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Sábado, Outubro 23, 2021

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Saúde | Há quanto tempo não bebe uma bica?

A bica fazia parte da nossa vida social, ajudava-nos a acordar e a ter energia ao longo do dia. E agora? Como (sobre)vivemos sem os cafés que costumávamos beber? E quando pudermos voltar a pedir uma italiana, escaldada ou sem princípio, devemos ter cuidados especiais? O mediotejo.net falou com o nutricionista João Rodrigues, professor universitário e autor do livro “Duelos de alimentos” (Ed. Marcador), que explicou de que forma, no regresso à rotina, podemos manter uma relação mais saudável com a cafeína.

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Em situação de confinamento, com a nossa vida social limitada e a maioria dos estabelecimentos fechados, o consumo de café dos portugueses mudou radicalmente. Em casa não é a mesma coisa… as máquinas profissionais servem um café com doses de cafeína mais concentradas e a temperaturas muito superiores às que as máquinas que temos em casa (por melhor que sejam) podem alcançar.

“O café traz-nos várias dimensões, além da parte nutricional. Poderá haver algumas parecenças com a bica porque em muitas casas já encontramos máquinas de café expresso. Claro que para os apreciadores de café é sempre diferente”, diz o nutricionista João Rodrigues. Note-se que, no contexto da pandemia, a problemática da chávena que habitualmente variava entre escaldada, quente ou fria, agora não se coloca. Como medida preventiva, o café passou a ser servido apenas em regime de take away e em copos descartáveis de papel ou de plástico, o que para os apreciadores “não é a mesma coisa”.

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É inegável que a bica “dá-nos a dimensão de socialização e de rotina associadas a bem estar psicológico e conforto. Há uma diferença enorme porque beber café em casa no contexto de confinamento social é diferente de socializar, mesmo que estejamos sozinhos no café”, avalia João Rodrigues.

No entanto, para o autor do livro “Duelos de alimentos”, que acaba de ser lançado, o isolamento provocado pela covid-19 não reduziu o “vício” em café nos portugueses, apesar da inexistência de estudos atuais sobre o seu consumo em Portugal. Em rigor, o nutricionista desconhece “se o vício desapareceu, diminuiu ou até aumentou porque estando em casa a possibilidade de consumir café quando nos apetece” é maior. “O modo de consumo e a necessidade de beber café em determinadas alturas do dia pode estar alterada”, diz.

O nutricionista João Rodrigues. Créditos: DR

Em período de quarentena, João Rodrigues reconhece a dificuldade de manter as rotinas existentes antes do confinamento social. Falando da alimentação, onde inclui bebidas como o café, considera haver um cenário favorável à alteração de hábitos porque “não estamos sujeitos ao rigor dos horários, preparamos as refeições e temos uma disponibilidade alimentar diferente”. Alerta, contudo, para o consumo excessivo de cafeína por ser estimulante e causar dependência.

Aconselha por isso à manutenção de rotinas que contribuam “para o nosso bem estar e para o humor, que já está suficientemente abalado com esta crise global que estamos a viver”. No fundo, à criação de “um padrão para o café, seja em termos de quantidade ou de periodicidade, equivalente às rotinas anteriores” e, neste conselho, inclui a preparação para o regresso às atividades diária existentes antes da pandemia.

No que toca à irritabilidade e às variações de humor, até por estarmos com o pensamento na epidemia, João Rodrigues considera que o café “pode ajudar”, principalmente os seus consumidores habituais. Em período de confinamento, o nutricionista defende uma atenção especial a certas rotinas. Alerta que no atual cenário, para descanso psicológico é natural “irmos buscar bebidas ou alimentos de conforto” com um papel “importante” na estabilização do nosso humor.

O nutricionista teme que no regresso à normalidade o excesso seja uma realidade.

No que concerne à quantidade ideal diária de café expresso diz não haver um número consensual mas o valor aconselhado prende-se com valores até às 400 miligramas de cafeína, ou seja, cerca de cinco cafés como limite máximo, embora as características individuais de cada pessoa também contem nesta equação.

Destaca que tais valores “não contemplam a situação de gravidez, na qual deve haver o cuidado de reduzir o consumo” desta bebida e, embora a Organização Mundial de Saúde refira dois cafés por dia, considera “prudente” que as grávidas se fiquem por um.

Os seus efeitos devem-se, em grande parte, à cafeína encontrada nos seus grãos. Curiosamente os estudos indicam que são maiores os benefícios para a saúde do que os malefícios.

João Rodrigues dá conta de “um background científico consistente” quanto aos benefícios. Estudos revelam que “o consumo de café está associado a uma menor mortalidade, independentemente da causa, parece haver um benefício, em vários fatores de risco, associado ao consumo de café. Claro que dependendo da dose e das características da pessoa”.

O café revela ainda potencial antioxidante, contém substâncias químicas da planta que dá à bebida a amargura e o cheiro característicos. “Há vários compostos antioxidantes no café que podem diminuir o risco de danos nas nossas células, nomeadamente diminuir o risco de aparecimento de doenças crónicas como cardiovasculares, diabetes tipo 2, e apresenta marcadores anti-inflamatórios. Algo que pode ter um grande impacto na saúde pública” nota.

Por outro lado, o nutricionista destaca três malefícios diferentes, desde logo “a dependência, e sendo estimulante pode alterar o sono, e ainda o aumento da pressão arterial, nas pessoas que consomem café” esporadicamente.

Quanto à alimentação, notícias recentes deram conta que a ansiedade provocada pelo isolamento social está a levar a um maior consumo de comida pouco saudável. João Rodrigues justifica essas práticas com “a angústia e a incerteza no futuro. Neste momento em que estamos privados da nossa liberdade sentimos falta do que tínhamos. Quando nos refugiamos na comida procuramos os alimentos de conforto que nem sempre são os mais saudáveis, basta pensar no chocolate”, justifica.

Por outro lado, o confinamento dá aos confinados “uma maior disponibilidade alimentar. Fora de casa estamos limitados ao que levamos para comer, nas pausas do trabalho. Em casa podemos estar sempre rodeado de comida e aumentar o consumo”, observa.

Além disso, em casa “temos uma vida mais sedentária, o que implica ajustes na nossa alimentação. Não podemos ter a pretensão de mantermos a mesma alimentação de quando tínhamos mais atividade. Significa que a balança está desequilibrada e pode levar ao excesso de peso” de uma grande maioria da população.b

João Rodrighgues, autor também do blogue “Mundo da Nutrição”, classifica o atual momento como “chave” sendo “ideal para criarmos uma relação saudável” com os alimentos que ingerimos. Agora “temos tempo para investir na alimentação, de melhorar os aspetos que muitas vezes por causa do stress do dia a dia não temos oportunidade de fazer”. E isso passa por “testar novas combinações, testar novos alimentos, aprender a comer melhor e transformar isso hábitos que se mantenham no futuro quando voltarmos à nossa vida ativa”.

No livro que agora publicou, o leitor encontra duelos entre alimentos, que, de uma forma simples e objetiva, permitem destacar quais são as características nutricionais mais interessantes de cada um dos alimentos envolvidos. Mais importante do que dizer que um alimento é melhor do que o outro, pretende dar ao leitor informação para o auxiliar a tomar a melhor decisão nas diversas escolhas alimentares diárias.

Se tivesse que definir numa palavra o que é alimentação saudável, João Rodrigues escolhia “variada”, exatamente para “podermos retirar tudo de bom que os alimentos nos dão”.

Sobre o autor
João Rodrigues é licenciado em Ciências da Nutrição, licenciado em Bioquímica, doutorado em Ciências Biomédicas e possui agregação em Medicina Dentária. É docente do ensino superior na Universidade do Porto, no Instituto Politécnico do Porto e no Instituto Politécnico de Viana do Castelo. Exerce prática clínica como nutricionista em Viana do Castelo, Ponte de Lima e Caminha; ainda autor do blogue Mundo da Nutrição e da rubrica diária Dicas de Nutrição na Rádio Geice (rádio de Viana do Castelo). Assume-se como um nutricionista apaixonado pelo mundo da alimentação e da nutrição. Acredita que é no presente que se define grande parte do futuro, e que a alimentação, um fator chave para se preservar a saúde, prevenir doenças e, acima de tudo, para se ser feliz. Se somos o que comemos, escolha ser saudável.

 

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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