SAÚDE: ‘Bora lá falar de piolhos?

Com o regresso às aulas, o problema dos piolhos volta a estar na ordem do dia. Uma chatice e uma preocupação sobretudo para os pais de crianças mais novas. Segundo um estudo da Universidade Nova de Lisboa, realizado em 2011, 30 a 50% das crianças entre os três e os 12 anos estão infestadas com piolhos, em Portugal. Contas feitas, cerca de 250 mil crianças precisarão de mais de 40 mil frascos de loções ou champôs para eliminar estes parasitas. Como revelaram estes investigadores, partindo do custo médio de 15 euros por frasco de tratamento, só com os alunos do 1.º ciclo serão gastos cerca de sete milhões de euros com este problema, todos os anos.

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Os piolhos são pequenos, irritantes, incomodativos e muito indiscretos. Além disso, parecem estar mais resistentes a alguns inseticidas presentes nos tratamentos (nos Estados Unidos fala-se já de “super-piolhos”). Mas podemos vencê-los? Sim, podemos. Quem o assegura é o médico Rui Calado, médico epidemiologista e especialista em saúde pública no Agrupamento de Centros de Saúde (ACES) do Médio Tejo.

“Os piolhos são um problema de saúde. É uma doença, a pediculose, e como tal é preciso tratá-la. Mas o melhor, mesmo, é preveni-la porque com prevenção é possível evitar os piolhos. Mas é isso que as pessoas fazem pouco e é preciso que se faça, especialmente quando as crianças e os adultos estão mais juntos”, destaca.

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A pediculose da cabeça é uma doença parasitária, causada pelo Pediculus humanus var. capitis, vulgarmente chamado de piolho da cabeça. Atinge todas as classes sociais, afetando principalmente crianças em idade escolar e mulheres. A comichão é um dos primeiros sintomas, mas há outros a que os pais têm de estar atentos, uma vez que o material expelido pelos insetos entra na corrente sanguínea e pode provocar febre baixa, mal-estar, cansaço e desinvestimento escolar.

São “parasitas que se colocam na cabeça (e não só) e são de fácil contágio”, observou Rui Calado, tendo feito notar que, nas escolas, “é muito importante que se trate deste assunto com seriedade porque entendemos que cada vez mais é importante promover e tratar os aspetos da afetividade nas escolas. E estas coisas não podem ser impeditivas da aproximação de pessoas, do contacto entre as pessoas”, defende.

“E esse contacto deve ser feito entre pessoas não portadoras de piolhos, porque se forem, vão passar piolhos de uns para os outros, independentemente dos hábitos de higiene de cada um”, sublinha, lembrando os medicamentos – champôs e sprays – disponíveis nas farmácias para tratar o problema.

"Pediculus humanus var. capitis", ou piolho da cabeça
“Pediculus humanus var. capitis”, ou piolho da cabeça

Os piolhos têm entre 0,5 e 8 mm de comprimento, corpo achatado e garras que lhes permitem a fixação ao hospedeiro. Cada fêmea produz cerca de 150 a 300 de ovos. Estes ovos estão envolvidos numa substância semelhante ao cimento, com grande poder de fixação. O período entre a postura da lêndea e a saída de um novo piolho é de cerca quatro dias. Depois, um piolho pode viver 45 a 54 dias.

São insetos sem asas, visíveis, que se transmitem facilmente de pessoa para pessoa através do contacto corporal ou depois de partilharem roupa e outros elementos pessoais. Os piolhos que se encontram na cabeça são muito semelhantes aos que se localizam no corpo, mas na realidade são espécies diferentes.

Transmitem-se por contacto pessoal e pela partilha de pentes, escovas, chapéus e outros objetos pessoais. A infestação estende-se, por vezes, às sobrancelhas, às pestanas e à barba. São um tormento para as crianças de idade escolar, seja qual for o seu estrato social.

O médico especialista afirma que, quando aparecem, “é preciso combatê-los, tratar a doença, e tirar as lêndeas, que têm os ovos”.

“Matar os piolhos é rápido, basta que o tratamento seja bem feito e que os ovos sejam retirados”, um processo mais moroso e sempre manual, mas crucial “para que não volte tudo atrás”, observou, tendo feito notar que as lêndeas são muitas vezes resistentes ao tratamento químico e que, por isso, o problema pode persistir. Para as eliminar, os pais devem escovar o cabelo das crianças com um pente fino de metal, diariamente.

“É necessário que todos colaborem e que todos façam o tratamento, de preferência simultaneamente, porque não há uma vacina para esta doença que, sendo contagiosa, deve fazer com que as crianças fiquem em casa e não vão à escola. E o tratamento até pode ser feito durante um fim de semana”, observa.

“Mas é imperioso que todos colaborem no exercício dos seus deveres de cidadania”, insiste, pois “ninguém tem o direito de prejudicar os outros”.

Importa, portanto, “que se fale do assunto, que os pais estejam atentos e avisem as escolas, quando for caso disso, e não deve ser vergonha nenhuma, porquanto o contágio atinge todas as classes sociais de igual modo e este é um problema que só pode ser resolvido com a ajuda e colaboração de todos”.

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Regras para um tratamento eficaz:

    • Deve aplicar-se o tratamento sempre de acordo com as instruções – e a toda a família. O procedimento deve ser repetido oito dias depois, passando-se diariamente o pente fino para retirar lêndeas e piolhos mortos.
    • É necessário lavar as roupas (com especial atenção a chapéus, lençóis, almofadas, edredões, cobertores e forros de cadeiras do automóvel) – a temperaturas superiores a 60 graus ou a seco. O que não puder ser lavado, deve ser fechado dentro de um saco plástico durante 15 dias ou 24 horas numa arca congeladora.
    • As medidas de vigilância devem manter-se durante um mês, na escola e em casa.
    • Se o tratamento aos parasitas for ineficaz ao fim de três utilizações, deve experimentar outro. Para grandes infestações e que se mantenham durante muito tempo, há preparados com prescrição médica, como a Ivermectina e o Cotrimoxazol.
    • A utilização de soluções naturais, como o vinagre, podem ser usadas mas como complemento ao tratamento. O vinagre ajuda a desprender as lêndeas. Contudo, deve ser misturado com água (uma medida de vinagre e duas de água) para não provocar irritação no couro cabeludo.
    • Se não tiver capacidade financeira para comprar os tratamentos na farmácia, deve expor o seu caso ao Centro de Saúde e/ou ao agrupamento escolar. Existem verbas públicas para a comparticipação destes produtos, em caso de comprovada dificuldade económica.
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Mário Rui Fonseca
A experiência de trabalho nas rádios locais despertaram-no para a importância do exercício de um jornalismo de proximidade, qual espírito irrequieto que se apazigua ao dar voz às histórias das gentes, a dar conta dos seus receios e derrotas, mas também das suas alegrias e vitórias. A vida tem outro sentido a ver e a perguntar, a querer saber, ouvir e informar, levando o microfone até ao último habitante da aldeia que resiste.
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