Sardoal | Universidade Sénior afasta a solidão e promove a alegria (c/fotos e video)

Universidade Sénior de Sardoal. Exibição das fitas USS

Talvez envelhecer seja mesmo “a coisa mais poética do mundo: até os olhos ficam entre aspas. Deve ser porque entre a infância e a velhice há um instante chamado vida”. A consideração é de Edna Frigato citada, esta sexta-feira, 8 de junho, durante a festa encerramento do ano letivo da Universidade Sénior de Sardoal (USS). Embora as aulas apenas terminem a 29 deste mês, professores e alunos celebraram mais um ano de encontro, amizade e aprendizagem.

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Naquela Universidade para “jovens com mais de 55 anos” como gosta de sublinhar o reitor Miguel Borges, frequentada por 84 alunos, o objetivo principal é o envelhecimento ativo da população, uma finalidade claramente ultrapassada pela união de vidas, muitas vezes solitárias, que a Universidade representa.

É precisamente o convívio que leva os séniores até à Universidade, porque se os estudos, à primeira vista, parecem conclusivos, os anos de aprendizagem sucedem-se sem alunos com vontade de terminar e, naturalmente, sem a preocupação do mercado de trabalho. O momento agora é de socializar!

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Universidade Sénior de Sardoal. Peça de teatro ‘Velhos São os Trapos’

E a socialização é um fator essencial na vida dos idosos. Estudos mostram que os laços sociais construídos ao longo da vida revelam-se de extrema importância na terceira idade, mais do que a carreira profissional, o dinheiro ou a educação. Sabe-se que o isolamento corroí a alma e o corpo. Com o aumento da esperança média de vida, a Europa, nomeadamente Portugal, ainda mais no Interior do País, observa a formação de uma multidão de gente solitária, isolada, abandonada à sua sorte. Daí o investimento nas pessoas que faz a Universidade Sénior de Sardoal, com uma única meta a atingir “serem felizes!”, explicou ao mediotejo.net o reitor Miguel Borges.

“O que temos notado é o rejuvenescimento ativo. Uma grande alegria nos alunos da Universidade Sénior. Alegria com que fazem as suas atividades, alegria com que estão em conjunto, com que interagem, com que aprendem”, refere o também presidente da Câmara Municipal de Sardoal.

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A terceira idade é um período de várias transformações, marcado na maioria das vezes por várias perdas e nos últimos anos, vários estudos têm apontado para a existência de uma relação entre a solidão e a incidência de doenças crónicas em idosos. Para mitigar essa realidade desenvolvem-se programas de combate à solidão na terceira idade.

Universidade Sénior de Sardoal. Peça de teatro ‘Velhos São os Trapos’

“Quando as pessoas não estão fechadas em casa e convivem, há um conjunto de doenças nas quais não se pensa, há outras do foro psiquiátrico que não aparecem” afirma Miguel Borges, por isso considera “fundamental” o papel da Universidade no “envelhecimento ativo” da comunidade sardoalense.

O investimento do Município na Universidade Sénior “é grande, porque é nas pessoas, independentemente do valor em euros que é insignificante, mas é um bom investimento”, reforça, sublinhando que nos dois anos de Universidade Sénior, os finalistas de 2018 são caloiros em 2019 porque a aprendizagem é contínua e os alunos podem sempre inscrever-se para continuar.

Com o filho adulto e independente, Maria Augusta viúva a viver sozinha, encontrou na Universidade Sénior de Sardoal uma oportunidade “de poder sair e afastar a solidão. É uma forma de convívio” com outras pessoas da sua geração. Talvez por isso, entre as disciplinas lecionadas, prefira Desenvolvimento Pessoal e Interpessoal, e a alegria da Música e o movimento da Ginástica.

Universidade Sénior de Sardoal. O reitor Miguel Borges entrega os diplomas e certificados

Maria Beatriz Alves é aluna de Informática. Ri-se quando lhe perguntámos se já sabe enviar e-mails. “Vamos devagarinho. Um passo de cada vez” mas garante ter aprendido “muitas coisas” à frente do computador.

Consegue “buscar imagens para construir um postal. Vamos aprendendo a amar, a conhecer, a dar as mãos e muita coisa boa”, garante. Para além da Informática as preferências vão, tal como Maria Augusta, para o Desenvolvimento Pessoal e Interpessoal, Alongamentos, Rock and Roll, Hidroginástica e Inglês. Lamenta não ter frequentado todas as disciplinas, por via da doença da mãe. Apesar de finalista para o próximo ano letivo volta a inscrever-se. “Todos os anos recomeçamos para nova caminhada”. A Universidade Sénior “é muito importante!” reforça. Beatriz sente-se “mais liberta, mais feliz” e por isso “convive melhor com todos”.

Maria Luísa também gosta da disciplina de Desenvolvimento Pessoal e Interpessoal, de Música, Ginástica e Saúde. A Universidade trouxe-lhe “muito!”, desinibiu-a “falo melhor, não tenho aquele acanhamento” ganhando uma “maior capacidade de enfrentar a vida e os outros. É um bocado para a gente brincar, nada de stress. Gosto muito, nunca falto, só quando estou doente”, diz.

Universidade Sénior de Sardoal. Maria Beatriz Alves, Maria Augusta e Maria Luísa

Adelino Matias é o aluno mais velho da Universidade de Sardoal. Aos 84 anos ainda desencanta paciência para estudar Informática, Inglês e Português e Literatura Portuguesa. À parte de lidar bem com as novas tecnologias e de soletrar algumas palavras em inglês, destaca “um convívio salutar. Extraordinariamente agradável conviver neste ambiente”, sente-se mais novo afirma.

Apesar de ser finalista Adelino escolhe voltar a ser caloiro. “Volto! Até poder andar”, diz. Não o impede a distância da vila de Sardoal, uma vez que reside em Andreus. “Vou na mesma. Tanto faz chover como nevar. Gosto de comparecer. Sinto-me bem com esta gente. Todos me tratam bem!”. Para além do convívio também aprende. “Muito mais do que sabia”, notando a obrigatoriedade de saber alguma coisa tendo em conta a sua idade. Mas “aprende-se todos os dias, mesmo na terceira idade. Aprende-se até ao fim da vida”.

Graça Francisco é natural de Lisboa, conta nove anos a viver em Sardoal. Sofre de esclerose múltipla mas a doença não foi impeditiva para aos 58 se inscrever na Universidade Sénior. Sentiu necessidade de “companhia”, com as filhas a estudar longe de casa. A doença regrediu desde a sua mudança para o campo, “tinha 80% de incapacidade e agora tenho 65%”. Na verdade, talvez os valores de incapacidade física tenham aumentado devido aos últimos dois surtos, em agosto do ano passado e há um mês. Teme que a causa seja o “muito movimento”. Na Universidade frequentou as disciplinas de Dança, Alongamentos, Ginástica e Música.

Universidade Sénior de Sardoal. Adelino Matias

Esta sexta-feira, na festa de encerramento limitou-se a cantar. Reconhece ter sido talvez “demais” tendo em conta a sua condição, sempre em conflito com a sua vontade e empenho. “Gosto imenso de dança e música. Este tipo de dança de salão nunca tinha aprendido” a juntar à aprendizagem de música country e rock and roll. Foi bom!” afirma, considerando “espetacular” a disciplina de Alongamentos. Graça frequentou ainda Hidroginástica e Cidadania.

No próximo ano letivo, caso decida inscrever-se “esta agitação já não dá” observa, mas “disciplinas mais calmas, experimentar coisas novas”.

Durante a festa os alunos representaram a peça de teatro “Velhos São os Trapos”, projetaram um vídeo com os melhores momentos do ano letivo 2017/2018, cantaram e bailaram e por fim decorreu a entrega de diplomas/certificados aos professores e alunos da USS. Finalizaram os festejos com a exibição das Fitas ao som do Fado do Estudante.

Universidade Sénior de Sardoal. Graça Francisco

A Universidade Sénior de Sardoal resulta de uma parceria entre a Câmara Municipal, o projeto CLDS 3G Sardoal SIM. Teve o seu início em outubro de 2016, contando este ano letivo com 16 áreas de saber, ministradas por 15 professores voluntários e funcionários da Câmara Municipal. A festa de encerramento pretendeu revelar o trabalho desenvolvido pelos alunos e professores da Universidade ao longo dos dois anos de existência.

Sardoal | Festa de encerramento do ano letivo da Universidade Sénior.

Publicado por mediotejo.net em Sexta-feira, 8 de Junho de 2018

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