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Sexta-feira, Setembro 17, 2021

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Sardoal | Na freguesia de Alcaravela esperança mora no digital para repovoamento do Interior

Situada muito perto do centro geográfico de Portugal, a freguesia de Alcaravela (do árabe Al Karavan), possui referências conhecidas desde 1527. A sua serra, a riqueza florestal e as memórias da extração da resina são o seu principal património. Paulo Pedro cumpriu dois mandatos na presidência da Junta eleito pelo PSD e, em ano de eleições autárquicas, foi convidado pelo mediotejo.net a traçar um retrato da freguesia. Revela esperança na revolução digital e no teletrabalho para o repovoamento dos territórios rurais. Mas antes terá de haver mudanças, nomeadamente quanto a cobertura de rede móvel e de Internet. 

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Registadas nas memórias encontramos histórias de uma terra mais dinâmica, dos tempos em que Alcaravela teve uma das primeiras Casas do Povo do País. Com sede própria, para a construção da qual o Estado entrou com 46 mil escudos (pouco mais de duzentos euros) e foi inaugurada a 6 de maio de 1934, contando em 1940 com 350 sócios efetivos e 5 protetores.

E se em 1981 a freguesia contabilizava uma população de 1437 habitantes, número resultado do Censos, o de 2011 deu conta de 904 residentes, 730 eleitores, votantes em Santa Clara, número que, provavelmente 10 anos depois diminuiu, como em muitas outras povoações do Portugal profundo. “Temos perdido muita gente, são territórios envelhecidos”.

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Quem o diz é Paulo José Casola Pedro, 44 anos, e atual presidente da Junta de Freguesia de Alcaravela, que volta a recandidatar-se pelo Partido Social Democrata nas próximas eleições autárquicas de 26 de setembro, para aquele que será o seu último mandato, caso seja reeleito.

O presidente da Junta de Freguesia de Alcaravela, Paulo Pedro. Créditos: mediotejo.net

Assistente Técnico no Balcão Único da Câmara Municipal de Sardoal, dedica-se à Junta de Freguesia da sua localidade desde 2007, como eleito para a Assembleia de Freguesia e mais tarde, no executivo da Junta “devido a uma desistência” e depois em 2013 assumindo o cargo de presidente, conta ao mediotejo.net.

Assume o gosto pelo trabalho autárquico embora diga que o executivo “não consegue fazer tudo. Há sempre muita coisa para fazer. Mas ajudar as pessoas, nestes meios rurais onde todos nos conhecemos, dá-nos algum gozo”.

Apesar de assumir não ser uma missão fácil. “Temos de estar disponíveis 24 horas. Nos fogos de 2017 foram quase 8 dias sem dormir. As pessoas queriam um carro de bombeiros ao pé de cada casa… é complicado! Os presidentes de Junta são os primeiros a dar a cara e não é fácil ver a nossa riqueza a arder, ver as pessoas a perder as suas coisas, sentimo-nos impotentes”, confessa.

Junta de Freguesia de Alcaravela. Créditos: mediotejo.net

Registe-se a curiosidade de não existir nenhum lugar com o nome de Alcaravela. Rica em património florestal (Serra de Alcaravela) ficou conhecida pela extração de resina (atividade económica hoje quase desaparecida). A freguesia de Alcaravela, uma das quatro do concelho de Sardoal, conta com um território de 33 quilómetros quadrados.

“A maior do concelho. Uma freguesia rural com muita floresta, onde começa o Pinhal Interior, com 17 aldeias. Santa Clara é a sede de freguesia, onde está a Extensão de Saúde, onde é a Igreja Matriz, o posto de farmácia, o cemitério. As maiores aldeias são Presa e Panascos”, detalha o presidente dizendo que as aldeias em conjunto terão “uns 25 quilómetros de caminhos dentro delas, fora os caminhos florestais. Muito diferente de uma freguesia urbana. Aldeias muito dispersas, o que implica um trabalho redobrado”.

Os restantes lugares da Freguesia são: Carrascais, Casal Pedro da Maia, Casal Velho, Casos Novos, Chã Grande, Cimo dos Ribeiros, Fontelas, Herdeiros, Monte Cimeiro, Moutal, Outeiro, Pero Basto, Pisão Cimeiro, Saramaga, Tojalinho, Tojeira, Vale Formoso, Vale das Onegas e Venda, para além de algumas habitações isoladas.

Santa Clara, Alcaravela, Sardoal. Créditos. mediotejo.net

O orçamento anual da Junta de Freguesia ronda os 90 mil euros, 22.583,00 euros que chegam através de protocolo estabelecido com a Câmara Municipal (acordos de execução) e 65.124,00 euros (12.281€ por trimestre) do FEF – Fundo de Equilíbrio Financeiro.

A Junta de Freguesia conta com três trabalhadores a tempo inteiro, um administrativo e dois assistentes operacionais, poucas mãos para a realização do trabalho exigido. “Não é suficiente. E agora temos dificuldades em recrutar. Haviam programas onde poderíamos ir buscar desempregados, como os CEI, mas agora não há. Por um lado é bom, significa que as pessoas estão empregadas mas a verdade é que não temos capacidade só com os nossos funcionários e por vezes temos de recorrer a prestadores de serviços” até para a manutenção dos espaços públicos, explica.

Para o presidente da Junta o FEF é insuficiente. “Deveria ser superior, ainda mais nestas freguesias rurais. O Estado deveria rever esta situação. As Juntas ainda são o parente pobre das autarquias apesar do presidente da Junta ser o primeiro a chegar junto das pessoas, o primeiro a dar a cara e a resolver os problemas”, critica.

Conta que, durante a pandemia, a Junta imprimiu mais de 10 mil documentos para os estudantes que estavam com aulas à distância.

Estrada para Alcaravela durante um incêndio em 2017. Foto: Paulo Jorge de Sousa

Contudo, Paulo Pedro identifica os incêndios como o maior problema da freguesia de Alcaravela. “Em conjunto com a Câmara Municipal temos feito um trabalho de limpeza das florestas porque de dez em dez anos tivemos grandes incêndios que têm vindo de outros concelhos, com grande dimensão, e que nos têm devastado”, nota.

Lembra que a floresta “era a grande riqueza” da Freguesia. No fogo de 1995 “perdemos floresta o que determinou a perda de população. A perda de rendimento levou muitas pessoas a saírem para trabalharem nos grandes centros urbanos. Era uma zona de resineiros, havia bom pinhal”. Atualmente a população é essencialmente agrícola e bastante envelhecida.

Embora, desde 2017, com as novas regras de limpeza das faixas dos aglomerados, “a população tem cumprido” com o seu dever de limpeza dos terrenos, diz o autarca.

Alcaravela, Sardoal. Créditos: mediotejo.net

A freguesia de Alcaravela não tem escola primária, “a última, em Panascos, fechou há uns anos. Eram menos de 20 alunos e as crianças foram estudar para Sardoal”, explica. Mas ainda resiste o Jardim de Infância de Presa com 19 crianças. “Temos alguns casais jovens. Em Vale das Onegas durante muito tempo não nasceram crianças e voltaram a nascer, também no Vale Formoso. É bom!”.

Aponta a empregabilidade como outro problema. Afirma que as grandes entidades empregadoras na Freguesia são os Centros de Dia, sendo que na Artelinho – Cooperativa Agrícola de Produção de Linho de Alcaravela “também trabalham pessoas. Agora não tanto nos bordados, como antigamente, mas na produção de pão e bolos”. E ainda resiste uma serração que também emprega alguns locais.

Conta que o setor florestal foi bastante atingido, e com ele, os madeireiros, as serrações e as carpintarias existentes na Freguesia desapareceram. O setor da construção também representou um papel importante na empregabilidade de Alcaravela mas com a crise de 2009 “perderam-se esses empresários”. Paulo Casola Pedro gostaria de ver aumentada a população e que o investimento chegasse às zonas rurais.

Mercado Semanal em Alcaravela. Créditos. mediotejo.net

Mas também o investimento público é curto, designadamente no que toca a saneamento básico. Admite haver aldeias da sua Freguesia às quais o saneamento básico ainda não chegou, situação que gostaria de ver resolvida, mas reconhece “ser uma dificuldade só cumprida com apoios” financeiros tendo em conta “as poucas pessoas” que vivem nessas aldeias. “É um problema porque toda a gente tem o mesmo direito”, defende.

Na verdade, entre as 17, o saneamento básico chegou apenas a cinco: Panascos, Presa, Casal Pedro da Maia, Vale das Onegas e Monte Cimeiro.

“Uma aspiração da população” e também do presidente que diz ter levado o assunto à Câmara Municipal. “Sei que há projetos” inclusivamente através da empresa intermunicipal Tejo Ambiente, afirmou dizendo que também a ETAR da Presa vai ter uma solução a curto prazo.

Alcaravela, Sardoal. Créditos: mediotejo.net

Fazendo uma retrospetiva dos 8 anos em que é presidente da Junta de Freguesia de Alcaravela explica que no primeiro mandato importou essencialmente “equilibrar as contas e ter alguma margem financeira”. No atual mandato a Junta de Freguesia quer ainda reabilitar o Mercado Semanal, obras que são reflexo de uma candidatura através do Programa Cadeias Curtas e Mercados Locais do Programa de Desenvolvimento Rural 2014-2020. “Aguardamos o termo de aceitação” numa obra de cerca de 26 mil euros. Bem como construir o ringue no Polidesportivo e limpar o cemitério.

Por fazer fica o alargamento do cemitério e a recuperação dos fontanários. Quanto a arruamentos diz que toda a localidade de Pisão necessita dessa intervenção tal como mais algumas ruas de Alcaravela.

Mas destaca como importante feito do seu mandato o regresso do médico de família, em 2018, à Extensão de Saúde de Alcaravela. “Sem médico durante 8 anos. Podemos agradecer ao Dr. Novais Tavares e à Drª Sofia Theriaga. Nós garantimos ter 600 utentes e temos! É mais fácil trazer o médico do que levar 600 pessoas a Sardoal, derivado também aos transportes porque nem toda a gente tinha condições para ir a Sardoal. Investimos no melhoramento do edifício, pintou-se e meteu-se ar condicionado, arranjou-se seguindo as exigências pedidas. Fico contente!”, declara.

Paulo Pedro em frente à Extensão de Saúde de Alcaravela. Créditos: mediotejo.net

Paulo Pedro refere igualmente os seis cursos de formação, cada um com 14 pessoas, para conduzir e operar tratores em segurança ou de aplicação de produtos fitofarmacêuticos realizados pela Junta.

Congratula-se pela reativação do Grupo Desportivo de Alcaravela, conseguido através de uma candidatura ao IPDJ – Instituto Português do Desporto e da Juventude, para reabilitar os balneários e a zona envolvente. “Um ponto de união dos alcaravelenses. Fazia falta ao domingo ir ali um bocadinho e conviver”.

Alcaravela conta com um tecido associativo considerável, cada aldeia tem uma associação de melhoramentos para além do Rancho Folclórico Os Resineiros, a Associação de Caçadores e a Associação de Assistência Domiciliária.

Alcaravela, Sardoal. Créditos: mediotejo.net

Recentemente inaugurou-se “a ERPI [Estrutura Residencial para Pessoas Idosas]. Claro que gostávamos de ter mais quartos, agora temos para 10 utentes. Era bom se tivéssemos 30 ou 40 para dar resposta à população. E criámos postos de trabalho”.

Ter um lar “era uma preocupação nossa porque Sardoal só tinha a Santa Casa da Misericórdia que não consegue receber todas as pessoas de um território tão envelhecido”, acrescenta.

A falta de rede móvel e de Internet “é outra guerra que temos travado”, assegura o presidente. Fala na sua própria experiência, com duas crianças em casa em aulas à distância e dois adultos em teletrabalho.

“Havia dias que ficávamos sem sistema e nenhum telemóvel funcionava. Como presidente de Junta reclamei, enviei e-mails. Em outubro (de 2020) veio a Alcaravela um engenheiro da Altice e a antena é uma realidade. Já começou a obra, estão nas fundações e há muito tempo que a população merecia. Vivemos entre serras onde também o Siresp, quando há incêndios, não funciona. Nestes vales há sítios onde não há rede nenhuma e dentro de casa também não temos rede”, sublinha, falando de promessas da instalação de fibra por parte das operadoras.

Durante a pandemia “veio muita gente para cá em teletrabalho e merecemos as mesmas condições das pessoas que vivem em Lisboa”, defende.

Santa Clara, Alcaravela, Sardoal. Créditos. mediotejo.net

Paulo Casola Pedro refere ainda como determinante a revisão do Plano Diretor Municipal (PDM) “que está a ser revisto” nota no sentido de “criar espaços habitacionais para a fixação de casais jovens, construindo habitação na Freguesia. É um instrumento que pode ajudar a dar a volta ao interior, não só na fixação de população mas também investimento industrial. Penso que não se deve centralizar tudo nos grandes centros, nomeadamente as grandes multinacionais ou empresas de investigação”.

Para esse desenvolvimento o autarca vê com bons olhos a criação de novas zonas industriais, incluindo na sua Freguesia.

Em Alcaravela existem edifícios para recuperar e dá conta de várias casas que têm sido compradas e recuperadas por pessoas que procuram melhor qualidade de vida no interior do País. Com o teletrabalho, como presidente de Junta, Paulo Pedro renovou a sua esperança de repovoamento dos territórios rurais. “Não podemos perder a esperança que a situação seja invertida, os autarcas estão a trabalhar para isso”, assegura.

Critica a opção política de centralizar tudo na cidade ou na sede de concelho em detrimento das aldeias rurais, no fundo a aplicação da mesma receita que os autarcas do interior criticam em relação ao litoral, onde se concentra investimento, que cria postos de trabalho e fixa pessoas.

“Senti isso durante 8 anos em que não houve médico de família em Alcaravela e as pessoas tinham de ir a Sardoal. Não sei de quem foi a culpa mas era uma dificuldade, até mesmo por causa dos transportes”.

Santa Clara, Alcaravela, Sardoal. Créditos. mediotejo.net

Aliás, a falta de transportes públicos revela-se outro problema. “Embora o transporte a pedido tenha vindo ajudar um bocadinho essa situação, mas o Estado deveria olhar para isto de outra maneira. A falta de transportes é uma das causas do despovoamento do interior. Deveria estudar uma forma para haver mais transportes”, opina ainda que a população de Alcaravela seja das que mais recorre ao transporte a pedido no concelho de Sardoal.

Por enquanto, a Freguesia conta com um tecido comercial representativo, desde supermercados, cafés, padaria, a Artelinho, oficina, a venda ambulante também não falta e o mercado semanal ao domingo (e feriados santos) onde a população, incluindo de outros concelhos, se abastece de frescos, desde o talho ao peixe não esquecendo as plantas e até frangos assados.

A maior festa da Freguesia é em honra de Santa Clara, no terceiro domingo de agosto, com Feira Mostra e Festival de Folclore, e ainda a Festa de Nossa Senhora da Guia (Panascos – julho) e Festa de Nossa Senhora das Necessidades (Presa – setembro), ou seja, o verão todo em festa e arraial, exceto há dois anos desde que chegou a pandemia. Portanto, o pensamento terá de ser: melhores dias virão!

O presidente da Junta de Freguesia de Alcaravela, Paulo Pedro, junto ao oratório em Santa Clara. Créditos: mediotejo.net

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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