mais célere às crianças e jovens que esperam por consultas.

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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