Sardoal | O cinema documental por quem o faz, ensina e promove

O realizador Andrés Duque orienta o seminário Dear Doc. Foto: mediotejo.net

O auditório do Centro Cultural Gil Vicente acolheu a sétima arte num formato diferente esta quarta-feira, dia 1, com a realização da primeira sessão de cinema e debate integrada no Dear Doc, que decorre no Sardoal até 4 de fevereiro. Aproveitámos a ocasião para perceber o que é a realização em cinema documental através das palavras do realizador Andrés Duque e dos representantes das três entidades que organizam o primeiro seminário dedicado a este tema.

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O seminário de realização em cinema documental “Dear Doc” começou na passada segunda-feira e fica pelo concelho até 4 de fevereiro. A primeira edição da iniciativa dirigida a autores em início de carreira nas áreas do cinema e das artes audiovisuais tem como tema “Formas Perigosas”, definido por Andrés Duque, o realizador responsável pela orientação desta formação. Os 15 participantes da estreia do Dear Doc no Sardoal são estudantes na área do cinema e muitos estiveram presentes no Centro Cultural Gil Vicente esta quarta-feira na primeira das três sessões de visionamento de trabalhos de Andrés Duque.

As três entidades envolvidas na organização deste seminário – Apordoc – Associação pelo Documentário, ESTA – Escola Superior de Tecnologia de Abrantes e Câmara Municipal do Sardoal – estiveram representadas por Nuno Lisboa, João Luz e Miguel Borges, respetivamente. Os três assistiram à exibição do filme-ensaio autobiográfico “Color Perro que Huye” e ao momento de discussão com o realizador hispano-venezuelano sobre a sua obra de cinema documental.

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Face às poucas perguntas que surgiram neste último momento, decidimos descobrir por nós o que é, afinal, a realização em cinema documental e colocámos a mesma questão ao realizador, ao promotor do evento, ao docente da universidade e ao presidente da autarquia. As quatro respostas incidiram num ponto comum: o espírito crítico perante a realidade.

Nuno Lisboa e Andrés Duque antes da exibição de “Color Perro que Huye”. Foto: mediotejo,net

Andrés Duque refere-se a este tipo de cinema como “uma vocação” movida pelo registo da realidade deixando “que as coisas surjam”, sem controlo, nem a tentativa de construir uma ficção. Nesse sentido, o objetivo do orientador do seminário é transmitir aos alunos “paixão pelo cinema, a curiosidade pela vida e pela realidade” e que estes entendam o cinema como “algo plural, não apenas ficção e com uma componente experimental”.

Por sua vez, Nuno Lisboa considera que o cinema documental apresenta um paradoxo em si mesmo na medida em que “se dedica ao que acontece na vida real e a realização pressupõe algum tipo de construção”. O excerto do filme exibido esta quarta-feira em que a câmara de Andrés Duque foca pormenores do quadro “O Jardim das Delícias Terrenas”, de Hieronymus Bosch, é apresentado como um exemplo da “exploração e questionamento das relações entre o que é excecional e o que é absolutamente normal”.

Segundo o coordenador do programa de seminários Dear Doc “aquilo que os realizadores de cinema documental nos podem oferecer é o olhar singular sobre aquilo que julgamos conhecer”. Esta vertente da sétima arte, diz, “sempre foi uma área muito rica, experimental e explorativa”, e a iniciativa do Sardoal é caraterizada como uma forma de “incentivar, cultivar e cuidar essa arte da atenção para aquilo que está à nossa volta e também dentro de nós”.

João Luz (ao centro) e Miguel Borges (à direita) no final da sessão. Foto: mediotejo.net

Para João Luz, o Dear Doc representa “uma oportunidade, não só para os alunos saírem do ambiente da escola e contactarem com a comunidade, mas também para contactarem com participantes externos, cineastas em início de carreira e realizadores”, inserindo-se numa unidade curricular do plano de estudos da licenciatura em Vídeo e Cinema Documental.

O curso tem procura e o docente da ESTA denota o grupo de alunos que surge todos os anos e se “carateriza logo por uma marca autoral”, assumindo-se “como futuros cineastas”. Este partilha a dúvida que “paira no ar” desde os primeiros anos do curso “como se ensina alguém a ser realizador?” uma vez que, nas suas palavras, é algo que “não se consegue ensinar”.

Por seu lado, Miguel Borges considera o cinema documental “uma forma de expressão artística que não é tão habitual vermos na nossa sala”, salientando que este tem “os seus seguidores, os seus admiradores e os seus realizadores e não é tão recente quanto isso”. Questionado se a sua autarquia pretende afirmar-se pela ligação à cultura, o presidente respondeu que a afirmação passa por “dar qualidade de vida aos munícipes e a cultura faz parte dessa qualidade de vida”.

A sessão incluiu o visionamento de um filme e um debate. Foto: mediotejo.net

A cultura, defende, deve “ter um papel não privilegiado, mas em tudo idêntico a outras áreas das políticas públicas”, não deixando de criticar que, tendencialmente, é “deixada para o fim e isso é mau para um povo que se quer europeu, interventivo e com espírito crítico”.

Quem quiser conhecer mais sobre esta arte, pode fazê-lo no Centro Cultural Gil Vicente a partir das 21h30 desta sexta-feira, dia 3, durante a exibição das duas primeiras curtas-metragens de Andrés Duque, “Paralelo 10” e “La Constelación Bartelby” e no último dia do Dear Doc, pelas 16h30, com a sessão dedicada a “Oleg y las Raras Artes”, filme de abertura do festival DocLisboa 2016, que retrata a vida do pianista Oleg Nikolaevitch Karavaichuk. Depois, só na segunda edição do seminário, que se realiza entre 10 e 15 de julho.

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