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Segunda-feira, Agosto 2, 2021

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Semana Santa do Sardoal | A Igreja da Misericórdia

A Igreja da Misericórdia foi construída no princípio do século XVI, sendo o compromisso da Irmandade de 1509. Segundo a pesquisa de Manuel Luís Gonçalves, no ano de 1370, quando o Rei D. Fernando e a Rainha D. Leonor de Teles, então a viverem nesta zona, fugindo da peste que então grassava em Lisboa e esperando, ao mesmo tempo, que serenassem os ânimos populares bastante agitados com o casamento do seu Rei, ali mandaram erguer uma capela, perto da primitiva Matriz, a Igreja de S. Mateus, que ficava quase em frente.

I1Já Serrão da Motta, no século XVIII fez referência a este templo dizendo o seguinte: “(…) Continuou, enfim, tanto a devoção dos moradores desta Vila, em grandiosas dádivas, com que muitas pessoas, por sua morte, enriquecendo a dita Confraria, que as posses vieram a superar as despesas e sem faltar com o que a caridade pedia com os pobres, se compraram mais umas casas que foram de Álvaro do Casal, que foi Provedor do Hospital dos Mancos da cidade de Lisboa, segundo consta de um truncado pergaminho do Arquivo da Câmara e onde depois morreu aqui pobremente, ali no lugar das ditas casas, acrescentando-se com elas e uma tal capelinha fabricaram a Igreja e Sacristia, como hoje existe, sendo Provedor da Confraria: Simão Dias, Escrivão: Diogo Lourenço Panasco e Procurador: Simão Vaz, criado de D. António de Almeida e Mordomo: Fradique Lopes, os quais no ano de 1552 fizeram arrematar a dita obra, com o portal que tem de pedra de Coimbra e arco da capela a dois oficiais da mesma cidade, por 120 mil réis e certas condições. No mesmo ano entrou Gil Vaz, também cavaleiro, por Provedor e Rodrigo de Parada, por Escrivão, mandaram fazer o pátio e degraus na forma que hoje se acham e custaram 17 mil réis, sendo os oficiais desta Vila e a pedra de Cabeça das Mós, termo dela. A milagrosa imagem do Santo Crucifixo que com devoção foi ele em todos os tempos venerado e por quem este povo foi socorrido nas preces com que lhe suplicava remédio dos bens temporais, quando se viam perecer por falta de chuvas, foi havida pela devota piedade de Margarida Pinta, senhora nobre desta Vila, para cujo único fim deixou à Confraria 80 mil réis, entre muitas coisas mais.”

Este magnífico templo teve durante décadas a sua autoria atribuída primeiro a Nicolau de Chanterene, importante escultor de origem francesa que esteve a desenvolver trabalho em Portugal, em especial Coimbra, de 1517 a 1551; segundo a João de Ruão, arquiteto e escultor da renascença, de origem francesa, com trabalho registado em Portugal entre 1528 e 1580.

No ano de 2010, com o aparecimento do Livro Primeiro da Misericórdia de Sardoal, transcrição do Professor Doutor João José de Lemos da Cunha Matos, deu-se um passo importante para o estudo e compreensão do templo e desta Confraria, sendo possível ler a nota de encomenda da empreitada, onde se solicita a João de Castilho a arquitetura desta Igreja.

I2João de Castilho foi um vulto da arquitetura portuguesa no Séc. XVI, que na altura estava a trabalhar na charola do Convento de Cristo, em Tomar.

Por ser pertinente para o entendimento da gênese desta obra, transcreve-se de seguida um excerto.

“E logo em 27 de Julho de 1550 (fl.83v) ante as elevadas quantias em numerário de que a Misericórdia dispunha e a proibição régia para poder empregá-la na compra de rendas ou de propriedades, os confrades decidem fazer obras a vultuosas na sua Casa. Como primeiro passo concordaram em mandar recado a Tomar para «pydyr a Joan de Castylho que quysese vyr» ao Sardoal «a ver esta casa ou mandar hum ofycyall que ele confyase para com o seu conselho se fazer a dita obra». O risco chegou célere, pois em14 de Agosto desse ano de 1550 (fl, 84v), já se reporta que João de Castilho mandara dois oficiais que «vyrão  a obra  e colherão o que lhe melhor parecia» e de tudo deram conta a João de Castilho que «mandou a traça della e sua detrymynação he que se mude  a capella para as casas que fora  de Álvaro do Casall e que se fyzesse hum portal de pedraria de pedra de Tomar com um debuxo que nos diso mandou», Logo uns dias depois, em 31 de Agosto de 1550 (fl, 85v), compareceu perante a Mesa«Lucas Fernandez, pydreyro, que disse ser natural de Coimbra» que declarou ter tomado conhecimento, «pelos escrytos que eram postos  nas ygrejas de Abrantes e doutras vyllas»  que a Santa Casa pretendia fazer aquela obra e, por isso  vinha ele apresentar o seu lanço. Os mesários esclareceram-no de tudo o que pretendiam que se fizesse, informando-o, até, que «certos hofycyays de Tomar» já tinham feito um lanço de 120 mil réis sendo o portal «da pedra de Tmar posta em Tamqos», enquanto que a do cruzeiro e a dos degraus seria em pedra do Sardoal, ficando a Misericórdia com o encargo de «arrancar e po-la ao pé da obra» (fl. 86). Lucas Fernandes declarou então que aceitava todas as condiçºoes e que, além disso, faria «o arqo do cruzeyro e o portado todo de pedra de Coymbra posta à sua conta no rio de Codes à borda d’água, a saber, a foz do Codes», tudo isto, embora, depois de ter pedido muito mais dinheiro, pelos referidos 120 mil réis.

Do que fica dito, parece poder concluir-se que João de Castilho fez muito rapidamente o risco da nova igreja, baseando-se exclusivamente nas informações que os seus oficiais lhe transmitiram, e que, depois, Lucas Fernandes lhe deu esmerada execução.

(,,,) Em 2 de Fevereiro de 1552 (fl,. 396v), voltamos a ter notícias sobre a fábrica da Igreja da Misericórdia. Desta vez a propósito  do acordo estabelecido entre a Mesa e os pedreiros Gaspar Dinis, João Fernandes e Diogo Fernandes, moradores no Sardoal, aos quais é dada de empreitada a construção dos «degraos da porta pryncypal da dita Casa da Misericórdia» especificando-se entre muitas outras coisas que «hão-de ser três hentradas com seu taboleiro em cima e sendo quantos forem neçeçaryos quaes hão-de ser de pedrarya dos Cabeços das Mós, r serão de pedra rija», tudo pelo preço de 12 mil réis. Um mês depois, em 19 de Março, acordam os mesmos que «além da obrigação que hatrás está feita» os pedreiros «sejão obrigados a fazer mais três degraos pela banda de cyma todos torneados», para além dos cinco  que já estavam anteriormente determinados, e isto «por acharem que sãoo muito necessários pela maneira correnteza  que tinha a rua e ficariam os degraus muito íngremes». Esta correcção do projecto inicial iria custar mais 5 mil réis. E em 8 de Maio de 1552 (fl. 199), «por ora eles hos ditos degraos serem de todo acabados», a Misericórdia procedeu ao pagamento integral dos referidos 17 mil réis.

Ainda nesse ano de 1552 (fl. 199v) temos notícia da verba de um testamento em que a quantia de 3 mil réis e deixada «para huns órgãos os quais se farião quando se acabasse as obras da dita Casa ou quando em essa os mandassem fazer.”

Esta igreja é constituída por uma nave e capela-mor, com teto em madeira policromada, o seu interior é soberbamente decorado com pormenores do século XVIII, que nos ressaltam à vista.

Na nave principal existe um conjunto azulejar do século XVIII com degradé de azuis Cobalto e Prússia, nos motivos vegetalistas (albarradas), conferindo equilíbrio ao espaço. Mas é na capela-mor que a exuberância estilística da época nos preenche os sentidos. O retábulo-mor, barroco, refinadamente entalhado, onde as fénix, os cachos de uva, as flores de Liz, entre nuances mate e brilho das folhas metálicas (ouro) nos preenchem o imaginário artístico da época.

I3Do lado do evangelho encontramos um retábulo-menor, também do século XVIII, não tão exuberante, adivinhando já o estilo que lhe seguiria, o rococó. Do lado da epístola podemos ver um conjunto azulejar do Séc. XVIII, iconograficamente retratando a cena do Lava-pés, com tons vinhosos e azuis e com Trompe-l’oeil. Neste período o horror ao vazio fazia com que o espaço fosse simetricamente preenchido.

É no seu exterior, mais precisamente no seu portal que podemos admirar uma das joias da Renascença na região. Este magnífico portal da autoria de João de Castilho e de lavor de Lucas Fernandes é de uma singeleza, equilíbrio que só está ao alcance de grandes mestres e da macieza da pedra de Ançã.

Com friso e pilastras de grande recorte decorativo, que balizam o arco de volta perfeita ladeado pelos medalhões com bustos. A arquitrave é encimada por um edículo escultórico onde se representa Nª Srª da Misericórdia e respetivos acompanhantes, o clero de um lado, a nobreza do outro e a plebe ao centro, acolhendo-se sob o seu manto protetor.

No portal lateral podemos ainda lançar o nosso olhar sobre um portal ao estilo manuelino e uma friesta na mesma linha decorativa.

Esta igreja é por todos estes motivos um claro exemplo de mestria escultórica e harmonia arquitetónica onde poderão apreciar quer a perspicácia do arquiteto, que no seu processo criativo compreendeu a geografia do espaço, quer a destreza do canteiro que trabalhou tão subtilmente a sua matéria-prima, a pedra de Ançã.

* Visita guiada, textos e fotos de João Soares e Maria Jorge Rocha, Técnicos Superiores de Conservação e Restauro do município de Sardoal.

A experiência de trabalho nas rádios locais despertaram-no para a importância do exercício de um jornalismo de proximidade, qual espírito irrequieto que se apazigua ao dar voz às histórias das gentes, a dar conta dos seus receios e derrotas, mas também das suas alegrias e vitórias. A vida tem outro sentido a ver e a perguntar, a querer saber, ouvir e informar, levando o microfone até ao último habitante da aldeia que resiste.

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