Sardoal | Florinda da Silva Pires, a “força interior que vem da alma” na Quinta do Côro

Florinda da Silva Pires. Créditos: Paulo Jorge de Sousa

A Quinta do Côro, uma propriedade a um par de quilómetros da vila de Sardoal, pertence à família Vieira Graça desde 1966, quando o marido de Florinda da Silva Pires, entretanto falecido, comprou a Quinta, “um lugar muito abandonado”, conta a senhora de 92 anos, com uma “força interior que vem da alma”.

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A confeção de marmelada e de outras delícias, bem como a produção de vinhos “começou de uma forma engraçada”, recorda. “O meu marido comprou a Quinta e vínhamos aqui passar férias. Na verdade ele gostava muito do campo”. Jorge Graça, empresário com um estabelecimento comercial de apetrechos para a indústria, colocou a Quinta de pé num tempo recorde plantando pomares e vinhas.

O casal vivia em Alferrarede, local do concelho de Abrantes que acolheu os pais de Florinda e a própria aos 6 meses de idade, chegada de Vila de Rei de onde é natural e onde cresceu, passando então os fins-de-semana e as férias na Quinta do Côro, devido à paixão que ambos tinham pela agricultura e pela vida no campo.

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Em 1972 decidiram fixar residência na Quinta onde abundavam os marmeleiros, nessa época ainda não em pomar mas como árvores com função de dividir os terrenos. “Houve um ano em que não se venderam, ficaram muitos, e perguntei ao meu marido se me dava os marmelos para o meu mealheiro”, ri. Entre os vários rituais gastronómicos de Florinda contava-se, já naquela altura, a confeção de marmelada, o produto pioneiro.

“Como o meu marido sofria de problemas de estômago e os marmelos têm fins terapêuticos” Florinda deu por si a fazer marmelada utilizando o segredo do Convento de Odivelas. A qualidade e a quantidade do produto originou o seu primeiro cliente, o supermercado Esmeralda, em Abrantes, onde hoje está estabelecido o supermercado Doce Mel, no centro histórico.

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A marmelada “teve muito sucesso”, recorda, e a produção começou a aumentar, levando também para o Mercado do Pombo em Alferrarede. Ao seu único filho, Paulo Graça, na época estudante de medicina em Lisboa, Florinda pediu que levasse umas tigelas de marmelada para a pastelaria Califa. Também na capital repetiu o sucesso. A partir da década de 1980, já era vendida em várias regiões do País, designadamente em diversas charcutarias de referência de Lisboa e Porto.

Florinda da Silva Pires. Créditos: Paulo Jorge de Sousa

Atualmente a marmelada continua a ser uma especialidade da Quinta do Côro, a par do doce de figo, das delicias pingo mel, das passas de figo, dos figos em calda, da geleia de marmelo e da geleia de rosas, iguarias a que Florinda se dedicou após “uma educação de menina para casar” e durante o matrimónio, tendo casado aos 24 anos, explica discordando da função de fada do lar e defendendo que “a mulher tem de ser independente”.

No seu tempo de juventude aprendeu pintura, música, bordados e nunca a sua mãe permitiu que fosse estudar para fora, contrariamente às suas duas irmãs mais novas, muito por causa da sua frágil saúde, depois de uma enfermidade na infância.

Em 1998, a Quinta do Côro avançou com um projeto apoiado pela Tagus – Associação para o Desenvolvimento Integrado do Ribatejo Interior, que contemplava “uma cozinha semi-industrial”, que depois foi crescendo a par do crescimento dos projetos ligados ao turismo e à gastronomia que resultaram em doces gourmet, azeites virgem extra e até vinagre.

Florinda manifesta “grande consideração” pelo então coordenador da Tagus Pedro Saraiva, garantindo ser “muito importante” para impulsionar o projeto. Mais tarde, o filho médico mas com espírito de lavrador por natureza, inaugurou a fábrica e adega, continuando a desenvolver a obra do seu pai.

Florinda da Silva Pires, na sua casa na Quinta do Côro em Sardoal. Créditos: Paulo Jorge de Sousa

A sua grande paixão pela Quinta, levou-o a avançou com o projeto de fábrica na zona industrial de Sardoal e “passámos a ter outras condições para fornecer um mercado mais amplo”, conta. Mas Florinda, apesar da provecta idade, permanece a criativa responsável pela vertente doce da Quinta.

A outra aposta são os vinhos, com a produção de cerca de 300 mil garrafas por ano. A Quinta com cerca de 70 hectares, possui 20 só de vinha que ocupou o lugar dos pomares de macieiras e outras árvores envelhecidas, numa cultura menos dispersa. O solo é argilo-calcário, de encostas com pouco declive, solarengas, agraciadas por um micro-clima acentuado que ajudam à qualidade do vinho Quinta do Côro, descreve.

Predomina uma casta tinta destacando-se a Touriga Nacional, Trincadeira preta, Cabernet Sauvignon, Syrah, Alicante Boushet e Petit Verdot. Nas castas brancas encontra-se Encruzado, Verdelho e Arinto. A adega composta com uma sala para provas de vinhos onde antigamente funcionou um lagar, possui equipamentos modernos mas mantém o original como as mós, o chão em pedra, as talhas de barro, os degraus rústicos para os diferentes pisos e tapeçarias da região.

Jorge Graça começou a adega familiar, “fazia-se o vinho para o pessoal” que trabalhava na Quinta e o projeto do filho “deu outra dimensão à vinha” e ao vinho merecedor de prémios, incluindo medalhas de ouro em concursos além fronteiras como em Bordéus, galardões considerados “muito honrosos” pelo reconhecimento chegar de terras de vinhos famosos e premiados. O topo de gama dos vinhos da Quinta é o branco encruzado D. Florinda e o tinto com o mesmo rótulo em homenagem à mãe. “Uma ideia do meu filho”, sorri.

Desde então, o caminho tem sido de expansão, tendo os produtos já transposto as fronteiras de Portugal e estando atualmente presentes em vários países, como Espanha, Bélgica, Luxemburgo, Holanda e Estados Unidos da América.

A Quinta do Côro está atualmente entregue aos dois netos “que adoram” e trabalham para estender o negócio a mercados exteriores, um deles formado em agronomia e outro em direito, aconselhados pelo pai “que os acompanha e apoia com a sua experiência e saber”, diz.

Na Quinta há ainda casas para alojar turistas e uma piscina para mergulhos nos dias quentes. Um curioso painel de azulejos revelando o casamento de um galo prende a atenção de quem circula entre as casas da Quinta. “Uma alegoria” encomendada por Paulo Graça.

Quinta do Côro. Créditos: mediotejo.net

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