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Sexta-feira, Outubro 22, 2021

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Sardoal | Tapetes de flores, arte namban, religiosidade e tradição em época pascal

Há pouco dias, no Vaticano, o Papa Francisco dizia aos católicos que é a Páscoa e não o Natal a festa mais importante da fé cristã, porque celebra a “Salvação”. Em Sardoal, essa verdade não escapa nem aos sardoalenses nem a quem os visita na fé e na curiosidade de conhecer as tradições partilhadas. Enfeitar as Igrejas e Capelas com tapetes de flores é uma das mais emblemáticas cerimónias da Semana Santa de Sardoal.

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Há uma teoria sugestiva sobre a criação dos tapetes de flores, que atualmente são instalações de arte que saem da mente criativa e das mãos habilidosas dos populares inspirados pelo tema da Semana Santa. Conta-se que, em 1303, aquando de uma vista da Rainha Santa Isabel a Sardoal, na pobreza e sem tapetes persas para receber condignamente a rainha consorte de Portugal, fizeram-se tapetes de flores.

Especulação ou suposição, facto é que a tradição dos tapetes feitos à base de pétalas de flores e verduras naturais já existia com grande esplendor no século XIX, mantendo-se não só em Sardoal como se estendeu, desde há cinco anos, a nove capelas e igrejas do concelho fora da vila, para apreciação de todos a partir de Quinta-feira Santa.

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Os tapetes nos templos refletem o empenho com que a comunidade sardoalense trabalha e se envolve na Semana Santa.

É um trabalho minucioso que se prolonga durante dias e uma noite madrugada fora, nas vésperas das celebrações da Semana Santa. Dezenas de pessoas dedicam-se aos desenhos a recriar, à imaginação da paleta de cores, à escolha das flores certas a combinar. As gerações mais velhas ensinam as mais novas e assim se passam os segredos da tradição e da arte de fazer os tapetes de flores que decoram as capelas durante a Páscoa.

Sempre relacionados com símbolos pascais e religiosos, os tradicionais tapetes floridos colocam crentes e descrentes de olhos postos no chão, os mesmos que se levantam na contemplação obrigatória do património histórico, religioso e nas peças de arte sacra.

O presidente do Turismo do Centro, Pedro Machado com o presidente da Câmara Municipal de Sardoal, Miguel Borges

A Quinta-feira Santa apresentava-se fria para um mês de março a finalizar, algo chuvosa para um périplo, ora na rua ora entre portas, em visita aos exemplos arquitetónicos da presença religiosa na vila de Sardoal.

Começamos pela Igreja da Misericórdia, uma visita guiada por João Soares, técnico de Conservação e Restauro da Câmara Municipal de Sardoal. O templo, marco da arquitetura da Renascença na região, uma Igreja do século XVI com decoração típica da renascentismo, cujo ícone é uma Nossa Senhora que carrega um manto num simbolismo de proteção de todos os povos.

E um retábulo em restauro por Ana Carita a trabalhar no local, lá em cima pendurada nos andaimes de obra, com a cabeça ornamentada por uma lanterna e utensílios de técnico de conservação na mão, enquanto cá em baixo os visitantes observavam o tapete em tons de verde e amarelo. No corredor em repouso, aguardando mais à noite a Procissão do Senhor da Misericórdia (ou Fogaréus), painéis representando Cenas da Paixão de Cristo, pertença da Misericórdia.

Seguiu-se a gótica Igreja Matriz da Paróquia de São Tiago e São Mateus que possui três naves, rosácea e do lado esquerdo, a Capela lateral dedicada ao Sagrado Coração de Jesus onde estão as Tábuas do Mestre Sardoal, deixadas por Vicente Gil e Manuel Vicente, uma das mais importantes heranças culturais e artísticas do concelho.

A importância da oficina do Mestre do Sardoal para a História da Arte Portuguesa centra-se na transição do estilo gótico para o renascentista, designados por “Primitivos Portugueses”.

No corredor em repouso, aguardando mais à noite a Procissão do Senhor da Misericórdia (ou Fogaréus), painéis representando Cenas da Paixão de Cristo, pertença da Misericórdia.

Nessa igreja, com cortinas e passadeiras em tom carmim, um retábulo para onde é transladado o “Santíssimo” após a cerimónia do lava pés, não se instalou um tapete de flores. A tradição passa pela ornamentação do altar com mais de 30 vasos de trigo germinado no escuro, adquirindo por isso uma tonalidade amarela. Ali será adorada a hóstia consagrada. Todos os anos a decoração é a mesma, simbolizando a ressurreição depois da primeira Eucaristia; a consagração do pão.

Do lado direito, retábulo da Nossa Senhora da Conceição e outras esculturas cenográficas na tentativa de aproximação do real. A estátua, tal como uma outra representando a Senhora das Dores, veste-se de cabelo verdadeiro para dar sentido de realidade a quem a observa, à semelhança do que se fez em Sevilha, na vizinha Espanha. São imagens que guardam grande carga emocional.

E um retábulo em restauro com Ana Carita a trabalhar no local, lá em cima pendurada nos andaimes de obra, com a cabeça ornamentada por uma lanterna e utensílios de técnico de conservação e restauro na mão.

Na Capela do Espírito Santo viu-se a primeira instalação de arte floral desenhando uma candeia acesa com um espaço central para ser pisado pelos visitantes. É aromático, exala fragrâncias de rosas, de alfazema, de rosmaninho, de alecrim, de bucho e camélia.

O objetivo é dotar o ambiente de aromas que “inebriem o Senhor”. Entre o tapete e esse corredor florido um pano de cetim roxo com uma salva de prata recolhe dádivas em dinheiro que os mais caridosos queiram deixar. A representação é Pentecostes em celebração da descida do Espírito Santo. Vê-se uma pomba debaixo da barba do ‘Pai’, insinuando o sopro de Deus.

Entrou-se depois na Capela da Nossa Senhora do Carmo, com fachadas do século XVIII e em termos decorativos uma das mais belas de Sardoal. A guardiã, claro está, é a Nossa Senhora do Carmo, escultura em madeira, em casquinha com pintura de fingimento de mármore e folha de prata que imita o ouro na perfeição, em tempos que o metal precioso do Brasil já escasseava. O tapete floral acompanha o estilo rococó com curvas e arcos em tons pastel do amarelo ao rosa.

A Capela de Santa Catarina tal como a de Sant’Ana foram em tempos capelas particulares de famílias que as doaram à paróquia de Sardoal. Naquela capela um tapete de flores elaborado pelo GETAS – Grupo Experimental de Teatro Amador de Sardoal -, com carrascas e outros elementos naturais. Já para desenhar as cruzes negras foi escolhido borracha dos relvados sintéticos, aliando às pétalas de flores alguma inovação na introdução de outros elementos estéticos.

O mesmo na Capela de Sant’Ana, o desenho do tapete representando a luz do Senhor sobre o mundo, todo o azul da água é elaborado com corante de plástico, material que serve para colorir polietileno. Além disso, o grupo de moradores responsável por aquela instalação escolheu aparas de madeira e alecrim na elaboração do seu trabalho.

Tábuas do Mestre Sardoal, deixadas por Vicente Gil e Manuel Vicente, uma das mais importantes heranças culturais e artísticas do concelho

Na Capela do Senhor dos Remédios, encontra-se o tapete elaborado por Francisca Rosa, aluna que venceu a edição 2018 do Projeto Capela. E ao lado na igreja conventual, no mosteiro, um tapete da autoria da Santa Casa da Misericórdia representando em tons de verde e amarelo a Santa Maria da Caridade.

Uma igreja com dois retábulos, relicário, maneirista com transição para o barroco, vindo de Nagazaki, Japão, obra dos jesuítas, um oratório de arte namban, arte produzida pelos nativos japoneses de Nagazaki para a Europa. Sendo que existem 25 em todo o mundo e apenas dois com aquele tamanho, explicou João Soares.

Trata-se de uma pintura a óleo sobre cobre com a figura da Virgem. Toda a decoração prende-se com temas nipónicos como a laranjeira e o pessegueiro que representam a pureza e a família.

A sacristia do convento, onde se guardam os paramentos e as alfaias litúrgicas, é de 1720, em talha gorda com pinturas de óleo sobre tábua onde também está presente o gosto nipónico com desenhos de folhas de pessegueiro e pagodes.

Um amituário para guardar o amitos, uma espécie de golas que fazem parte dos paramentos, e uma credência (mesa) do século XVIII em mármore português. A peça mais rara da sacristia é uma caldeirinha de água benta em bronze. Os freixos plantados à volta do convento vieram na nau de Vasco da Gama de Nagazaki há 500 anos.

Um oratório de arte Nanban, arte produzida pelos nativos japoneses de Nagazaki para a Europa

A acompanhar a visita o presidente do Turismo do Centro, Pedro Machado, que em declarações ao mediotejo.net deu conta de ser a sua segunda visita às Igrejas e Capelas com Tapetes de flores em Sardoal.

“Há tesouros que estão escondidos e precisamos conhecer para poder divulgar e promover”, referiu apontando como sendo a primeira razão da sua visita por ocasião da época pascal, trazendo consigo outros técnicos no sentido de “podermos ter esta primeira impressão de forma tão explicativa. Diria que foi uma expedição” entre as Igrejas, Capelas e Convento de Sardoal.

“Por isso percebemos que há um património religioso significativo que deve e tem de ser mais promovido”, defendeu Pedro Machado.

O responsável afirma ter percebido que no trabalho de estruturar produto turístico como é “o turismo religioso há muito mais do que apenas a perceção que temos da região Centro, muito enraizada em Fátima, muito chegada ao turismo judaico e ao caminho português de Santiago [de Compostela] e podemos produzir mais produto turístico” o que assenta “na capacidade de podermos mostrar e explicar a quem nos visita a riqueza e a diversidade que está na vila de Sardoal”.

A sacristia do convento onde se guardam os paramentos e as alfaias litúrgicas é de 1720, em talha gorda com pinturas de óleo sobre tábua onde também está presente o gosto nipónico com desenhos de folhas de pessegueiro e pagodes.

O presidente acrescentou que a componente cultural a que se assiste em Sardoal “e a riqueza que lhe está associada é cada vez mais importante para o turismo que queremos no Centro do País. Somos cada vez mais procurados pelo turismo cultural, patrimonial, que não se esgota no religioso nem apenas na Páscoa e que pode ser fruído ao longo de todo o ano”.

Pedro Machado garantiu dar “maior ênfase a este património que está associado à época pascal” admitindo ser “um período mais crítico porque está longe dos picos da sazonalidade da procura turística nos meses de verão e permite-nos distribuir os turistas ao longo do território”.

Pelo quinto ano consecutivo, as aldeias do concelho, caso das paróquias de Santiago de Montalegre, juntam-se à iniciativa no adorno das Igrejas e Capelas fora do centro da vila. Presa, Panascos, Vale das Onegas, Santiago de Montalegre, Mivaqueiro, Valhascos, Entrevinhas, Venda Nova e Andreus também embelezaram os seus templos religiosos na edição de 2017 da Semana Santa de Sardoal, podendo ser visitados entre sexta e domingo.

O presidente da Câmara Municipal de Sardoal, Miguel Borges, explicou a importância das cerimónias da Semana Santa para o concelho. Veja em baixo o vídeo:

Sardoal | Na Quinta-feira Santa o presidente da Câmara Municipal de Sardoal, Miguel Borges, fala sobre a importância das cerimónias da Semana Santa para o concelho depois de uma visita pelas capelas da vila para observação dos tapetes de flores.

Publicado por mediotejo.net em Quinta-feira, 29 de Março de 2018

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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