Apoie o jornalismo que fazemos,
junte-se à nossa Comunidade de Leitores

- Publicidade -

Domingo, Setembro 19, 2021

Apoie o jornalismo que fazemos, junte-se à nossa Comunidade de Leitores

- Publicidade -

Sardoal | Presidente da Junta defende aposta no património e centro histórico inspirado em Óbidos

Miguel Alves cumpre o primeiro mandato na presidência da Junta de Freguesia de Sardoal, eleito pelo PS. Convidado pelo mediotejo.net a traçar um retrato da freguesia, revela que inicialmente, como autarca socialista numa terra laranja, esteve quase a desistir de cumprir esta “missão” de serviço público. Contudo, decidiu manter-se no cargo ao qual se vai recandidatar nas próximas eleições autárquicas, igualmente nas listas do PS. Na Junta diz ter feito tudo o que podia, e se mais não fez “foi por impedimento da Câmara Municipal”. O presidente da Junta aponta como fator negativo a falta de empregabilidade, defende uma aposta no teatro e na promoção do turismo religioso, e afirma que gostaria de ver o Centro Histórico da Vila diferente. “Tem todas as condições para ser uma mini Óbidos”, defende.

- Publicidade -

A Fé e a Religiosidade caracterizam Sardoal. Perdendo-se na origem dos tempos, a freguesia de Sardoal é das poucas, em todo o País, que possui dois oragos (São Tiago e São Mateus). O seu grande valor reside na riqueza da História, no património edificado, no clima e no espólio ambiental. Aceitando por verdadeira a antiguidade de Sardoal, é de crer que é muito remota a sua existência como paróquia e freguesia.

Ao longo da Vila, todos os que por lá passam são confrontados com autênticas obras-primas da religiosidade popular. As festas religiosas no Sardoal assumem, há muito tempo, uma grande importância no quotidiano dos habitantes deste concelho ribatejano, desde sempre com profundas tradições religiosas.

Miguel Alves, presidente da Junta de Freguesia de Sardoal. Créditos: mediotejo.net

Por isso, o presidente da Junta de Freguesia aponta como falha a identificação das capelas e igrejas e em alguns marcos religiosos também no Natal, embora a Junta tenha avançado com iluminação durante a época natalícia “a pensar nos sardoalenses” mas também “no turismo”, disse Miguel Alves ao jornal mediotejo.net.

Sobre o tema da religiosidade, Miguel Alves revela que a Junta de Freguesia propôs à Câmara a identificação de todas as capelas e igrejas da Vila de Sardoal. “Não foi aceite. Disseram-nos que tal estava na candidatura ao Centro de Interpretação da Semana Santa. Passaram-se quase quatro anos e não há uma capela identificada e não há uma igreja identificada, uma coisa simples. À espera de uma candidatura que poderá não chegar… Falta sensibilidade!”, critica o autarca socialista.

Sardoal. Igreja Matriz. Créditos: mediotejo.net

A freguesia de Sardoal possui uma área de cerca de 39 km², conta com uma população residente de 2414 (Censos 2011), sendo 2071 eleitores e, além da vila de Sardoal, é constituída pelas povoações de Andreus, Cabeça das Mós, Entrevinhas, S. Simão e Venda Nova, para além de algumas habitações isoladas.

Ao nível turístico refere que o alojamento local “é escasso”, menciona a Casa dos Almeida como “outro fiasco. Mais uma bandeira política para a altura” e declara não entender o desinteresse pelas antigas malarias. “Tínhamos grandes empresas de malas, gerações de famílias sardoalenses que viveram das malas. Não há uma rotunda com uma malaria, não há uma rotunda com esses símbolos que marcam a diferença. Não há uma rotunda que tenha um lagarto. E precisamos de ser reconhecidos” além fronteiras, opina.

Atores locais recebem formação profissional teatral no âmbito da Rede Eunice. Foto: Paulo Jorge de Sousa

Na Cultura, Miguel Alves defende uma grande aposta no teatro com gente da terra e não só. “Espetáculos de teatro, de revista. Precisamos de nos rir um bocadinho, de vez em quando ter um stand-up comedy em Sardoal. E não é baixar o nível! Temos os GETAS e quem vai ver são amigos e familiares. O projeto do piano e do jazz é muito interessante, mas quem é que assiste aos concertos? Não projeta, não envolve a comunidade”.

Contudo, a empregabilidade aponta-a como “a maior dificuldade” da freguesia de Sardoal. “É não haver emprego. Não havendo empresas não há emprego, não havendo emprego não há fixação de pessoas e perde-se população. Efetivamente é não haver uma estratégia política para que possa criar atratividade. Nunca teria deixado a antiga empresa Sárplas estar nas mão de quem está. Aquele espaço era um nicho empresarial mas a Câmara não tem um estaleiro, o autocarro municipal está à chuva!”, afirmou.

Antiga Estrada Nacional 2 em Sardoal

Miguel Alves nasceu há 47 anos em Lisboa. Os pais são naturais da freguesia de Carvalhal (Abrantes) mas mudaram-se jovens para a capital onde ainda hoje residem. Foi o casamento com uma sardoalense que esteve no inicio da mudança do atual presidente da Junta para terras do Ribatejo, região na qual exerceu a profissão de bancário durante 21 anos até que um problema de saúde o obrigou a abandonar a profissão para se tornar empresário até há meses. Além de ser autarca, atualmente trabalha como consultor imobiliário.

Entre as críticas, lamenta também que nenhuma iniciativa comercial “dure” em Sardoal, para além de negócios ligados à restauração. “Aqui não vinga nada. Só cafés e tascas vão durando. Comércios novos não há, serviços não há, casas para arrendar não há, habitação para comprar há uma ou duas moradias, não há habitação com rendas acessíveis, não vejo sequer atratividade para que as empresas se fixem, com benefícios fiscais efetivos. As pessoas vêm para cá fazer o quê?”, interroga-se.

Esta experiência autárquica não é a primeira experiência política de Miguel Alves, que em 1993 foi deputado da Assembleia de Freguesia de Moscavide também pelo Partido Socialista onde fez um mandato. O convite surgiu do PS novamente em 2009, desafio que Miguel Alves recusou por trabalhar com gerente de uma agência bancária em Sardoal. Em 2013, aceitou tendo sido eleito como deputado para a Assembleia Municipal. Em 2017 é convidado para cabeça de lista da Junta de Freguesia de Sardoal e vence as eleições por 22 votos de diferença “contra todas as expectativas”, lembra.

Imagem área da Freguesia de Sardoal. Créditos: mediotejo.net

Dá também conta da existência de problemas de rede móvel, particularmente de Internet, em algumas zonas, designadamente Venda Nova e Andreus onde irá nascer o novo Parque Industrial que para Miguel Alves não passa de “campanha eleitoral” do PSD que lidera a Câmara Municipal.

“Estão a convidar empresários com ligações a Sardoal, que estão em Lisboa, para colocar módulos naquele espaço. Num local que não tem rede de Internet. Será muito complicado para os empresários. O presidente Miguel Borges diz que será instalada uma antena. Vamos ver!”, afirma, vincando ser seu desejo que Andreus evolua, tal como Entrevinhas ou São Simão.

Mas reivindica “tempo para analisar os projetos” e espera que o anunciado Parque Industrial de Andreus não se assemelhe à Zona Industrial de Sardoal, “inacabada, falta alcatrão, sinalização e uma série de situações” que o PS preferia ver concluída e alargada.

Sardoal. Fotografia: Paulo Jorge de Sousa

O presidente da Junta também gostaria de ver o Centro Histórico da Vila diferente. “Tem todas as condições para ser uma mini Óbidos”, opina, defendendo o regresso da Festa da Flor e outras atratividades ligadas ao património edificado.

“As ruas da zona histórica estão sujas, por limpar. Não permitiram, através de um contrato interadministrativo que propusemos, limpar a zona histórica dizendo que iriam contratar muitos precários, aquando da regularização dos precários, e está completamente a definhar. Tem casas devolutas, uma situação de muita urgência. Deve-se olhar para o património com muita premência”, defende.

A Junta de Freguesia de Sardoal conta com um orçamento anual de 90 mil euros vindos do Fundo de Equilíbrio Financeiro (FEF) que o presidente considera “manifestamente pouco” aos quais se somam “mais 20 mil euros do Acordo de Execução com a Câmara, mais cinco mil euros de IMI e licenças e canídeos cerca de dois mil euros por ano. Teremos no total uns 110 mil euros de receita”, contabiliza.

Miguel Alves, presidente da Junta de Freguesia de Sardoal. Créditos: mediotejo.net

Portanto, a falta de dinheiro é um problema identificado, mas essa não foi a causa que levou Miguel Alves quase a abandonar o cargo logo no primeiro ano de mandato. “Fizeram coisas muito más! Começaram por mandar fotos para os jornais com a porta da Junta fechada, dizendo ser o primeiro presidente a meio tempo em 20 anos, depois um elemento do PSD que acedeu ao e-mail da Junta de Freguesia entre outras ações que me magoaram. Miguel Borges foi a pessoa que mais me desiludiu. Mas reconsiderei, pensei nas 692 pessoas que votaram em mim”, afirma.

Atualmente a Junta de Freguesia de Sardoal conta com cinco trabalhadores, quatro assistentes operacionais e um administrativo. Miguel Alves explica que quando chegou à Junta de Freguesia eram oito funcionários . “Três funcionários que não trabalhavam para a Junta mas era a Junta que pagava ordenados. Fui eleito e a situação ainda durou de outubro a agosto”, deu conta o presidente.

Junta de Freguesia de Sardoal. Créditos: mediotejo.net

Um cargo que, admite, tem sido “difícil” embora goste da função de serviço público que faz “com espírito de missão” e por isso decidiu recandidatar-se novamente pelo Partido Socialista. No concelho de Sardoal “sou o único presidente que não estou pelo PSD e tenho sofrido muito com isso”, vinca.

Entende haver “entraves atrás de entraves, porque sou presidente da Junta de Freguesia que o PSD continua a ver como oposição. Vejo muitas dificuldades”, lamenta, afirmando-se preparado para outro combate político sendo candidato. “Se o PS não ganhar a Câmara Municipal acredito que vai ser mais do mesmo”, diz, convicto que nas próximas eleições autárquicas vencerá novamente a Junta de Freguesia. Para Miguel Alves o programa político “não são promessas, são linhas do que pensamos fazer”.

Nestes quatro anos de mandato, Miguel Alves fala numa campanha de proximidade e proatividade, nomeadamente durante a pandemia com a iniciativa ‘Caixa Solidária’. A Junta “fez um protocolo com os CTT para levantar os vales [com as reformas] e entregar em casa; criamos o programa ‘Covide-vos a Participar’ para dar ideias das necessidades da população, o programa ‘Vamos por Si’ que ainda hoje funciona”, elenca.

Fonte da Venda, Sardoal. Créditos: JFS

Lembra a iniciativa da Oficina do Reformado, o patrulhamento durante a vaga de assaltos em Sardoal e sublinha a importância de “comunicar com as pessoas. Fomos a primeira autarquia do concelho a criar uma página na rede social Facebook, entrevistei centenas de pessoas que publico e partilho, mais de 70 jovens e não há um que não refira a falta de oportunidade de emprego.”

Além disso, diz ter “implementado fardas diferenciadoras e identificadoras, adquirimos ferramentas, não tínhamos um andaime, uma rebarbadora, uma máquina de pressão, uma aparafusadora, um kit de incêndios, um aspirador urbano… gastei milhares de euros em ferramentas. Não houve uma propriedade da Junta que não tivéssemos intervencionado. No centro urbano não podemos fazer nada, é uma ilha. Comprámos mobiliário urbano, nomeadamente beateiras e passámos a virar-nos para dentro, ou seja, para aquilo que só dependia de nós”, explica.

Alves refere também a modernização administrativa e um novo arquivo. “Recuperámos e mantivemos todo o nosso património, pintámos todos os fontanários e projetámos o Sardoal dentro das nossas propriedades, construímos o parque fitness, fizemos os presépios de rua, o baloiço dos moinhos, o marco da EN2, criámos o Dia da Mulher de apoio ao comércio local. É com coisas pequenas que se projeta o Sardoal”, defende.

Menciona ainda o lançamento da festa da freguesia como impulsionadora das coletividades de Sardoal, o magusto da freguesia, cursos gratuitos, rastreios e workshops com regularidade.

Moinhos de Entrevinhas, Sardoal. Créditos: mediotejo.net

“A grande obra física foi a recuperação de todo o património e a grande obra moral foi a regularização dos precários. Tínhamos dois funcionários em regime de precariedade, sem carreira contributiva”, recorda.

Agora, os objetivos passam por “fazer mais e melhor, negociar com a Câmara a delegação de competências e continuar a ser diferenciadores. Trabalhar para conseguir atratividade porque só assim é que vamos conseguir”, diz.

Por fazer ficou “aquilo que esbarrou nas minhas competências. A lei 75/2013 prevê competência da Junta e da Câmara para a mesma coisa, quem é que as faz? A legislação falha muito”, critica o autarca.

Vila de Sardoal. Créditos: CMS

 “Não cumpri com as promessas eleitorais todas – que para mim são perspetivas – porque houve coisas que disse que fazia mas a minha vontade esbarrou com a vontade da Câmara. Há coisas que gostaria de ter feito e não fiz”, admite, referindo que sem um pacote financeiro mais ambicioso e se não houver permissão da Câmara para avançar em intervenções que são de competência municipal, “no próximo mandato não vou conseguir fazer muito mais”, assegura, explicando que se ganhar as eleições pensa “nem ficar sequer a meio tempo” na Junta de Freguesia como se encontra desde que assumiu funções.

Aponta alguns “casos pontuais” de habitações em Venda Nova que ainda possuem fossa séptica mas no que diz respeito ao saneamento básico “Sardoal está muito bom”, considera.

Quanto a arruamentos indica também “casos pontuais” em Entrevinhas e Vale da Amarela. “Não está alcatroado devidamente, tem sempre muitos buracos, porque o principal fornecedor daquela estrada é a aldeia de São Simão, com meia dúzia de casas. Não há interesse”, considera.

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

- Publicidade -
- Publicidade -

DEIXE UMA RESPOSTA

Faça o seu comentário, por favor!
O seu nome