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Segunda-feira, Setembro 20, 2021

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Sardoal | Antiga escola transforma-se em ‘Lugar de Memória’ em Santiago de Montalegre

Para resgate e reconstrução do passado, com preservação e divulgação das gentes, dos usos e dos costumes de Santiago de Montalegre, Vasco Navalho e Cláudia Luís decidiram implementar o conceito de ‘Lugar de Memória’ na antiga escola primária daquela aldeia do concelho de Sardoal.

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Em cerca de uma semana montaram a exposição e abriram ao público, no dia 13 de junho de 2021. Vasco Navalho, residente em Mogão Cimeiro, que toda a vida colecionou peças (tem 63 anos), “aos 13 já comprava objetos na Feira da Ladra” em Lisboa, disse ao mediotejo.net. “Tinha muitas peças em casa sem espaço para guardar” e a sala da escola “estava vazia”, notou.

Entregue pela Câmara Municipal de Sardoal à Associação dos Amigos de Santiago de Montalegre, a mostra encontra-se na sala que o passado reservou às raparigas, em tempos sem turmas mistas.

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Um projeto idealizado para ser um pequeno núcleo museológico dos suportes culturais de usos e costumes daquela freguesia do concelho de Sardoal, designadamente os utensílios caseiros e de lavoura, as antigas explorações de minérios e a paleontologia, e os fósseis (trilobites e cruzianas) que em Santiago de Montalegre, diz-se, “parecem nascer das pedras”.

Peças da exposição no ‘Lugar de Memória’ em Santiago de Montalegre. Créditos: mediotejo.net

“Na nossa zona, as trilobites e cruzianas são fáceis de encontrar e não estão muito divulgadas. O objetivo foi também dar a conhecer, primeiro aos nossos, para valorizar, e depois ao exterior”, explica Cláudia.

No ‘Lugar de Memória’ todos os meses está em destaque uma peça nova. Em agosto uma carteira escolar ainda do tempo de Vasco enquanto menino, com espaço para tinteiro e uma caneta de aparo que estava guardada na escola, bem como a ardósia na parede em frente onde se lê um escrito a giz do Padre António Vieira:

“Se no passado se vê o futuro, e no futuro se vê o passado, segue-se que no passado e no futuro se vê o presente, porque o presente é futuro do passado, e o mesmo presente é o passado do futuro”.

‘Lugar de Memória’ em Santiago de Montalegre. Créditos: mediotejo.net

Uma parte da mostra dedicada à agricultura tradicional, praticada no minifúndio, em Santiago de Montalegre, para consumo próprio, à exceção do vinho e do azeite que, quando em abundância eram vendidos, contribuindo assim, para um maior equilíbrio económico da família.

Pode ver-se uma Moeira, instrumento de debulha dos cereais, uma Masseira, as Medidas de Volume de cereais, o Crivo e a Joeira, por exemplo.

“Tentámos dividir os núcleos pelo quotidiano rural, do lar às profissões”, explica Cláudia. Para guardar os têxteis, não falta a típica mala de folha de Flandres, nem o rádio, importante instrumento de informação e entretenimento das famílias antes da chegada da televisão.

“Tenho muitos, já cheguei a ter 100”, diz Vasco, que é proprietário da maioria das peças que estão expostas no ‘Lugar de Memória’ embora a mostra conte com muitas outras peças das gentes de Santiago de Montalegre que “entusiasmadas” com a iniciativa têm vindo a oferecer à Associação.

Peças da exposição no ‘Lugar de Memória’ em Santiago de Montalegre. Créditos: mediotejo.net

“Aderiram muito, temos coisas guardadas que não couberam” na exposição “por falta de espaço”, diz Cláudia. A ideia passa, por isso, por “ir trocando as peças” e renovando a mostra.

O ‘Lugar de Memória’ conta já com mais de 500 peças, sendo que Vasco, noutros dois museus privados, arrisca uma contabilidade na ordem das 40 mil peças.

Também não faltam revistas e jornais, como exemplares de ‘O Século Ilustrado’, ‘Mundo Gráfico’, ‘Crónica Feminina’ e o jornal ‘Diário de Notícias’ datado de 27 de abril de 1974, dois dias após a revolução dos cravos cuja manchete foi “Normalização e liberalização da vida política nacional”.

A tradicional máquina de costura, que noutros tempos existia em quase todas as casas, os trajes de época, loiças, talheres, caixas de remédios e mezinhas e até fotos de gente real, designadamente uma com os alunos de 1928, com o professor Manuel Pires Valente, uma foto cedida por Ana Sofia, neta de um dos meninos do retrato, João Jorge.

Peças da exposição no ‘Lugar de Memória’ em Santiago de Montalegre. Créditos: mediotejo.net

Ao lado da zona das profissões, como ferreiro, resineiro, carpinteiro, sapateiro, barbeiro, encontramos peças da vindima, nomeadamente o alambique, um utensílio para esmagar as uvas em cima de uma salgadeira que no passado era o objeto primordial para conservar as carnes.

O espaço ‘Lugar de Memória’ nestes dois meses de existência “tem recebido muitos visitantes. Vêm beber café à Associação e aproveitam para visitar”, assegura Cláudia.

No livro de visitas lê-se por exemplo “num espaço tão pequeno como cabe um universo de memórias de vidas. Foi isso que tentámos fazer; num espaço tão pequeno temos um bocadinho de tudo”, acrescenta.

Ou quase tudo… “adoro leitos de ferro mas não couberam… não sei se um dia não ponho a cama aqui”, pensa em voz alta. No exterior pode observar-se uma enxerga de palha bem como o púlpito do padre Matias, que mereceu a última utilização no ano 2000.

“As pessoas gostam de preservar as memórias e contribuíram com ajudas financeiras” mesmo “alguns emigrantes”, dinheiro que serviu, nomeadamente para as grades das janelas, onde ainda faltam vidros, na antiga escola primária de Santiago de Montalegre, frequentada quer por Vasco quer por Cláudia Luís, refere a mesma.

O ‘Lugar de Memória’ pode ser visitado aos fins de semana (sábado e domingo) das 13h00 às 18h00, na Associação dos Amigos de Santiago de Montalegre. Basta procurar a Rua da Escola.

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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