Sardoal | No Dia da Criança lembraram-se as austríacas que foram acolhidas como filhos da terra

Em pleno Dia da Criança, 1 de junho, o Sardoal não teve apenas atividades direcionadas para os mais pequenos do concelho e no Centro Cultural Gil Vicente recordaram-se os meninos austríacos que ali foram acolhidos por famílias sardoalenses após a Segunda Guerra Mundial. A exposição “Crianças Austríacas da Cáritas em Portugal” foi inaugurada e o público ficou a conhecer Roland Hummel, Helmut Dolezal, Irmgard Lang e Ursula Stimming.

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Os cinco painéis que integram da mostra documental itinerante organizada pela Cáritas Portuguesa e a Embaixada da Áustria em Portugal abrangem o período temporal 1947 – 1958 e ficam patentes no centro cultural até ao final deste mês. A estes juntam-se os dois alusivos ao Sardoal e nos quais surgem os números do Médio Tejo. Roland, Helmut, Irmgard e Ursula integram a lista das 100 crianças austríacas recebidas na região (26 em Abrantes, uma em Ferreira do Zêzere, nove em Mação, 21 em Ourém, nove Sertã, 11 em Tomar, 15 em Torres Novas e quatro em Vila de Rei).

Os quatro chegaram de comboio a Alferrarede em janeiro de 1950 e foram recebidos como “filhos da terra” ao longo de seis meses. Roland Hummel tinha nove anos quando foi acolhido pelo Padre Dias Afonso e teve como grande amigo Conde Falcão, que conseguiu encontrá-lo meio século depois. O fotógrafo sardoalense contou a história durante a inauguração em que também estiveram presentes mais dois elementos do grupo infantil da altura, Fernando Rosa e Vale do Rio.

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Inauguração da exposição “Crianças Austríacas da Cáritas em Portugal”. Fotos: mediotejo.net

Roland é único sobre o qual existem registos de que tenha regressado ao Sardoal, a última vez em 2017. O mesmo continua por determinar nos restantes casos, assim como a idade com que segundo rapaz austríaco, Helmut, foi acolhido por José Ferreira Arelo Manso. No que respeita às raparigas, Irmgard tinha seis anos e Ursula rondava os 12 quando Carlota Serrão Mora e Judith Serrão Oliveira as receberam em casa, respetivamente.

As memórias desses tempos foram surgindo durante a inauguração em que Miguel Borges, presidente da Câmara Municipal do Sardoal, fez a primeira intervenção salientando que a questão dos refugiados se mantém “infelizmente, atual”. Ao seu lado esteve o presidente da Cáritas Diocesana de Portalegre-Castelo Branco, Elicídio Bilé, que recordou como foi o acolhimento das crianças austríacas, em resposta ao pedido do Papa Paulo VI, que levou Fernanda Jardim a criar a União da Caridade, hoje Cáritas, em 1946.

Intervenção de Conde Falcão e foto de grupo dos sardoalenses que criaram laços com as crianças austríacas. Fotos: mediotejo.net

Entre 1947 e 1958, o país acolheu milhares de meninos e meninas que sofreram as consequências da Segunda Guerra Mundial e a história é contada nos cinco painéis com os dados globais, nas imagens dos arquivos da RTP que são projetadas numa das paredes do foyer e nos livros “Um Laço de Amizade entre Portugal e a Áustria” e “Relações entre Portugal e a Áustria – Testemunhos Históricos e Culturais”, ambos da Assírio Alvim, que também integram a exposição.

Alguns pormenores destes suportes foram dados a conhecer esta sexta-feira por Dulce Figueiredo. A responsável pela Biblioteca Municipal do Sardoal também acompanhou a recolha de informação associada ao concelho e que, no caso de Irmgard, foi fornecida pela Dona Aurora, afilhada de Carlota Serrão Mora. A octogenária tinha 16 anos na altura e a ligação à menina austríaca era visível quando perguntava “onde é que tu estás?” enquanto olhava para as fotografias.

Ao mediotejo.net contou como foi ela quem exigiu à madrinha que queria uma menina pequenina que cedo considerou “a sua boneca” de “caracóis lindos” e conquistou o lugar da irmã mais nova que nunca teve. Os olhos revelam a saudade quando conta como a barreira da língua nunca foi obstáculo entre ela e Irmgard, com quem chegou a trocar correspondência depois da menina regressar à Áustria.

Dona Aurora considera Irmgard a irmã mais nova que nunca teve. Fotos: mediotejo.net

O contacto perdeu-se, mas não as memórias dos tempos partilhados na década de 50 do século passado. Entre elas encontram-se as dos vestidos feitos pela madrinha, costureira, que transformavam Irmgard “numa bonequinha”, o esparregado que a criança não gostava e a difícil despedida em que a pequena não queria largá-la. Um carinho que perdura e é provado pelas lágrimas nos olhos da Dona Aurora quando responde o que diria a Irmgard se a reencontrasse: “Oh meu amor…”.

Esta ligação é uma entre tantas que marcaram quem chegou e quem acolheu. O mundo mudou, mas o tema mantém-se atual, nomeadamente com a questão dos refugiados que todos os dias arriscam a vida por uma nova oportunidade de vida. Neste sentido, a exposição patente no centro cultural motiva a palestra “Refugiados, Uma Realidade Transversal”, às 14h30 de 20 de junho, com Ana Regina Pinto, Doutoranda na Universidade do Porto, e Katharina Schuller, Assistente Política e de Direitos Humanos da Embaixada da Áustria.

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Sónia Leitão
Nasceu em Vila Nova da Barquinha, fez os primeiros trabalhos jornalísticos antes de poder votar e nunca perdeu o gosto de escrever sobre a atualidade. Regressou ao Médio Tejo após uma década de vida em Lisboa. Gosta de ler, de conversas estimulantes (daquelas que duram noite dentro), de saborear paisagens e silêncios e do sorriso da filha quando acorda. Não gosta de palavras ocas, saltos altos e atestados de burrice.

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