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Sardoal | Doenças do javali preocupam veterinários do Médio Tejo

A tuberculose e a triquinose nos javalis estão a preocupar os veterinários da região do Médio Tejo. Não sendo região de risco está perto da zona raiana, onde a vigilância a estes animais é sistemática por serem considerados agentes transmissores de doenças que podem chegar ao Homem. O Clube de Caçadores de Valhascos e Cabeça da Mós (Sardoal) realizou no sábado, 7 de julho, uma sessão de esclarecimento para caçadores. Sobre este alerta, o mediotejo.net falou com dois médicos da Unidade de Saúde Pública do ACES Médio Tejo que garantiram não haver motivo de preocupação. Não há registo de qualquer caso de contaminação no Médio Tejo, mas ficam os alertas.

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Durante perto de três horas foram apresentadas as zoonoses mais graves, mas com claro enfoque na peste suína, que apesar de não se transmitir aos humanos pode levar à destruição completa das suiniculturas nacionais, tendo sido também reportadas as regras de comercialização e consumo de carne de javali, onde se fez passar a mensagem de que é expressamente proibida a venda e aquisição pública de carne de javali que não tenha sido alvo de certificação veterinária, após processamento em local certificado para o desmanche e processamento desta carne. Por outro lado, foram apresentadas quais as condições em que se considera que o caçador pode consumir livremente esta carne, o chamado “autoconsumo”.

A tuberculose e a triquinose nos javalis estão a preocupar os veterinários da região do Médio Tejo. Os caçadores quiseram saber os perigos do consumo da carne de javali. Foto: DR

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Os alertas chegaram ao Médio Tejo, preocupados que estão os veterinários da região, nomeadamente os municipais, os que acompanham as montarias de caça ao javali e a própria Direção Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV) com as doenças que afetam o animal, o seu consumo e a saúde pública.

Yolanda Vaz (DGAV) esteve este sábado em Valhascos, perante uma audiência de mais de 200 caçadores de javali, para alertar, sem que haja no entanto motivos para alarme, sobre os perigos de consumir carne de javali sem esta ser inspecionada devidamente por um médico veterinário e para sensibilizar para as boas práticas do manuseamento da carcaça, nomeadamente da importância do desmanche em sala própria, outras questões de higiene e contaminação.

Isto porque, a região do Médio Tejo está perto da zona de quarentena da tuberculose, com Esmeralda Almeida (veterinária municipal de Gavião, Nisa e Crato), também presente na sessão de esclarecimento do Clube de Caçadores de Valhascos e Cabeça da Mós (Sardoal) a acreditar que a doença “vai chegar” ao Médio Tejo.

A sessão, que contou com a colaboração de outros interessados na temática como André Raposo (PanoramaGlobal), versou sobre as doenças que afetam animais de caça maior e que se transmitem aos humanos, quer por contacto, quer por consumo. As chamadas “zoonoses”, com enfoque nas mais graves que afetam o “sus srofa”, ou seja, o javali, designadamente, tuberculose, triquinose e brucelose e ainda a peste suína africana que, apesar de não se transmitir aos humanos, pode contagiar os porcos domésticos.

Yolanda Vaz durante a sessão de esclarecimento sobre as doenças do javali em Valhascos. Foto: mediotejo.net

Sobre esta última doença Yolanda Vaz deu conta dos países da Europa, essencialmente no Leste, que têm surto e as formas como estão a tentar defender a suinicultura. A União Europeia é uma zona indemne (zona não infetada), referindo o caso particular de Itália com peste suína africana na Sardenha, onde a doença é endémica.

Referiu ainda a nova lei comunitária publicada em junho último que proíbe a comercialização de javalis com países fora do espaço da União. Em Portugal o plano é de vigilância e de contingência, realizando-se há vários anos avaliação dos javalis na zona da raia e das 300 amostras recolhidas as análises foram negativas, explicou.

A preocupação dos veterinários centra-se essencialmente na triquinose, doença que não representa perigo se a carne for bem cozinhada, e na tuberculose. Sendo o javali agente transmissor do bovino, e a tuberculose bovina, uma doença causada por uma bactéria designada pelo nome de Mycobacterium bovis, contagiosa a praticamente todos os mamíferos, entre os quais se contam os cervídeos, gatos, cães e o próprio homem, “através do leite de uma vaca infetada” disse Yolanda Vaz, admitindo ao mediotejo.net tratar-se de uma “possibilidade ínfima”.

Esta preocupação pela saúde pública cresce face à quantidade de javalis que é abatida todos os meses nos chamados períodos “lunares”, em que o caçador, pelo processo de espera e durante 10 dias por mês (período da lua cheia) tenta abater o animal.

Sucede que, quando o consegue fazer, raramente sujeita o animal a qualquer controlo sanitário e confia apenas na sua experiência para detetar eventuais doenças. Daí que além de falar dos planos de vigilância sanitária em caça maior em Portugal, da legislação e disposições administrativas para colocação de carne de caça no mercado e das medidas de prevenção a adotar nas zonas de caça pelos caçadores, a inspeção sanitária dos animais abatidos tenha sido a tónica naquela sessão de esclarecimento.

Maria dos Anjos Esperança e Rui Calado na Unidade de Saúde Pública de . Foto: mediotejo.net

No entanto, os médicos delegados de saúde pública da Unidade de Saúde Pública do ACES Médio Tejo, Rui Calado e Maria dos Anjos Esperança, com quem o nosso jornal falou, afastaram essa preocupação.

“A bactéria da tuberculose animal é diferente da bactéria que infeta o Homem, e o contágio é sempre por via aérea ou através de saliva” disse ao mediotejo.net Rui Calado, salientando que no caso dos porcos “a preocupação prende-se com a carne mal cozinhada e os pratos de javali, até por ser uma carne dura, por norma é grande o tempo de cozedura. Sendo bem cozinhada não há perigo”, afirmou.

Os delegados de saúde pública não têm conhecimento de qualquer caso de contaminação através de carne de javali no Médio Tejo. Até porque quer a tuberculose, quer a triquinose, tal como o quisto hidático são doenças de “notificação obrigatória e não há qualquer registo” no relatório de doenças de declaração obrigatória, explicou Maria do Anjos Esperança, acrescentando que todos os hospitais são obrigado a realizar a declaração, mediante tal diagnóstico.

De salientar que a Unidade de Saúde Pública de Alcanena é a única do País acreditada pelo departamento de qualidade na saúde da Direção Geral de Saúde.

No entanto, a médica veterinária Esmeralda Almeida insistiu no perigo de contágio da tuberculose. Durante a sessão de esclarecimento dirigindo-se aos caçadores alertou: “não acreditem nos médicos que dizem que a tuberculose animal não afeta os humanos”.

A DGAV identificou uma área epidemiológica de risco para a tuberculose de animais de caça maior, por serem vistos como potenciais reservatórios da doença, tendo elaborado o mapa onde estão identificados os concelhos onde comprovou a existência do agente causal da tuberculose bovina, onde se compreende Alandroal, Arronches, Barrancos, Campo Maior, Castelo Branco, Castelo de Vide, Crato, Elvas, Idanha-a-Nova, Marvão, Moura, Mourão, Nisa, Penamacor, Portalegre, Reguengos de Monsaraz, Serpa, Vila Velha de Rodão e Vila Viçosa.

O Plano de Vigilância Sanitária de Caça Maior refere, relativamente a análises recolhidas em 300 javalis de janeiro a março de 2018, dois casos de triquinose nos concelhos de Vinhais e Bragança. Yolanda Vaz adverte para o perigo de contágio ao ser humano no caso de “carne mal cozinhada”.

O objetivo da ação em Valhascos passou essencialmente por sensibilizar os presentes para a importância do exame inicial ser realizado por um veterinário, também fora da zona de risco, e não apenas por alguém certificado por uma formação, ou até pela experiência de um caçador local de desmanche da carcaça, bem como as práticas relacionadas com o exame inicial, devem assegurar que os exemplares de caça assim como os intervenientes no processo sejam protegidos de contaminação tanto quanto possível, sublinhando que este assunto ainda não é preocupante na região, não havendo, por isso, motivos para qualquer alarme.

“Em conjuntura económica difícil, tem-se verificado que alguns caçadores sem escrúpulos e de forma furtiva têm vindo a oferecer com mais frequência esta carne para venda, a preços irrisórios, e por isso de fácil aquisição. E é conhecida na nossa região (Ribatejo, Beira Baixa, Alto Alentejo) a procura e oferta gastronómica desta carne e a sua comercialização e venda ao público, quer em restaurantes, quer em festas populares, todo o ano, sem que haja qualquer controlo sanitário”, lê-se na nota informativa enviada às redações.

André Grácio, um dos responsáveis pela sessão de esclarecimento do Clube de Caçadores de Valhascos e Cabeça da Mós, que pertence ao Conselho de Segurança Municipal, explicou ao mediotejo.net serem “75 as zonas de caça na região [Abrantes, Sardoal, Mação, Gavião e Constância] sendo a carne para auto-consumo do caçador não passa pelo crivo da inspeção sanitária, mas para comercializar tem de passar por uma estabelecimento aprovado de manipulação de caça maior. O que muitas vezes não acontece, podendo um javali de 50 quilogramas ser vendido para restaurantes por 20 ou 30 euros”.

Calcula-se que nas regiões do Ribatejo, Beira Baixa e Alto Alentejo serão abatidos, por período lunar, no mínimo e por defeito, de 500 a 1500 javalis (1 a 3 javalis, por lua e por zona de caça), o que perfaz, anualmente, entre 6.000 a 18.000 javalis que são consumidos, em público ou privado, sem praticamente qualquer controlo sanitário.

Segundo a organização, pretendeu-se “facultar aos caçadores, empresários da restauração e cidadãos em geral, toda a informação essencial e respetivos esclarecimentos, com um sentido totalmente prático”. Durante a sessão a médica veterinária Esmeralda Almeida realizou uma demonstração na carcaça de um javali, congelado há duas semanas, cedida pela Associação de Caça da Barrada (Abrantes), não tendo encontrado qualquer sinal de doença na mesma.

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Paula Mourato
A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.
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