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Domingo, Julho 25, 2021

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Sardoal despediu-se de 100 anos com António Moleirinho

Nascido no Sardoal, em 15 de março de 1915, António Moleirinho Júnior teve uma infância igual à de tantos outros rapazes daquela época. Sapateiro, músico e ator, e sempre com a sua inseparável bicicleta, Moleirinho acabou por formar uma orquestra com uns amigos: “Pérola do Ritmo”. O êxito foi tal que o presidente da Câmara de então, Lúcio Serras Pereira, a pedido do presidente da Filarmónica, os proibiu de tocar no concelho. Em compensação, não havia evento importante em Abrantes no qual não marcassem presença. O Ti Moleirinho foi hoje a sepultar. Consigo levou inúmeras histórias para contar, deixando uma comunidade mais rica pela vida que levou e dedicou à música e à cultura em Sardoal.

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“Era uma figura muito acarinhada na terra e foi um músico muito dedicado à Filarmónica União Sardoalense, também ela centenária. Conhecia a história e a cultura de Sardoal como poucos”, disse ao mediotejo.net o presidente da Câmara de Sardoal, Miguel Borges.

“Era uma pessoa fantástica, de um grande amor à sua terra e com uma grande lucidez e clarividência. Guardarei comigo, para sempre, a imagem dele a passar na sua inseparável bicicleta em direção à sua horta, numa estrada que era toda dele”, disse o autarca, que também cruzou caminho com Moleirinho Júnior na banda do Sardoal.

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No dia da morte de António Moleirinho, na sexta-feira, foi a Filarmónica das primeiras a prestar-lhe homenagem, com um pequeno tributo publicado na página online da FUS:

“Hoje, a Filarmónica União Sardoalense (FUS) ficou humanamente mais “pobre”…faleceu o Sr. António Moleirinho com “100 primaveras”…ex-músico, elemento da “velha guarda da Filarmónica União Sardoalense” (como ele o dizia com tamanho orgulho e brilho nos olhos)! Muitas foram as histórias e as músicas partilhadas que daquele tempo ainda recordava como se fosse hoje!!

A ele agradecemos, mais uma vez, por toda a sua partilha, encanto, Amor à Música, Amor à sua e Nossa FUS, que lá do céu olhe por nós e nos continue a acompanhar e a orgulhar-se da sua Filarmónica União Sardoalense!

A FUS presta condolências à Família do Sr. António Moleirinho.

Cumprimentos, FUS!”

Contactado hoje pelo mediotejo.net, a caminho das cerimónias fúnebres, César Grácio, presidente da direção da FUS, lembrou o homem que “tocava saxofone, o bom músico que esteve sempre disponível para a Banda”.

“Era um bom músico e uma personagem com algum peso na Banda. Hoje, todos lhe prestamos homenagem e fazemos esta última viagem com o Ti Moleirinho”.

As 100 Primaveras de António Moleirinho

A última entrevista em vida ao homem que aos 100 anos ainda andava de bicicleta e amanhava a sua horta: Texto cedido por Cláudia Costa e publicado no Boletim de Sardoal/Abril 2015

Conversar com António Moleirinho é como caminhar por um Sardoal remoto, entrando nas memórias profundas do nosso concelho, narradas na primeira pessoa. A lucidez, eloquência e vasta cultura deste homem não deixam transparecer que completou um século de vida em 15 de março passado.

Facilmente o associamos à figura simpática e carismática que se desloca de bicicleta pelas ruas da nossa Vila com a agilidade de um jovem. Contudo, António Moleirinho é muito mais do que isso… Nascido no Sardoal, em 15 de março de 1915, António Moleirinho Júnior teve uma infância igual à de tantos outros rapazes daquela época. Entrou para a escola, no local onde hoje funciona o “ensaio da música” aos sete anos e, aos onze, terminada a instrução primária, começou a trabalhar na fábrica de malas dos “Paulinos”.

Considerando que os 25 tostões que auferia por dia eram pouco, mudou-se para a fábrica “Pereiras & Carvalho, Lda.”, onde trabalhou na criação de suínos, serração e na malaria. Nesta unidade fabril chegou à categoria de encarregado apenas com 16 anos. Dois anos depois, saiu para seguir o sonho de ir para a tropa, tendo ingressado na Escola de Sargentos.

Foi após deixar a vida militar que aprendeu o ofício de sapateiro. Durante dois anos foi aprendiz sem remuneração na loja de Adelino Serras. Seguiu-se Lisboa, cidade onde trabalhou durante algum tempo, mas o amor falou mais alto e voltou para o Sardoal para casar com a paixão da sua vida, Florentina.

Pretendentes não lhe faltavam: “Eu era um moleque. Era mesmo jeitoso, tinha um cabelo muito bonito e as cachopas todas gostavam de mim, mas era da minha adorada Florentina que eu gostava e foi com ela que casei”.

Ao longo da entrevista, Moleirinho não poupou elogios à mulher com quem esteve casado mais de 70 anos e com quem teve dois filhos: Manuel e Fernando. As suas palavras refletem o forte sentimento que, ainda hoje, nutre por ela.

Fixou-se, então, no Sardoal. Montou a sua loja, junto à Praça Nova, em 1945, onde exerceu a profissão de sapateiro durante mais de 40 anos. A sua loja era “um sítio onde se juntavam altas figuras do Sardoal e de fora”.

Depois de ser pai, as suas grandes preocupações passaram a ser possibilitar aos filhos uma educação que lhes permitisse ter uma vida melhor do que a dele e conseguir evitar que eles fossem para a guerra. Objetivos que alcançou com o esforço do trabalho e dos quais fala sem conseguir esconder o orgulho.

Apesar das muitas horas de trabalho na loja, António Moleirinho foi músico na nossa Filarmónica durante mais de 40 anos, da qual saiu para integrar uma orquestra. Na altura, já tinha os filhos a estudar e o dinheirinho extra que ganhava nas atuações era uma ajuda.

Acabou por formar uma orquestra com uns amigos: “Pérola do Ritmo”. O êxito foi tal que o Presidente da Câmara de então, Lúcio Serras Pereira, a pedido do Presidente da Filarmónica, os proibiu de tocar no concelho. Em compensação, não havia evento importante em Abrantes no qual não marcassem presença.

O teatro também fez parte da sua vida, nomeadamente nas récitas que eram feitas, no antigo Cine-Teatro Gil Vicente, para angariar dinheiro para manter a Filarmónica. Guarda grande parte das suas memórias em textos que escreveu. Hoje, as cataratas já não lhe permitem escrever tanto.

Aos 100 anos é um exemplo de energia e vitalidade. Gosta de jardinar no seu quintal, dar o seu passeio de bicicleta, fazer as suas próprias compras, dar “dois dedos de conversa” e, quando a comida que lhe preparam não lhe agrada, não se faz rogado em cozinhar um petisco.

António Moleirinho encerra em si um vasto conhecimento que faz dele uma verdadeira enciclopédia histórica viva do Sardoal. Transpor as vivências deste homem para o papel torna-se tarefa árdua e impossível de alcançar nas páginas deste Boletim.

 

– A entrevista foi conduzida por Cláudia Costa a António Moleirinho em março de 2015, com publicação em Boletim Municipal de Sardoal. A foto é do Paulo Sousa.

– Aos familiares, à FUS, aos amigos e sardoalenses em geral, o mediotejo.net expressa os seus sentimentos pela partida de uma figura marcante em 100 anos de história de Sardoal.

A experiência de trabalho nas rádios locais despertaram-no para a importância do exercício de um jornalismo de proximidade, qual espírito irrequieto que se apazigua ao dar voz às histórias das gentes, a dar conta dos seus receios e derrotas, mas também das suas alegrias e vitórias. A vida tem outro sentido a ver e a perguntar, a querer saber, ouvir e informar, levando o microfone até ao último habitante da aldeia que resiste.

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