Sardoal | Mário Jorge de Sousa: um comunicador nato da rádio, “infoexcluído por opção”

Mário Jorge de Sousa em 2013. Créditos: Paulo Jorge de Sousa

Mário Jorge de Sousa é um homem da Cultura e da Comunicação que marcou a região de forma ímpar. Jornalista – ao longo de 45 anos colaborou com 37 órgãos de comunicação social nacional e regional –, político e associativista, designadamente no GETAS, o grupo de teatro amador de Sardoal. “Infoexcluído por opção”, Mário Jorge não tem carta de condução, não usa telemóvel, não utiliza as redes sociais nem mexe em computadores. Nasceu em Lisboa mas foi na vila jardim que desenvolveu a vontade de ser jornalista entre as aparas de papel da Gráfica Sardoalense, propriedade de seu pai. Atualmente reformado, aprecia o sossego, colaborando unicamente com a revista semestral ‘Zahara’. Manifesta-se desiludido com o seu concelho, com a sua região e com o País. Continua a ler jornais em papel, nomeadamente estrangeiros, porque também o jornalismo português o desilude. “O jornalismo é uma missão, um dever ético com a verdade”, considera. E hoje, lamenta, não passa “de um trabalho”.

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No início era a imaginação de criança à volta de histórias inventadas nas aparas de papel da Gráfica Sardoalense. Depois foi a vocação gravada a letras de chumbo ainda sem o protesto em tempos marcados pela censura, notícias locais escritas nas horas vagas que interessavam às pessoas ávidas por novidades. Por fim tornou-se profissão. Jornalista em mais de 37 órgãos de comunicação social nacional e local, contou histórias, relatou factos e deu notícias em jornais, revistas, rádios e boletins, embora a sua paixão seja, para sempre, a rádio. Mário Jorge de Sousa colocou em prática ideias concretas. Sabia o que fazer quanto à informação, dando voz a quem queria ser ouvido, fomentando o debate e o esclarecimento.

Começou como jornalista tinha 18 anos. “O meu primeiro artigo saiu no dia 8 de dezembro de 1971, no suplemento juvenil do jornal ‘Época’. O tema foi a relação de Gil Vicente com o Sardoal”, conta ao mediotejo.net. Aquele diário nacional, “ligado ao regime, já na altura do marcelismo”, pagava à peça consoante as tabelas em vigor; 250 escudos por artigo e 500 escudos por cada reportagem.

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“Era muito dinheiro na altura. Durante anos foi o meu ganha pão”, afirma. O jornal fechou portas após o 25 de Abril por estar muito conotado com o regime, “embora muitos dos profissionais que lá trabalhavam se tivessem espalhado por todos os órgãos de imprensa”, recorda. “Os jornalistas não eram fascistas”, diz, embora o controlo editorial fosse do governo.

Mário Jorge de Sousa. Créditos: Paulo Jorge de Sousa

Mário Jorge de Sousa nasceu em Lisboa no ano de 1952. Nove anos mais tarde mudou-se para o Sardoal, onde o pai, um apaixonado pela vila jardim, decidiu abrir uma tipografia, a Gráfica Sardoalense, em 1961. Ali deu os primeiros passos na experimentação da vocação e no final dos anos 60 fez nascer, juntamente com alguns amigos, a ‘Ecos do Sardoal’. A chegada do Homem à lua mereceu destaque nessa revista.

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Ainda antes da Revolução dos Cravos também colaborou no programa ‘Convívio’, da Emissora Nacional, “que fazia grupos de escuta pelo País fora”, ou seja, pedia a colaboração dos ouvintes. Em Sardoal existia um, o ‘Up Beatnicks’, o qual Mário Jorge de Sousa integrava. “Fomos dos melhores do País” e por isso “duas vezes convidados para ir ao aniversário do programa aos estúdios da então Emissora Nacional, hoje Antena 1, na Rua de São Marçal. Era um grupo muito ativo” e grande parte das colaborações que teve, foram artigos escritos por Mário Jorge.

Com o passar dos anos, as experiências radiofónicas multiplicaram-se, incluindo no Sardoal onde a Rádio Antena Livre (RAL), de Abrantes, tinha um estúdio. Entre 1987 e meados de 1990 Mário Jorge trabalhou naquela rádio local “com uma paragem pelo meio, porque naquele período as rádios tiveram de encerrar três meses”, devido ao processo de legalização das chamadas ‘rádio piratas’.

Naquela casa sentiu-se “verdadeiramente profissional” da comunicação social, onde conseguiu fazer o que sempre quis e onde desempenhou um papel dinamizador e inovador. “Fui responsável pela renovação da Rádio Antena Livre no aspeto da informação regional”.

Conta que quando chegou à Rádio existiam espaços informativos feitos através de telex. “Havia um telex ligado à ANOP [Agência Noticiosa Portuguesa, que deu lugar à atual Agência Lusa]. A informação regional era pouca, as instituições não enviavam muita informação para a Rádio divulgar porque não havia essa cultura”.

Além disso, a informação era lida sem tratamento. “Comecei a tratar a informação que nos chegava e começamos a fazer a informação regional em direto. Passámos para um espaço de informação de meia hora e mais tarde de uma hora”, num programa diário.

Mário Jorge de Sousa ao microfone da rádio, a sua praia e onde se sentia bem. Na foto com Sónia Oliveira, da extinta Rádio Tágide. Créditos: Paulo Jorge de Sousa

Assim nasceu o Jornal do Meio Dia, “icónico na região”, diz, lembrando que na altura só havia a RTP com dois canais de televisão e os locutores das rádios locais eram vistos pelos ouvintes como figuras populares, muito mediáticas.

“Quando chegávamos a algum lado era uma festa, as pessoas apareciam às janelas, os miúdos vinham a correr atrás das carrinhas. Todos da rádio recebíamos cartas, correspondência, ainda havia o jeito de escrever. A Rádio chegava onde o acontecimento era importante!”, lembra, falando de um trabalho conjunto com Fernanda Mendes e Amélia Bento.

“O núcleo duro. Mais tarde outros juntaram-se no Jornal do Meio Dia, com o apoio da direção da altura que sempre nos deu todas as condições: Manuel de Sousa Casimiro, João Graça Vieira e Augusto Martins”, enumera.

Na RAL trabalhou como jornalista “a tempo inteiro” e recorda que, exceto as colaborações pagas à peça, todas as outras foram generosas. “Nunca ganhei nada com o jornalismo”, diz, nem mesmo no jornal de referência nacional Notícias da Amadora. Na Rádio viu a oportunidade de colocar em prática “algumas ideias, alguns truques, que depois começaram a surgir nas televisões privadas, porque já havia outro conceito de informação”. Curiosamente, “na RAL não havia o conceito de repetição”, a notícia era lida uma única vez, explica.

No Jornal do Meio Dia, Mário Jorge e a sua equipa apostaram nas crónicas, com personalidades da região ligadas a cada partido político e a outras áreas. Recorda que “à segunda-feira era Desporto com Santos Ruivo, um árbitro de futebol internacional, à terça-feira José Alves Jana, que, embora independente, estava ligado ao Partido Socialista, à quarta-feira, Luís Peixoto, de Tramagal, do Partido Comunista Português, que chegou a ser deputado na Assembleia da República, à quinta-feira Luís Manuel Gonçalves, do Sardoal, também independente mas ligado ao PRD, e à sexta-feira João Graça Vieira, diretor da informação da Rádio, dava o ponto de vista do PSD”.

Conta que, nessa procura jornalística para entrevistar figuras ligadas aos vários quadrantes partidários, a RAL “foi um bocado responsável pelo renascimento do CDS em Abrantes”. Do lado do Partido Socialista, “que tinha à frente o grande democrata que era o Dr. António Bandos, recordo-me ter descoberto que a rádio era um grande veículo para divulgar as ideias do partido e chegou a uma altura em que o Partido Socialista marcava reuniões e eventos” de acordo com a agenda da Rádio.

Refere esse trabalho na RAL como “uma pedrada no charco em Abrantes, que as pessoas hoje e de alguns anos para cá esqueceram… não têm memória da história, homenageiam pessoas que pouco fizeram pela Rádio e esquecem-se de vários outros que lutaram para que a Rádio fosse um órgão de referência a nível regional e nacional”, critica.

A RAL mereceu reportagens publicadas na Associação de Rádios Locais, “que gravava em cassetes os melhor programas das rádios locais e depois distribuía pelos associados de todo o País”.

Mário Jorge de Sousa em 2005. Créditos: Paulo Jorge de Sousa

A Guerra do Ultramar e a politização

Como qualquer rapaz da sua geração, Mário Jorge de Sousa alcançando a idade para a incorporação militar não escapou à Guerra Colonial, sendo mobilizado para Angola onde inclusivamente passou o 25 de Abril. “Era operador de mensagens e colaborei no boletim da tropa. Quando tirei a especialidade, no Porto, o quartel tinha uma rádio interna muito bem equipada e passava o tempo na rádio à qual me dedicava e ao boletim. Fiquei em penúltimo lugar nesse curso de cabos… ainda houve um ou dois que nem a cabos chegaram”, ri.

Conta que foi em Angola, onde esteve de fevereiro de 1974 até julho de 1975, com todo o processo revolucionário, que se politizou. “Percebia pouco de política. Era um jovem hippie, idealista de cabelo grande, calças à boca de sino, tinha noção de algumas injustiças sociais mas não era politizado”, à semelhança de grande parte dos portugueses, observa.

Com a chegada da democracia traçou-se então um antes e um depois, mas todos esses anos acabariam por contribuir para as decisões tomadas ao longo da sua carreira. Depois do 25 de Abril integrou então a redação do jornal ‘O diário’, “o jornal oficioso do Partido Comunista”, como o descreve. “Não era o oficial porque esse é o ‘Avante!’.” Uma grande escola de jornalismo onde diz ter aprendido os princípios básicos e muita ética jornalística. “Basta dizer que o diretor era Miguel Urbano Rodrigues. Quando o jornal acabou, grande parte dos colaboradores espalharam-se por todos os órgãos de referência, como o José Jorge Letria”, exemplifica.

Regionalmente trabalhou no jornal de Torres Novas, ‘A Forja’, no ‘O Ribatejo’, esteve no nascimento do abrantino ‘Primeira Linha’, “um jornal muito meritório, que infelizmente desapareceu”. Agora, diz,  “em Abrantes a comunicação social é muito fraca e incipiente, não corresponde aos anseio da nossa região”, avalia.

E enquanto conta a sua história salienta ainda a sua colaboração na revista dos anos 1980, igualmente abrantina, ‘Tudo Como Dantes’ que “reunia as principais pessoas ligadas à Cultura de Abrantes, Sardoal, Constância e Mação”. Fala de Mário Semedo, Rolando Silva, Nelson de Carvalho que viria a ser presidente da Câmara Municipal de Abrantes.

Embora com raízes agarradas em Sardoal, Mário Jorge de Sousa mudou-se para Lisboa onde esteve “bastantes anos” como profissional da Imprensa Nacional Casa da Moeda, colaborando paralelamente em “muitos boletins”.

Politicamente, tendo crescido num País em ditadura, vivendo a liberdade, Mário Jorge de Sousa começou por integrar os GDUP – Grupos de Dinamização de Unidade Popular, “os grupos que estavam a enquadrar Otelo Saraiva de Carvalho à primeira Presidência da República. Promoviam e apoiavam”. Chegou a ser responsável concelhio mas, pouco depois, desiludido com a política, afastou-se.

Entretanto chegou a Sardoal Domingos Marques, ligado ao Partido Comunista Português, que convenceu Mário a ir além das palavras passando à ação. Militou então “durante muitos anos” no PCP, sendo membro da concelhia, por duas vezes candidato à Câmara Municipal de Sardoal pela CDU, em 1982 e 1993, uma vez cabeça de lista à Assembleia Municipal, tendo ocupado vários lugares nas listas, “porque não nos batíamos por lugares mas por ideias”.

Refere não ter saído do PCP, tão pouco foi expulso, mas “o divórcio pacífico” aconteceu. “Alguém achou que não correspondia às expectativas e não me renovaram o cartão, mas não houve rutura. Continuo a votar no Partido Comunista Português por ser aquele que considero estar mais próximo das minhas ideias, apesar de muitos erros que comete e muitas coisas que poderia fazer e não faz”.

Mário Jorge de Sousa em entrevista à RTP. Créditos: Paulo Jorge de Sousa

A infância na vila jardim

Mário Jorge de Sousa chegou a Sardoal praticamente no final da infância, tendo frequentado o ensino primário até à quarta classe. Os pais não possuíam condições financeiras para pagar os estudos ao filho. “Naquela altura só as famílias abastadas e os ricos é que iam estudar”.

Quando chegou de Angola, da Guerra do Ultramar, “estava a começar o ciclo preparatório, o ensino noturno para adultos” e Mário frequentou o curso. Foi eleito, juntamente com um colega, para o conselho diretivo da Escola como representante dos alunos, o diretor era José Alves Jana, recorda. Mais tarde, então a trabalhar em Lisboa, candidatou-se ao exame Adhoc e entrou no curso de Comunicação Social, na Universidade Nova de Lisboa.

“Éramos mais de cem candidatos fiquei em segundo lugar, entrámos cinco na faculdade. Frequentei o curso durante dois anos e meio mas não terminei porque entretanto saí da Imprensa Nacional por incompatibilidade com o diretor. Ao fim de quatro anos e seis processos disciplinares fui despedido. No último nem me defendi”, porque na verdade já havia saído, conta.

Fala na faculdade como o primeiro instrumento de consolidação de conhecimento e na rádio como o local afetivo onde aplicou o que aprendeu. “Esses anos na faculdade deram-me uma ideia mais pragmática daquilo que é a comunicação e esses dois anos e meio valeram-me de muito e deu para sistematizar algumas ideias que sabia por instinto, porque escrevia para jornais, conhecia as redações e o ambiente do jornalismo”, refere.

Em certo momento da sua vida, principalmente depois de constituir família e de ser pai, Mário Jorge percebeu que não poderia continuar a trabalhar com precariedade e com salários baixos.

“Hoje os dirigentes das empresas não têm muita noção do que é a comunicação social. Na altura essa noção existia mas ganhava-se muito mal e nem sempre se recebia a tempo e horas. E já tinha sido pai, tinha uma vida, precisava de dinheiro para pagar os meus compromissos.”

Deixou de ser jornalista para assumir o papel de assessor político na qualidade de secretário, aceitando o convite do presidente da Câmara Municipal de Constância, António Mendes, função na qual passou também a definir o Boletim Municipal daquele município.

“Na altura a Câmara era da CDU mas eu só conhecia o presidente António Mendes das entrevistas na rádio”. Mário Jorge ficou nove “gratificantes” anos na Câmara de Constância.

Manifesta orgulho em ter pertencido ao “núcleo duro que colocou as Festas da Boa Viagem no mapa nacional, que criou as Pomonas Camonianas e uma série de acontecimentos. Todos os dias havia coisas em Constância, um concelho muito dinâmico onde se trabalhava muito, com poucos funcionários, havia um grande entusiasmo. O presidente António Mendes é para mim o exemplo do autarca modelo; um homem dedicado ao seu concelho, sem grande instrução mas com grande inteligência. Quando não sabia perguntava, quando tinha dúvidas perguntava, até ficar convencido”.

Mário Jorge de Sousa na sua função de jornalista entrevista Lúcia Moniz em 2007. Créditos: Paulo Jorge de Sousa

Até que em 1999 mudou-se para a Câmara Municipal de Sardoal, a convite do presidente Fernando Moleirinho. Só aceitou seis anos passados do autarca ser eleito. “Fui como secretário mas rapidamente passei a chefe de gabinete, deu-me condições de trabalho e autonomia”. Uma opção relacionada com “a terra onde me sentia melhor, onde tinha memória” e onde trabalhou 14 anos sendo responsável pela renovação do Boletim Municipal.

“Criamos um novo Boletim Municipal juntamente com o Paulo Sousa, que foi fundamental na parte fotográfica. Parte do êxito do Boletim não só se deve aos critérios editoriais mas também à qualidade dos textos e das imagens. O presidente deu-me autonomia total”, que resultou na abertura à sociedade civil.

Também em Sardoal, juntamente com Luís Manuel Gonçalves, fez o Boletim Cultural ‘Atrium’ dos GETAS- Grupo Experimental de Teatro Amador de Sardoal –, mais tarde designado Centro Cultural.

“Uma pedrada no charco porque teve muita recetividade dos leitores. Não havia nada no Sardoal. Era fotocopiado, com colagens, com letras decalcadas. Dobrávamos, agrafávamos e dávamos às pessoas que contribuíam com o que quisessem. Muita gente deu-nos dinheiro, que possibilitava que pagássemos as fotocópias do número seguinte”, refere.

O Boletim mereceu a colaboração de historiadores e outros colaboradores, como o seu irmão, Paulo Jorge de Sousa. “Tínhamos um laboratório fotográfico no GETAS, onde eram reveladas as fotografias”, conta.

Mário Jorge de Sousa em 2009. Créditos: Paulo Jorge de Sousa

A veia associativa no teatro amador do Sardoal

No inicio dos anos 1980 apareceu os GETAS – Grupo Experimental de Teatro Amador de Sardoal. Depois sofreu um revés, quase que se extinguiu, mas graças ao sardolense Eusébio Paulino, o Grupo renovou-se e Mário Jorge de Sousa entrou para os corpos sociais a seu convite. O grupo passou a designar-se então Centro Cultural por incluir, além do teatro, dança, artes plásticas, música coral e outras valências artísticas e culturais.

O GETAS “foi o responsável pela grande transformação do teatro no Sardoal. Era um teatro amador, com muitas limitações técnicas, mal feito, pesado, com récitas que demoravam três horas e os GETAS apresentou um novo tipo de teatro, com peças curtas, com cenários pequenos que desse para a itinerância porque visitávamos outras terras e ganhávamos algum dinheiro com isso”.

E pela primeira vez um autor clássico foi representado no Sardoal, com a peça ‘O Tio Simplício’ de Almeida Garrett encenada por João Coutinho, da Companhia de Teatro Borda D’Água da Chamusca, que “modificou o paradigma” local.

Até então, nem mesmo Gil Vicente havia sido representado em Sardoal. Mais uma vez o GETAS tomou a dianteira representando ‘O Auto da ‘Índia’, em 1988. “Fomos nós que trouxemos o Gil Vicente à sua terra através da encenação com fragmentos das peças de teatro onde Gil Vicente fala de Sardoal, sobretudo a Tragicomédia Pastoril da Serra da Estrela”, refere.

Apostando no “cariz profissional” das apresentações, o GETAS participou na teatralização da ‘Crónica dos Bons Malandros’, iniciado pelo grupo de Tomar Fatias de Cá. “Eram uns 20 ou 25 grupos de teatro do distrito [de Santarém]”, indica, sendo o grupo sardoalense o segundo que mais recursos utilizou na participação desses projetos.

A peça estreou em Lisboa no Teatro da Trindade, com a presença de Mário Zambujal, onde permaneceu em cena três dias, “e foi um grande postal dos GETAS a nível distrital”. Os ensaios decorriam no Convento de Cristo, em Tomar, e a partir desse momento o grupo de teatro passou a ser uma referência.

O grupo sardoalense assumiu ainda a função de divulgador da história e da cultura do Sardoal. “Iniciámos as Festas do Concelho no figurino em que hoje existe”, lembra. A Câmara celebrava o dia do concelho, mas, “em 1986, o GETAS promoveu uma semana cultural com espetáculos diferentes todos os dias, com música popular, cinema, teatro, folclore, etc. Correu tão bem que a presidente Francelina Chambel achou mais lógico a união de recursos e daí nasceram as festas do concelho”, relembra.

O GETAS foi igualmente responsável por iniciar a tradição dos Santos Populares, no início dos anos 1990, “quando a tradição de enfeitar as capelas na Semana Santa esteve quase a desaparecer, pegou numa capela e incentivou os moradores a enfeitar outras capelas. O grupo foi a mola real para a revitalização da grande tradição de enfeitar as capelas na Semana Santa. Parte da história omitida recentemente, aquando do programa televisivo” das Sete Maravilhas da Cultura Popular em que Sardoal participou com uma candidatura, repara.

Uma associação cultural que “sempre” mereceu “muito carinho” da população. Um espetáculo do GETAS “enchia as salas e enchia as praças. Fazíamos espetáculos ao ar livre porque o Cineteatro Gil Vicente, onde hoje funciona o Lar da Misericórdia, foi demolido em 1988 e ficámos sem chão” até à inauguração do Centro Cultural Gil Vicente em 2004. “Ser dos GETAS era um estado de espírito”, sublinha.

Atualmente, “com algum pesar”, Mário Jorge de Sousa considera que o GETAS “se tem deteriorado por falta de gente, por falta de gente interessada, por falta de gente com competência para estar nas direções, por falta de apoios institucionais”. Diz ver “com muita tristeza o declínio do GETAS, porque foi algo muito importante para o Sardoal e para nós todos enquanto membros. Agora pouco mais resta do que as memórias”.

Mário Jorge de Sousa ao telemóvel… que não tem. Créditos: Paulo Jorge de Sousa

A “voragem” das comunicações e das redes sociais

Mário Jorge de Sousa assume-se como um “infoexcluído por opção”. Não tem carta de condução, não usa telemóvel, não mexe em computadores. “Não me quero adaptar. Esta voragem das comunicações e das redes sociais trouxe muitas coisas boas mas também algumas coisas más. Não me revejo nisso. Não sou contra mas não tenho necessidade de as usar”.

Reformado, colabora regularmente com a revista ‘Zahara’, uma publicação semestral da Associação Palha de Abrantes, e os textos que escreve são passados a computador pela sua mulher, que o apoia na parte digital. “Sem ela não escrevia a ninguém. Ela faz-me esse favor, mas continuo a escrever de esferográfica”.

Para Mário “não é um drama”. Procura a informação nos jornais em papel, na rádio, na televisão e afirma-se “atento” aos fenómenos da comunicação. “Posso discutir ou ter uma conversa sobre redes sociais sem mexer nas redes sociais”, mas confessa-se “sem fascínio” pelas novas tecnologias da comunicação.

Além do convite para escrever na ‘Zahara’ Mário tem recebido outros convites para colaborações, inclusive na rádio, mas recusa. “Sinto-me desiludido com meu País, com a minha região e com o meu concelho. Já não tenho vida para ser Dom Quixote”.

Fala do passado com entusiasmo, quando o jornalismo era uma missão. “O jornalista tinha um dever ético muito grande com a verdade. Hoje com a proliferação das áreas de comunicação já não é uma missão mas um trabalho em que as empresas têm orientações editoriais muito próprias. O jornalismo está submetido às condições das empresas. Um jornalista para lutar pela verdade e pela ética tem de ter boas condições de trabalho; tem de ganhar bem, tem de ser independente, os jornais não podem estar dependentes de grupos económicos que pagam a publicidade”, defende.

E exemplifica: “Os pequenos órgãos de província, se dizem mal das Câmaras Municipais, sei por experiência própria, cortam a publicidade. A imprensa regional, sobretudo a que conheço de Santarém, segue um bocado uma agenda oficial, digamos que é um Boletim Municipal dos vários municípios”.

Acredita que haveria uma maior procura pela verdade se os jornalistas ganhassem bem e houvesse mais trabalho. “Só que neste País, os jornalistas são como as outras pessoas, ganham mal. E neste momento o jornalismo português não é muito bom. Vemos o grau de independência de jornais ingleses, franceses e norte-americanos. Portugal é um País de baldas e o jornalismo é mais uma entre tantas áreas onde enchemos pneus”.

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